Madrasta no bom sentido

Madrasta no bom sentido

Atualizado: Terça-feira, 5 Abril de 2011 as 11:50

NO MUNDO, UMA EM CADA QUATRO CRIANÇAS É ENTEADA. NO BRASIL, 60% DAS FAMÍLIAS SE ORIGINAM DE UM SEGUNDO CASAMENTO. OU SEJA: TER MADRASTA OU SER UMA DELAS É CADA VEZ MAIS NORMAL. E ESSA RELAÇÃO PODE SER MUITO BACANA, SIM

Esta é a Brigitte, minha madrasta. No bom sentido, claro.” Os amigos acham graça quando Luciana diz isso. Mas, apesar do tom de brincadeira, para ela a coisa é séria. Confessa que se sente uma espécie de traidora se não deixa claro, logo de saída, que Brigitte é gente finíssima. Assim, evita mal-entendidos e preconceito. Já se passaram dez anos desde que o pai se casou pela segunda vez e Luciana, na época pequena, foi espiar no dicionário para conferir se toda madrasta era igual à da Cinderela. Era. Lá dizia: “Mulher má e sem sentimentos”. Só que Brigitte provou ser o oposto e, desde então, a enteada trava um tipo de cruzada particular para lhe fazer justiça e salvar sua reputação.

Já se disse que onde há madrasta há fogo. Se for verdade, acontece, agora mesmo, um incêndio global. Uma em cada quatro crianças no mundo é enteada de alguém, mostra pesquisa da Universidade de Ohio. No Brasil, segundo o IBGE, 60% das famílias são reconstituídas. Mesmo que em apenas metade desses casos haja uma madrasta envolvida, já seria um fogaréu. Ainda mais agora que a imagem de perigosa megera – na qual até os dicionários nos induzem a acreditar – vem sendo reforçada pela morte da menina Isabella Nardoni. Desde o crime, ouvem-se relatos de crianças que sentem medo de ir para a casa do pai que se casou novamente ou de mães que não querem ver os filhos convivendo com as madrastas.

Claro que se trata de um momento especialmente tenso, não se sabe exatamente o que aconteceu e o caso ainda vai a julgamento, mas a tragédia trouxe à tona sentimentos que cercam as relações nas famílias recompostas. Quando a Pais e Filhos foi lançada, em 1968, chegava às telas o filme Os Meus, Os Seus, Os Nossos, em que dois viúvos, um com 10 e outro com 8 filhos, se casavam. Na época, as famílias recompostas eram exceção. Hoje, são bem mais comuns. Para ajudar a entender essa nova família, a gente passa a dedicar uma coluna ao tema. Assinada por Adriana Salles, mãe de Gabriel e Olivia e madrasta de Eduardo, Juliana e Isabella, tem o título Boadrasta, porque madrasta é super do bem, uma pessoa a mais com quem a criança pode conviver  e aprender.

Adriana tem duas experiências, ambas  positivas. “Eu me casei pela primeira vez aos 18, e meu marido tinha dois filhos. Meu susto de estréia foi na primeira noite de casada: minha enteada?pediu para dormir na nossa cama. No meu segundo casamento, a mãe da minha enteada faleceu e, na minha cabeça, ficava: ‘Estou criando a filha de alguém que não conheci...’ Depois, aprendi que estava compartilhando a história com o meu marido, o pai, e nós três fomos construindo a relação.”

Estranha no ninho

Mulher alguma foi preparada para interpretar esse papel. Então, de uma hora para outra, vira Uma Estranha no Ninho, como a define no título de seu livro a psicóloga e psicoterapeuta Elizabeth Church, PhD em Psicologia Aplicada pela Universidade de Toronto. Ela própria uma madrasta, entrevistou outras 104 vítimas dessa falta de preparo e chegou à conclusão de que aí está o estopim da bomba que costuma  explodir na mão de quem se casa com um pai de família.

A arquiteta brasileira Roberta Palermo passou pela mesma experiência, que transformou em dois livros --  Madrasta, Quando o Homem da sua Vida Já Tem Filhos e 100% Madrasta – Quebrando as Barreiras do Preconceito --, em um site com fórum para debates e até numa Associação de Madrastas e Enteados (AME), que organiza encontros em São Paulo para debater o tema.

Contos de fadas

As cerca de 900 histórias (a maioria delas, infantis) escritas pintando a madrasta como uma bruxa explicam sua má fama. Mas por que logo ela foi escolhida para vilã? Pesquisas mostram que, de todos os membros da família, é quem tem a imagem mais negativa. Primeiro porque, na verdade, não faz, e nunca fará, parte da família dos enteados; depois porque, ao mesmo tempo em que não falta quem avise “fica fria, você não é a mãe deles” também não falta quem a pressione para se comportar “como a mãe deles faria”. E um conflito desses não pode dar em boa coisa. Para nossa colunista Adriana, o mais difícil foi compartilhar a educação de duas crianças com uma pessoa que não conhecia. “Eu tocava as coisas na minha casa do meu jeito e, na casa da mãe deles, as coisas aconteciam de uma outra forma. Com o tempo fomos nos alinhando”.

Se você é madrasta e se sente perdida, intrusa, fora do contexto, bem-vinda ao clube. É assim mesmo. Mas não precisa ser assim para sempre. Agora, prepare-se: mesmo quando faz tudo certinho, não dá para ter pressa. Geralmente é necessário pelo menos um ano para apagar o incêndio e quatro para as cinzas esfriarem. Foram os pesquisadores do Departamento de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul que chegaram a esses números, depois de entrevistar 400 adolescentes de classe média de Porto Alegre, filhos de recasados.

Uma das pesquisadoras, Adriana Wagner, transformou as descobertas na antologia Família em Cena -- Tramas, Dramas e Transformações, no qual chama a atenção para um erro que a chamada mãe-estepe vive cometendo com a melhor das intenções: “Transferir para a nova família o mito do amor materno e incondicional próprio do modelo tradicional”. Resumindo, a tese da dra. Adriana e colaboradores é que “ninguém é obrigado a amar como se tivesse laços de sangue”. Logo, não há razão para se corroer de culpa se não morrer de paixão pelos garotos à primeira vista. Ou à décima. E, vamos combinar, nem laços biológicos são garantia de uma relação harmoniosa 100% do tempo. Somos humanos, nos irritamos, brigamos. E, depois, fazemos as pazes e tudo certo. Sejamos pais e mães “de sangue” ou não. Adriana tem consciência disso: “Não quero passar a idéia da madrasta perfeita, pois isto não existe, assim como não existem mães perfeitas, pais perfeitos... Só que a madrasta é sempre olhada com lente de aumento. A madrasta que acorda de mau humor se transforma na “má madrasta” e não em alguém que acordou de mau humor, entendeu?”, brinca.

Conselho de madrasta

Na obra, a psicóloga Denise Falcke, que pesquisou 50 mães biológicas e 50 “substitutas”, identifica o grande drama (outro!) da madrasta como a frustração por não conseguir ser perfeita como todo mundo diz que as mães de verdade são e o medo de errar. Diante disso, se pudessem dar apenas três conselhos, os especialistas diriam que a madrasta: 1. não pode substituir a mãe; 2. não deve tentar ser uma segunda mãe; 3. não tem de se esforçar para ser a melhor amiga das crianças. O que se espera, então, de uma madrasta? Em primeiro lugar, bom senso, o que nem sempre é fácil numa situação emocionalmente tão tensa.

Um bom começo é não esperar amor e, menos ainda, fazer qualquer coisa para ser aceita. Respeito e limites são as palavras-chaves. As crianças precisam saber, por exemplo, que na sua casa existem regras que talvez sejam diferentes daquelas da casa da mamãe, porque você e o pai delas decidiram assim. Então, não estará dando ordens que podem ser respondidas com o famoso  “você não manda em mim”; estará, pura e simplesmente, esclarecendo como as coisas devem ser aqui, onde você mora. 

Deixe com o pai

Ordens e broncas são departamento do pai. Sobre isso, converse com ele. É comum se sentir culpado por não estar mais em tempo integral com os filhos e tentar compensar bancando o legal. Explique a ele que você não pode e não vai arcar com essa responsabilidade que antes era da ex. Madrastas que aceitam tal carga acabam ou se parecendo mesmo com bruxas ou mártires – e ninguém gosta de conviver com nenhuma das duas.

O ideal é você se dar bem com a mãe de seus enteados. Se for impossível, melhor fazer de conta que ela não existe. Mas no bom sentido. Significa não só nunca falar mal dela na frente das crianças (óbvio, certo?) como não aceitar provocações do tipo “o macarrão que a minha mãe faz é muito melhor do que o seu”. Lembre-se de que, nessa conversa, você é a adulta, e uma adulta esperta responderia algo como “se me mostrar como sua mãe faz, posso tentar fazer parecido, que tal?”. É o mesmo que dizer que não está a fim de competir.

As pessoas costumam achar que, por sermos mulheres, nascemos prontas para tirar de letra qualquer assunto que tenha a ver com maternidade. Isso não é verdade nem com os filhos da gente, imagine com aqueles que caem no nosso colo já crescidinhos e criados por outra.

Além desta, mais duas coisas podem ser ditas para aliviar o peso de seus ombros. A primeira é uma constatação da especialista paulista em terapia de família Maria Luiza Puglisi Munhoz, autora de Casamento: Ruptura ou Continuidade dos Modelos Familiares. As madrastas têm nas mãos, segundo ela, um trunfo poderoso: como, geralmente, são mais moças do que a primeira mulher do marido, têm mais facilidade para entender a cabeça das crianças – o chamado choque de gerações não é tão estrondoso. A segunda coisa, qualquer mãe poderá lhe contar: por mais que nos adorem, nossos filhos, às vezes, também nos acham umas bruxas. Vai dizer que você nunca sentiu isso pela sua mãe?

Toda mãe é madrasta

Aliás, toda mãe é, alguma hora, madrasta no mau sentido. Para os psicanalistas Diana Lichtenstein Corso e Mário Corso, autores de Fadas no Div㠖 Psicanálise nas Histórias Infantis, a figura da madrasta nos contos de fadas mostra, na verdade, uma face da mãe. “Subjetivamente falando, a mulher do pai não é a mesma pessoa que a mãe. A mãe é aquela que, supostamente, se completa com os filhos, que tem neles sua prioridade e jamais deseja a sua ausência. A mulher do pai tem uma história de amor a viver, que exige tempo, dedicação, e pode se superpor em importância a suas majestades, os bebês. A mulher do pai é a madrasta dos filhos, aquela para quem o casamento está em primeiro lugar, mesmo que seja a legítima mãe deles”, dizem no livro.

Ou seja: não é porque você é madrasta no bom sentido, que não pode ser no mau de vez em quando sem precisar ter um pingo de culpa. Você pode se dar muito bem com os enteados, claro, isso é ótimo, mas merece ter seu tempo com o pai deles também. Nem que isso signifique algumas caras feias uma vez ou outra.

As boas madrastas do cinema

Os Meus, os Seus, os Nossos (1968) – No ano em que nascia a Pais e Filhos, estreava esse clássico das famílias recompostas, baseado numa história real. Dois ex-namorados (Lucille Ball e Henry Fonda) se reencontram e formam uma nova família, com 8 filhos do lado dele e 10 do dela, entre biológicos e adotivos. Os filhos se unem para tentar separar os pais, mas acabam descobrindo que gostam uns dos outros, apesar das diferenças. O filme ganhou uma nova versão com Dennis Quaid e René Russo em 2006.

A Noviça Rebelde (1965) – Maria (Julie Andrews) é uma noviça que não consegue seguir as severas regras do convento. Em meados da década de 30, ela vai trabalhar na casa do capitão Von Trapp (Christopher Plummer), pai de sete filhos, que os educa com rígida disciplina. A chegada de Maria une a família por meio da música. Claro que ela e o capitão se casam, as crianças adotam a madrasta e todos vivem felizes pra sempre.

Lado a Lado (1998) – Uma garota de 12 anos e um menino de 7, filhos de pais separados, não aceitam a nova namorada do pai (Ed Harris), uma renomada fotógrafa (Julia Roberts). A mãe das crianças (Susan Sarandon) alimenta a briga, fazendo o gênero “mãe perfeita”. Mas ela descobre estar com câncer, e o fato de se perceber perto da morte a aproxima da madrasta, que passa a ver como uma boa influência para os filhos.

Juno (2007) – Uma adolescente de 17 anos (Ellen Page) engravida e decide doar o bebê a um casal que não pode ter filhos. Seu pai (J.K. Simmons) e a madrasta (Allison Janney) apóiam a decisão. A boa relação entre Juno e a madrasta é um dos destaques do filme.

Para não ser a madrasta do mal

Nunca, mas nunca MESMO, fale mal da mãe da criança.

Não tente ser uma mãe para o seu enteado. Ele já tem a dele.

Combine as regras com o pai antes de impô-las à criança. Vocês precisam estar de acordo sobre quais são as normas da casa.

Você pode tentar se aproximar da criança, mas não espere que haja reciprocidade, principalmente num primeiro momento.

Entenda que, muitas vezes, as crianças vão atacá-la, sim. Isso não significa que tenham algo contra você, mas contra o papel que ocupa.

Mantenha um espaço para criança na casa. Pode ser uma cama, um quarto, brinquedos, fotos dela pela casa... O importante é que ela se sinta bem-vinda.

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