Mãe brasileira aproveita melhor tempo

Mãe brasileira aproveita melhor tempo

Atualizado: Segunda-feira, 26 Abril de 2010 as 12

Independentes, chefes de família e mais velhas, as mães de hoje apresentam um perfil muito diferente das mães de 40 anos atrás. O que mudou na relação delas com os filhos, com os parceiros e com o trabalho? Quantos filhos elas costumam ter e com que idade? Qual a educação que elas priorizam para os filhos? Entenda quais são as características da nova mãe brasileira.

Como era?

De uns anos para cá muitas transformações aconteceram na relação e na constituição familiar. Ao longo do século XIX e começo do século XX, as famílias eram numerosas, com muitos filhos e parentes agregados, os homens eram os chefes da casa e únicos provedores do sustento e tomavam todas as decisões do núcleo familiar. Às mulheres, cabia a administração da casa quando o marido estava fora e a educação dos filhos, que poderia ir do nascimento até o início da adolescência (no caso de meninos) ou até o casamento (para as meninas).

Porém, ao longo do século passado, os papéis da mulher, enquanto mãe e esposa, passaram a ser mais valorizados. Se o chamado amor materno sempre moveu as mulheres, foi nesse período que foi colocado a frente de tudo, a favor da independência emocional, que foi se intensificando com o passar dos anos. "Com a chegada da pílula anticoncepcional, há 50 anos, a mulher pode priorizar o prazer à procriação nas relações sexuais e, assim, planejar melhor a vida, a carreira e a chegada dos filhos. Surgiu um novo conceito de mãe", diz Maria Luisa Valente, psicóloga da Unesp.

A nova mãe

As tendências inauguradas nos anos 60 continuam a vigorar na sociedade de hoje de forma cada vez mais acentuada. A última Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde (PNDS), de 2008, do Ministério da Saúde, valeu-se da análise de 15 mil mulheres e 5 mil crianças para mostrar as condições dessas camadas da população. Com base em algumas conclusões da pesquisa e de dados recentes do IBGE, é possível traçar o perfil da mãe brasileira.

 - 76% das mulheres trabalham fora;

 - A taxa de fecundidade está em torno de 1,8 filho por mulher;

- A faixa etária dos 25 a 35 anos é a que tem mais filhos;

- 56% das mulheres são chefes da casa. Sendo que desses lares, 52,9% são do tipo monoparental, ou seja, há somente mãe e filho (s).  

A mãe moderna

Os itens listados estão intimamente relacionados e explicam o comportamento da mãe brasileira nos dias de hoje. Com a saída da mulher para o mercado de trabalho, a decisão de ter um filho passa a ser postergada em prol da realização profissional.

 "Eu tive filho com 29 anos, porque tinha me formado há pouco tempo e queria primeiro garantir um emprego bom. Quando veio a estabilidade, mudei para uma casa melhor, comprei um carro e só depois comecei a pensar em filho. Nunca conseguiria largar tudo para ser mãe. Não me sentiria realizada sendo mãe em tempo integral", conta a jornalista Cristiane Bonfim, 33 anos, de Fortaleza.  

A realização profissional explica a gravidez tardia e a queda na fecundidade. Segundo dados do IBGE, em 1970, as mulheres tinham 5,8 filhos. Essa média foi ficando cada vez mais baixa até chegar, em 2008, em 1,8. A falta de tempo e o alto custo de vida são um dos fatores responsáveis por isso. "Sempre pensei em ter dois filhos, mas, com a chegada da primeira maternidade, acho que vou parar por aqui mesmo. É muito complicado cuidar de uma criança hoje em dia. Os gastos com educação, saúde e lazer são enormes. Além disso, com o segundo eu teria que reduzir os ritmos de trabalho para dar atenção aos dois. É complicado", afirma Cristiane.

As mulheres chefes de família vêm aumentando a cada ano, mas a tendência maior são para lares monoparentais, onde o filho vive somente com a mãe. "Hoje no Brasil o número de mulheres que são as únicas responsáveis pelo filho é de 14 a 16%. Espera-se que esse número aumente e chegue próximos dos 25%, como os países como Alemanha e França", comenta a psicóloga Maria Luisa.

Mãe mais presente O aumento no número de creches e de babás sinaliza a diminuição no tempo de convivência da mãe contemporânea com o filho, o que não significa que elas deixaram de cumprir o papel fundamental de instrução e educação da criança, como indica Maria Luísa. "As mulheres são fantásticas. Se antigamente elas cuidavam da casa e da educação dos filhos, hoje elas continuam cuidando disso, além das demais funções que desempenham fora de casa", conta a psicóloga.

A mudança nas características da mãe dá uma nova cara para a sua relação com o filho. Como sinaliza a psicóloga da Unesp, a falta de tempo com a criança, em geral, contribui para que a mãe fique mais apegada ao filho. "As mães são mais pacientes, brincam mais, querem ficar perto do filho o máximo que conseguem. Não que isso nunca tenha ocorrido, mas nota-se maior estreitamento, o que faz com que a relação fique mais aberta, a educação passa a ser mais a base de conversa e não do castigo", acredita a psicóloga.

A essência nunca muda

Essas novas características da mãe brasileira não impediram que elas deixassem de lado o afeto materno e o amor incondicional pelos filhos. Se a carreira profissional agora é uma barreira para a chegada do bebê, a partir do momento em que ele chega, as mulheres se sentem mais completas e realizadas. "Ser mãe é um desafio diário. Me faz crescer muito. Não tem nada melhor do que ajudar um filho a se desenvolver e você acaba aprendendo muito. É muito gostoso", conta Cristiane Bonfim.

A psicóloga Maria Luisa acredita que, principalmente na nossa sociedade, ser mulher é quase indissociável de ser mãe. "Além da cobrança (por parte dos parentes e dos amigos) para que ela tenha filho, a mulher, tradicionalmente, em algum momento de sua vida se depara com a possibilidade de ser mãe, ainda que ela opte por não ser. É da natureza da mulher", explica a especialista.  

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