Lições de tolerância para crianças

Lições de tolerância para crianças

Atualizado: Quarta-feira, 8 Dezembro de 2010 as 3:23

Durante um passeio no zoológico, seu filho pequeno repara em uma família muçulmana que passa e pergunta "Mamãe, o que ela está usando?", apontando discretamente para uma mulher vestindo a burca. Se você não passou por nenhuma situação similar a essa, provavelmente passará em breve.

Quando acontecer, você terá duas opções: ou responder a pergunta diretamente ou fingir que o pequeno está apontando para os avestruzes e levá-lo para a próxima jaula até pensar em que explicação dar.

Conversar com as crianças sobre a diversidade cultural pode ser muito delicado, especialmente quando se está em frente de um membro da cultura em questão.

Por isso, consultamos alguns especialistas sobre como os pais podem ajudar os filhos a entenderem a diversidade. Confira as 10 dicas que eles deram:

1. Comece com coisas, não pessoas

Ao invés de falar diretamente sobre etnia ou religião, tente induzir o conceito de diferença em crianças pequenas através de objetos. Maureen Costello, diretor do programa de Ensino de Tolerância do Centro Legislativo da Pobreza Sulista (Southern Poverty Law Center), explica que essa conversa pode ser tão simples quanto mostrar vários balões e discutir como um mesmo objeto poder ter tantas cores. Até o supermercado pode ser uma experiência multicultural, Coltello sugere. "Percorra os corredores e encontre itens específicos de determinada cultura". Assim, você preparará as crianças a entenderem que "a variedade é a regra".

2. Lembre-se que o reconhecimento das diferenças não é igual à discriminação

Adultos às vezes se tornam tão preocupados com a discriminação que tentam fingir que não existem diferenças entre as pessoas. Essa é uma tática com boa intenção, mas com a tática errada, de acordo com Geneva Gay, professor de Educação na Universidade de Washington-Seattle e autor do estudo A Synthesis of Scholarship in Multicultural Education (Uma Síntese da Bolsa de Estudos em uma Educação Multicultural). "Não existe absolutamente nada errado às diferenças entre os homens", Gay aponta. "Esse é apenas um fator da vida humana".

3. Use uma linguagem que a criança entenda

Ensinar crianças a entender e apreciar a diversidade depende muito da apresentação. Especialistas encorajam uma quantidade de dados regulada com a idade. "Dê a eles o tanto de informação que eles conseguem entender na época", aconselha Gay. A criança curiosa com a burca, por exemplo, não precisa saber sobre a história do Islã, mas uma criança mais velha pode lidar com lições mais complexas.

4. Traga outras culturas para a vida de seus filhos

Livros, brinquedos e mídia eletrônica para podem ser usados para apresentar diferentes línguas e culturas. Se você estiver comprando títulos infantis, Gay sugere, "Por que não escolher aquele que traz personagens de diferentes culturas?".

5. Evite censura

Esse dilema veio à tona recentemente com a polêmica do livro Caçadas de Pedrinho, de Monteiro Lobato. Se você estiver lendo a obra para a criança e se depara com um trecho como "Tia Nastácia, esquecida dos seus numerosos reumatismos, trepou, que nem uma macaca de carvão", você leria a sentença ou a deixaria de fora?

Costello alerta contra a censura. "Algum dia seu filho saberá ler e vai descobrir que a mamãe ou o papai mentiram", ela diz. Em vez disso, ele sugere que a passagem seja discuta com o pequeno, utilizando o momento para ensiná-lo sobre o contexto histórico.

6. Fale sobre diversidade antes que o assunto apareça

Seja pró-ativa quando discutir as diferenças com seu filho. "Com crianças, você precisa fazer uma preparação antes, durante e depois", Sonia Niero, autora de Affirming Diversity (Afirmando Diversidade), diz. No momento em que o pequeno notar que os vizinhos têm uma cor de pele diferente, é melhor conversar sobre diversidade direta, aberta e pragmaticamente. Se você esperar até que ele traga o assunto à mesa, isso provavelmente acontecerá em um momento inoportuno para todos.

7. Use as situações que aparecerem

Não se envergonhe por responder a seu filho honestamente quando ele falar sobre o sotaque ou as roupas de alguém. "Crianças são naturalmente curiosas sobre as coisas que são diferentes das delas", Gay explica. "Isso incluí pessoas". A curiosidade cria momentos propícios a ensinamentos. Mas também cria episódios embaraçosos. É normal.

8. Seja natural

"Trate as diferenças naturalmente", Nieto aconselha. Em vez de ficar falando horas e horas sobre a diversidade, muitas vezes é melhor explicar para o pequeno as diferenças entre os homens da mesma fora que você ensinou-o sobre as cores – como uma faceta especial do cotidiano.

9. Considere os sentimentos das outras pessoas

Voltemos à cena do zoológico. Uma decisão possível seria incentivar a criança a perguntar para a mulher porque ela se vestia daquela forma.

Essa é uma boa, porém arriscada abordagem. "Eu acho que a maioria dos adultos prefere uma pessoa pergunte a uma que fique encarando". Diz Nieto. "Mas isso não funciona sempre. É preciso usar o bom senso". Ela diz ainda que adultos deveriam demonstrar "respeito e humildade, de forma a abordar a questão de um jeito respeitoso".

10. Traga diferentes culturas para a sua vida

"Torne-se uma pessoa multicultural", Nieto aconselha. "Você precisa dar o exemplo de alguma forma" se quer que seu filho valorize a diversidade. "Faça viagens com as crianças do vizinho que sejam de etnias diferentes, vá a eventos culturais e escolha livros que reflitam a diversidade do mundo".

"O mundo é o mundo", diz Costello. "Nós não ajudamos em nada as crianças fingindo que não existem diferenças entre as pessoas".

Isso significa que não importa o quão desconfortável a curiosidade do seu filho te deixe, você não tem outra escolha a não ser respondê-la.

Em todo caso, se você passar por uma situação como a do zoológico, também é importante ensinar o pequeno a não apontar.

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