Mãe chinesa cria polêmica com livro que ensina pais ocidentais a educar filhos

Mãe chinesa cria polêmica com livro que ensina pais ocidentais a educar filhos

Atualizado: Quinta-feira, 31 Março de 2011 as 10:26

“O tigre, símbolo vivo de força e poder, costuma inspirar medo e respeito”. É assim que a sino-americana Amy Chua introduz seu método de ensino e educação no livro Battle hymn of the tiger mother (Hino de batalha de uma mãe chinesa) , lançado em janeiro nos Estados Unidos e que acabou de chegar ao Brasil (Editora Intrínseca). Um livro que deixou mães e pais norte-americanos em polvorosa após o jornal Wall Street Journal ter lançado um artigo da autora, expondo em detalhes seus métodos rígidos e uma crítica ao jeito de educar das famílias ocidentais. Professora de direito da universidade norte-americana Yale, Amy conta como criou as duas filhas, Sophia, de 18 anos, e Louisa, de 14, com disciplina, muita disciplina e mais disciplina ainda.

Na casa dos Chua, as regras são rígidas e bem delimitadas:

1. As tarefas da escola vêm sempre em primeiro lugar

2. 9 é uma nota ruim

3. Seus filhos precisam estar dois anos à frente de seus colegas de classe em matemática

4. Não se deve nunca elogiar seu filho em público

5. Se o seu filho alguma vez discordar do professor ou do treinador, você deve sempre ficar do lado do treinador ou do professor

6. As únicas atividades que você deve permitir que seu filho faça são aquelas pelas quais ele pode eventualmente ganhar uma medalha

7. Essa medalha deve ser de ouro

Parece exagero? Não para uma mãe chinesa como Amy Chua que acredita acima de tudo na tradição. “Como filha mais velha de imigrantes chineses, não tenho tempo para improvisar e fazer minhas próprias regras. Tenho um nome de família para defender e pais para orgulhar. Gosto de objetivos claros e formas claras de medir o sucesso”, escreve. Ao controlar os horários dos filhos, as atividades que eles vão realizar (é ela que escolhe, nunca as crianças), fazer cobranças duras e exigir sempre o melhor, Amy pretende garantir que nada saia do planejado e que seus filhos estejam preparados para superar os desafios da vida.

A favor de Amy, estão os conhecidos resultados da educação asiática pelo mundo, com gênios prodígios da matemática e músicos de sucesso aos 5 anos de idade. Mas será que ser um violinista prestigiado internacionalmente ou ganhar o primeiro lugar nas Olimpíadas de Matemática da escola é o mais importante para uma criança? “São critérios muito objetivos para lidar com algo tão subjetivo quanto o ser humano. Existem fatores que não são contemplados neste modelo de recompensa. Ele premia quem executa algo bem e isso só pode ser atingido com a prática. Mas quem é bom no que faz nem sempre é necessariamente feliz”, afirma Rita Calegari, psicóloga do Hospital São Camilo (SP).

No livro, ela também expõe as dificuldades, principalmente com a filha mais nova, a única que realmente questiona os métodos da mãe. Certa vez, Amy disse que deixaria Lulu (a Louisa) sem festa de aniversário, sem bonecas, sem comida e sem ir ao banheiro até que ela conseguisse tocar com perfeição uma música difícil no piano. A prática diária do piano e do violino sempre veio em primeiro lugar, mesmo nas férias, finais de semana e viagens em família. Mas foi a filha mais velha, que tomou as dores da mãe e escreveu uma carta ao jornal para defendê-la de mais de milhares de críticas em forma de comentários de leitores, artigos e reportagens. Veja a tradução no post “Filha defende mãe-tigre das críticas” do blog 7x7, de Época.

Se nós estranhamos tanto a conduta de Amy, em parte deve-se ao abismo que existe entre as crenças dos ocidentais e orientais. E Amy aponta essas diferenças: “Pais ocidentais tentam respeitar a individualidade das crianças, encorajando-as a buscar suas paixões verdadeiras, apoiando suas escolhas e proporcionando reforços positivo e um ambiente estimulante. Em contraste, os chineses acreditam que a melhor forma de proteger seus filhos é preparando-os para o futuro, fazendo-os ver do que são capazes e armando-os com habilidades, hábitos de trabalho e confiança interna que ninguém jamais poderá tirar.”

Para ela a sua conduta não é ofensiva, na verdade é tudo muito natural. “Precisamos respeitar o que ela escreve, porque faz parte de sua cultura e tradição. Não há dúvidas de que ela ama as filhas e se dedica muito ao que acredita ser o melhor para elas. O problema é que às vezes queremos fazer o bem, mas acabamos fazendo o mal”, afirma Rita Calegari. A própria mãe tigre, em seu livro, reflete sobre o que poderia ter feito diferente, confessando em alguns trechos que às vezes se arrepende por ter sido tão dura com as filhas. Mas garante que, com suas cobranças, está apostando e acreditando no potencial das filhas.

Enquanto isso, os ocidentais realmente vivem uma crise por serem permissivos demais na educação dos filhos. Olhando de fora para os dois modelos de educação, pode ser que os orientais foquem demais o dever, e os ocidentais, o prazer. O ideal, no entanto, seria sempre buscar o equilíbrio. “O fato é que os ocidentais podem e devem aprender a ser mais duros e disciplinadores. Por outro lado, não podemos ser tão radicais. É bom sempre avaliar se estamos muito críticos ou flexíveis demais”, diz Rita.

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