Madrasta boazinha

Madrasta boazinha

Atualizado: Terça-feira, 20 Julho de 2010 as 1:26

Pacote completo

"E aí, vai querer o pacote?" foi o que a atriz Juliana Veodovato, 28 anos, se perguntou quando conheceu o cineasta Vitor Vicentini, 39, há dois anos. Logo no primeiro encontro, Vitor contou que tinha um filho adolescente que morava com ele e Juliana ficou apreensiva.

Na terceira semana foi apresentada a Pedro, hoje com 17 anos, e sentiu mais timidez que o menino, que a recebeu com um sorrisão. Com o tempo, Juliana foi percebendo que "o pacote" era um garoto lindo, gentil, inteligente e muito bem-educado.

"A cada dia me apaixonava mais... pelos dois!", diz. "Eu observava o jeito do Vitor tratar o Pedro e pensava: 'Esse homem tem que ser o pai dos meus filhos!'" Hoje, ela e Vitor estão casados e os três dividem o mesmo teto em perfeita harmonia.

"Boadrasta"

O arranjo doméstico de Juliana é um exemplo da chamada "nova família". Segundo estimativas, até o fim desta década mais de 50% das famílias brasileiras terão formação diferente da tradicional.

Isso porque de cada dez casamentos registrados no país, apenas três resistem a mais de dez anos, e as uniões que se desfazem deixam em média dois filhos pequenos.

Como reflexo desse quadro, o número de divorciados que se casam novamente cresceu 122% na última década e o total de solteiras que se unem a divorciados já chega a quase 10%. Conclusão: jovens madrastas são personagens em ascensão nas histórias de amor.

Com a sua multiplicação, contos de fadas como Cinderela e Branca de Neve passaram a ser considerados politicamente incorretos por divulgarem a ideia de que toda madrasta é má. A carga negativa da palavra ainda é grande e por isso muitas madrastas preferem ser chamadas de "boadrastas".

Como lidar com os enteados

A fisioterapeuta Hayla Jatobá, 21 anos, garante que nunca foi vista como uma bruxa por sua enteada, Ana Vitória, 7. A menina é fruto de um relacionamento que o namorado de Hayla, Bruno Rocha, 22, teve na adolescência, e mora com os avós no interior de São Paulo.

Ana Vitória adora que a madrasta acompanhe o pai quando ele vai visitá-la e sempre recebe Hayla com largos abraços. "Acho que nosso relacionamento dá certo porque eu respeito o tempo e o espaço dos dois. Sei que antes de eu ser a namorada dele, ela é a filha", diz Hayla.

Colabora também o fato de o relacionamento entre a mãe e o pai da menina ter acabado numa boa. Se a separação ainda não foi bem digerida, é quase certo que a nova mulher vá enfrentar turbulências. E quando o homem é pai de uma menina a situação tende a ser ainda mais delicada, tanto para a madrasta, que convive com uma miniex dentro de casa, quanto para a criança, que geralmente é mais apegada a ele.

O ciúme pode ser minimizado com demonstrações de apoio à enteada. "Diga, por exemplo, 'Corra para abraçar o papai porque ele estava morrendo de saudades' quando a filha chegar", recomenda a fundadora da Associação das Madrastas e Enteados (A.M.E.) Roberta Palermo.

Quando a criança atrapalha

Por meio da A.M.E. e de um fórum disponível no site www.robertapalermo.com.br, Roberta já ouviu relatos de problemas de mais de 8 mil madrastas. Um dos mais comuns, segundo ela, é justamente a não-aceitação do relacionamento pela ex, que fala mal da madrasta para a criança e insiste em atrapalhar.

Em casos assim, o melhor é se armar de paciência e demonstrar, por meio de boas atitudes, que as coisas não são bem como a mamãe diz. "Se a madrasta brigar com a criança, ela pensará que a mãe tem mesmo razão", diz a terapeuta familiar. "A criança é o reflexo da educação que recebe. Ou que não recebe!"

Casada há três anos com o professor universitário Fernando Sica, 39 anos, a gerente de comunicação Viviane Rocha, 27, chegou a ouvir do enteado a declaração: "Se pudesse, destruiria o amor do papai por você, mas passei as férias inteiras tentando fazer isso e os planos deram errado". Naquela hora Viviane pensou em desistir de tudo, cansada dos desaforos que Henrique, 7, vivia lhe dizendo. "Mesmo sabendo que estava lidando com uma criança, muitas vezes eu perdia a cabeça e partia para a discussão", lembra ela, que decidiu fazer análise para aprender a lidar com o problema e criou a comunidade "Jovens Madrastas" no Orkut para ter com quem trocar experiências.

A mãe do menino viu a página na internet e resolveu chamar Viviane para uma conversa. Elas combinaram de, em prol do bem-estar de todos, deixar as diferenças de lado. Desde que as duas se entenderam, as crises de ciúme de Henrique diminuíram consideravelmente.

Lidando com ciúmes

A atriz Maria Julia Costa, 27 anos, nunca havia tido problemas com os enteados Jonas Jr., 17, e Audrey, 15. As crianças, que a conheciam como cliente do salão de beleza do pai, até torciam para que um namoro entre os dois acontecesse. Quando há cinco anos Maria Julia casou-se com ele, foi uma festa. Até que, há três anos, ela engravidou. Foi então que a família que parecia perfeita - os dois enteados moram com o casal - sofreu um baque.

Audrey achou que estava perdendo a atenção do pai por causa da irmã mais nova e parou de falar com a madrasta. As duas passaram três meses debaixo do mesmo teto em meio a uma desconfortável lei do silêncio. "Entendi que o problema não era pessoal e sim com a 'esposa do papai'", diz Maria Julia, que esperou que a situação voltasse ao normal naturalmente, sem forçar.

Ela fez bem. Afinal, mesmo uma mãe biológica está sujeita à raiva e ao sentimento de posse dos filhos com a chegada de um novo irmãozinho. No fundo, os problemas de relacionamento entre madrasta, ex-mulher e enteados giram em torno do ciúme - e cabe à parte adulta do embate mostrar à parte infantil que ninguém está ali para competir com ela.

Dúvidas comuns

Como lidar com o ciúme da criança?

Se ela ficar grudada no pai, convide-a para um programa com você. É importante criar vínculos e ao mesmo tempo demonstrar que gosta dela e acha importante vê-la perto do pai.

E quando o pai se sente culpado e não impõe limites?

A madrasta só tem uma saída: conscientizar o companheiro de que ele não é o único responsável pela separação e lembrar a ele que educar é também saber dizer "não". Não adianta só criticá-lo. É preciso ajudá-lo.

O que nunca se deve dizer ao enteado?

"Não gostou da comida? Peça para sua mãe fazer melhor!" Falar mal da mãe, criticá-la ou diminuí-la só faz com que a criança se afaste. A segunda frase a evitar é: "Saia do colo do seu pai, parece um bebê!". A criança precisa de afeto dos pais durante o crescimento. Ficar abraçada ou no colo do pai pode ser um momento de intensa troca afetiva. A madrasta deve controlar o próprio ciúme.

Por: Sara Stopazzolli

veja também