Mãe de jovem que morreu após usar anabolizantes afirma que bens materiais não suprem ausência

Mãe de jovem que morreu após usar anabolizantes afirma que bens materiais não suprem ausência

Atualizado: Quinta-feira, 3 Dezembro de 2009 as 12

A criação dos filhos tem se confundido com a capacidade de dar coisas para eles. Vemos famílias sofrendo por não poderem dar determinado bem material para sua prole. Como se a posse de algo garantisse a felicidade de alguém.

Isso faz com que os pais trabalhem muito. Nesse caminho, alguns se distanciam dos filhos de tal modo que não conseguem acompanhar o desenvolvimento deles. Outros acabam tentando a vida por outras terras e ficam impedidos de orientá-los de maneira adequada, deixando a cargo de alguém de confiança essa tarefa.

Temos visto cada vez mais configurações familiares onde a tradicional perdeu espaço: pai, mãe e filhos. E quanta falta faz essa dupla na vida das crianças e adolescentes.

Com isso, muitos jovens têm como valores aquilo que se refere ao ter e possuir. Estudo e trabalho acabam ficando de fora. E uma das coisas mais valorizadas, mas não só pelos jovens, é a aparência física.

Vaidade

Vemos desde cedo crianças e adolescentes vaidosos além da conta. A beleza e seus padrões, o culto ao corpo e a estética ocupam, muitas vezes, lugar de destaque em suas vidas.

Tanto é assim que, por incrível que pareça, de acordo com a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, no período de um ano, entre 2007 e 2008, 13% dos pacientes que fizeram algum tipo de procedimento estético estão na faixa dos 14 aos 18 anos - cerca de 100 mil jovens fizeram cirurgia plástica.

Fora os controladores de apetite nessa busca sem limites da magreza e outras drogas, como essa que parece ter vitimado a jovem Jenyfer Sthefane semana passada - os anabolizantes.

Essa garota, no intuito de ter um corpo perfeito - segundo consta, beleza física não lhe faltava - tornou-se uma assídua aluna da academia de ginástica. Não satisfeita e querendo resultados além dos possíveis com os exercícios físicos e de maneira mais rápida, recorreu a remédios a base de testosterona (hormônios masculinos), para tornar sua musculatura mais rija. Morava com a avó, saiu da escola havia três anos e não via a mãe que vivia nos EUA havia cinco. O pai morava em outro estado.

Mesmo sendo alertada dos perigos da medicação, inclusive pela mãe, não se importou. Como a maioria dos adolescentes, de maneira onipotente, achava que nada iria acontecer com ela. Só que seu corpo sucumbiu a esse ataque de drogas.

Quantas lágrimas poderiam ser evitadas caso ela tivesse sido bem orientada. A própria mãe considera que seu afastamento pode ter contribuído para esse desfecho. No entanto, foi em busca de um futuro melhor.

Futuro melhor entende-se possibilidades materiais maiores. E as necessidades emocionais e de cuidado, como ficam nessa história? Provavelmente num plano outro que não o principal. O que é uma pena. Essas são necessidades reais e legítimas dos nossos filhos. As outras, incluíndo a beleza física, são criadas por nós que, de alguma forma, tentam substituir as que realmente importam. E como isso não é possível, a busca fica incessante, nunca está bom, porque o alimento que é dado para suprir as verdadeiras carências é o errado.

Faz-se uma confusão daquilo que é realmente necessário. Possivelmente, pessoas que se importam tanto com a aparência física não se enxergam como tendo mais que um corpo, reduzindo-se a ele.

No caso de Jenyfer, ela acabou destruindo aquilo que lhe era mais importante. O pior aconteceu. Que isso sirva de alerta para que, mais que dar coisas materiais para nossos filhos, possamos enxergar as necessidades que eles têm de atenção, cuidado e carinho.

Como bem disse a mãe de Jenyfer: ?Não tentem fazer como eu fiz. Dar tudo para o seu filho não supre a distância?.

Escrito por: Ana Cássia Maturano - psicóloga e psicopedagoga

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