Mãe, esposa, profissional...

Mãe, esposa, profissional...

Atualizado: Quinta-feira, 30 Julho de 2009 as 12

"Mulher de verdade tem que tomar conta de tudo." Você já ouviu esta frase? E acredita nisto? Se a sua resposta for positiva, você deve achar que a Mulher Maravilha ou a Super Mulher existem de verdade! Amo meu marido e meus filhos. E, como todas as mulheres, vivo a tensão entre meu lar, minhas aspirações profissionais e meu ministério. Por este motivo, estou bem à vontade para refletir sobre este assunto.

Um equilíbrio difícil

Apesar de todas as conquistas, na prática, a mulher ainda cobra de si ser bem-sucedida como dona de casa, mãe dedicada, esposa disponível e profissional eficiente. O fato é que a mulher vai criando expectativas altíssimas a respeito de si. Não é fácil admitir, mas é praticamente impossível o pleno cumprimento de tantos papéis.

É sabido que os cuidados dispensados por uma mãe a seus filhos pequenos, como levar ao pediatra, ao dentista, ver se os cadernos estão em ordem, entre tantos outros, tomam praticamente todo o seu tempo e a sua energia. Depois de todo este envolvimento, quando o filho chega à adolescência, ele mesmo encarrega-se de dispensar a mãe daquele papel.

Há também pessoas que acham que o trabalho feminino só é construtivo quando envolve alguma atividade intelectual. Conheço uma mulher que faz tapeçaria e ensina mulheres faveladas, proporcionando-lhes um caminho de independência econômica. Aí está uma atividade sem muito de intelectual, nem eterno, mas extremamente construtiva.

E se a mulher fez um curso que antigamente chamava-se "espera marido"? São muitas, também, as mulheres que, ao serem apresentadas a outras pessoas, ouvem a famosa pergunta, seguida da igualmente famosa resposta e da não menos famosa e típica reação:

- O que você faz?

-Sou dona de casa.

- Ah, sei... - resposta acoplada a um ar de pouco caso e um nariz torcido.

Diante de tantas expectativas sociais - reforçadas, inclusive, através dos meios de comunicação -, a mãe e a dona de casa acabam se sentindo frustradas. É lógico que nenhuma mulher normal consegue desempenhar todos os papéis que lhe são atribuídos ao mesmo tempo e com perfeição. Se assumiu o papel unicamente de mãe, mesmo que só enquanto os filhos são pequenos, ouvirá sempre aquela crítica velada: - Ah você não trabalha, que pena! E se ela trabalha fora, vai achar que qualquer problema que ocorrer com os filhos foi culpa sua, por abandoná-los. Outra atitude típica: na iminência de seu casamento desandar, pensará que foi porque ficou pouco disponível para o marido por causa de suas outras ocupações, e assim por diante.

Será que é possível uma mãe deixar seu filho com a babá ou com a vovó sem ficar se sentindo culpada? O que diremos, então, da mãe que não tem alguém para ajudá-la e precisa deixar seu filho em uma creche ou em uma escolinha de tempo integral?

Meio período ou integral?

Como pedagoga, gostaria de que não houvesse problemas sociais e econômicos e que as mães pudessem não ter que trabalhar em período integral, pelo menos até que seus filhos tivessem, no mínimo, dois anos. Por que dois anos? Porque a base da vida de uma criança encontra-se nos seus primeiros dois anos de vida. Porém, nem sempre isto é possível.

Não há dúvida de que, para o filho pequeno, seria melhor ficar com a mãe. Porém, também acredito que uma mãe com um coração cheio de afeto, de amor pelo filho, de alguma forma - e com a ajuda de Deus - conseguirá passar a qualidade deste amor para ele, mesmo que precise trabalhar oito horas por dia. Esta mãe pode até doar-se mais, ter mais momentos gostosos com seu filho do que aquela, por exemplo, que está em casa, com o filho dependurado no colo, desgastando o relacionamento entre eles.

Há mães que ficam em casa, mas a cabeça delas está em um escritório, numa escola ou em algum outro ambiente de trabalho. Será que ela tem medo de encarar uma vida profissional, de não ser bem-sucedida, e estar usando a criança como desculpa? Agindo desta forma, esta mãe pode até dificultar o crescimento do filho porque, à medida que ele crescer, ela perderá o emprego, que é cuidar dele. Com isto, pode até, de forma inconsciente, atrasar o desenvolvimento do filho, expondo-o ao ridículo com seus amiguinhos.

Homem: representante da mulher no mundo?

Outro caso que pode ocorrer é quando uma mulher está frustrada por não ser uma Mulher Maravilha ou uma super-heroína, e passa a ser a sombra dos filhos ou do marido. Ela não se realiza profissionalmente, e tampouco como mãe. Ela apenas se orgulha de ser a mulher do "doutor

"Acredito que uma mãe com um coração cheio de afeto pelo filho conseguirá passar a qualidade deste amor para ele, mesmo que precise trabalhar oito horas por dia"

Beltrano" ou do "professor Fulano". Enquanto ele se torna cada vez mais seguro, determinado e capaz, ela vai ficando cada vez mais passiva, dependente, indecisa, abnegada, sem brilho próprio. Ela dedicou-se ao projeto do outro (filhos ou marido) de forma que até poderia ser classificada como mórbida. Certa vez, ouvi uma senhora dizer: "Quando meu filho ficou doente, não deixei nem o pai dele chegar perto." Certamente, aquele era o reino daquela mulher. Ali ela podia usar sua força e sua competência. Aí está a raiz da sensação de ser responsável por tudo que acontece com os filhos. Por outro lado, está provado que mudar de papel, trabalhando fora e ficando mais distante do que presente no lar também não funciona. Mudar de lado não elimina conflitos. A situação "Quando uma mulher está frustrada por não ser uma super-heroína, pode passar a ser sombra dos filhos ou do marido. Não se realiza profissionalmente, nem como mãe" complica-se quando a mulher enfrenta esta encruzilhada: se fica em casa, sufoca-se pelo medo de se apagar. Se ela se afasta e sai para trabalhar, sente a consciência pesar e se rotula como não sendo uma boa mãe. Você é do tipo de pessoa que até em seu tempo de lazer fica grudada em seus filhos? Você não consegue se divertir quando está longe deles? Cuidado: o resultado pode ser (muitas vezes, é!) uma raiva inconsciente de quem está roubando sua vida (casamento, marido ou filhos).

Encontrando saídas

Não existe uma resposta pronta para esta situação, mas podemos delinear como diminuir a tensão entre o lar e a atividade profissional feminina.

1) Primeiramente, vamos ouvir os conselhos de Paulo em Coríntios: "Quando sou fraca, então é que sou forte." Precisamos aprender a depender de Deus em todas as áreas, querida amiga. Ele nos fará fortes.

2) Tenhamos bom senso. Felizmente, já se nota uma mudança em algumas famílias, nas quais não se exige aquela enorme perfeição em casa e cada membro da família está ajudando mais na organização doméstica.

3) O pai também está participando mais de atividades, como trocar fraldas e cuidar do bebê. De modo geral, eles também assumem de bom grado o seu papel.

4) Um emprego de meio período é uma ótima saída. Vale a pena tentar. Depois de um dia estafante, muitas mulheres ainda fazem marmita para o dia seguinte, lavam roupa, arrumam a casa, inspecionam os filhos. Meia jornada de trabalho fora de casa é uma boa opção, pois possibilita conciliar com o horário escolar.

5) Diminua as expectativas a seu próprio respeito. É impossível tamanha perfeição. A partir daí, será mais fácil desenvolver um maior número de papéis.

6) Não descuide de seu relacionamento com Deus. O que leva uma mulher a esfriar na sua relação com o Senhor? A falta de tempo, pois, com tantos papéis a serem cumpridos, provavelmente você ainda procura ser uma supermulher.

Deixe-me fazer a seguinte pergunta: quando uma mãe pode sair de casa para trabalhar, absolutamente tranqüila e sossegada? Nunca! Certo conflito sempre estará presente, e sossego absoluto é algo meio incompatível com a vida de uma mãe. Uma certa dose de angústia faz sempre parte da busca de soluções. Mesmo longe, não deixamos de ficar ligadas à administração atenta e sensível, nas horas em que não estamos em casa. É assim que funcionamos.

O que está escrito no livro de Provérbios, com certeza, serve de direção e inspiração para a mulher. Sabedoria e virtude são essenciais, e isto só se encontra no Senhor. Você, mulher cristã que conhece a Deus e está sempre pedindo ajuda e orientação a ele, já saiu na frente e está no caminho certo para resolver este conflito. Se tentar sozinha ser uma supermulher, corre o risco de se tornar uma eterna superculpada! Peça a Deus equilíbrio e sabedoria. Estes, sim, são os atributos de uma supermulher!

Dora Bomilcar de Andrade é pedagoga. Atualmente apresenta o programa Entre amigas, na Rádio Transmundial. É casada há 22 anos e tem três filhos. Coordena o Projeto Desperta Débora (mães que oram por seus filhos) na cidade de São Paulo.

Sugestão de leitura:

A segunda metade do casamento, de David e Claudia Arp (Vida)

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