Mãe e Mestra

Mãe e Mestra

Atualizado: Segunda-feira, 10 Agosto de 2009 as 12

"Só vai bem porque é filho do professor!". Quem já esteve sentado na carteira enquanto sua mãe ou seu pai dava aula deve ter ouvido esse tipo de acusação centenas de vezes.

Para evitar ouvir esses comentários dos colegas de classe, os irmãos gêmeos Ricardo e Luca Cataldo, 20, optaram por não ter aulas com a mãe, Katia Salomão, quando ela era professora do ensino fundamental.

As más experiências de suas irmãs, que haviam sido alunas da mãe antes, serviram de lição.

"Lembro-me de uma vez em que minha irmã mais velha chegou em casa muito triste. Ela tinha ido muito bem numa prova de matemática, pois tinha estudado com meu pai. Mas disseram que ela tinha visto a prova antes", conta Luca.

Katia chegava a pedir para a coordenadora da escola elaborar outro exame, especial para elas. Mesmo assim, os comentários maldosos continuaram.

Renata Rodrigues, 18, que teve aulas de física com sua mãe, Vera Lúcia Panseri, ouvia outro tipo de reclamação dos colegas.

"Minha mãe não era muito boazinha nas aulas e os meus amigos diziam: 'Sua mãe é muito chata' ou 'Sua mãe me reprovou!'". As duas melhores amigas de Renata "levaram bomba" de sua mãe, mas a garota sempre a defendia dos ataques.

Renata diz que existe uma certa inveja dos outros alunos porque ser filho de professor ajuda a criar mais intimidade com todos os outros docentes.

"Eu era amiga das professoras, nós íamos viajar juntas. Eu as considerava como tias."

Estudar na mesma escola em que os pais trabalham obriga o filho e aluno a andar na linha, como conta Vitor Romanini, 14, cuja mãe, Ana Cristina, lhe dá aulas de matemática e álgebra.

"Tem que ter mais atenção e mais respeito pelos outros professores. Eles sabem que sou filho dela e fico com mais peso na consciência na hora de fazer bagunça. Quando estudava em outra escola, bagunçava mais".

Há também um patrulhamento que incomodava Luca e Ricardo. "A gente acabava não gostando dos professores porque eles ameaçavam contar tudo para minha mãe", diz Luca.

Até quando os dois mudaram de escola, Katia recebia informações dos outros mestres.

"Os professores me ligavam e, quando não ligavam, eu ligava. Como sabiam que eu era da área da educação, eles mandavam bala", diverte-se a mãe.

"Minha mãe sempre foi uma professora durona e chata, pelo menos com a gente", diz Ricardo, levantando outro aspecto da relação familiar em sala de aula: o excesso de cobrança.

Pais e alunos reconhecem que a pressão existe, mas que, em grande parte, ela vem da escola ou dos próprios alunos.

"Você tem que ser exemplar", diz Vitor. Sua mãe sente o mesmo: "Parece que, se a gente erra, as pessoas cobram mais. Se o filho do professor faz, os outros alunos sentem que também podem", diz Ana Cristina.

Luca, mesmo não tendo aula com sua mãe, também sentiu a exigência quando estudou onde ela lecionava. "Acho que as escolas exigem muito de filhos de professores por serem bolsistas", afirma. Graças a um acordo sindical, filhos de professores geralmente não pagam mensalidade.

A pedagoga da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica) Neide Noffs, ex-professora de suas duas filhas, diz que pode ser um problema para pais e filhos separar os papéis de casa e os da escola.

Renata e Vitor, por exemplo, chamam as respectivas professoras de "mãe" durante as aulas. Suas mães dizem que é mesmo difícil separar as coisas. "Eu tinha que me policiar e dizer para mim mesma: aqui sou mãe e posso ajudar, ali sou professora", diz Vera Lúcia.

Mas é claro que ter aulas com os pais também traz vantagens. "Minha mãe pode tirar dúvidas em casa e trazer mais livros para eu estudar", diz Vitor.

A simples presença constante dos pais-professores já pode ser vantajosa."Nos eventos da escola a que os pais não podiam ir, ela estava sempre lá", diz Renata, sobre sua mãe e mestra.

Postado por: Felipe Pinheiro

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