Meu filho morde os colegas, o que fazer?

Meu filho morde os colegas, o que fazer?

Atualizado: Quarta-feira, 15 Junho de 2011 as 10:19

Entre um terço e metade de todas as crianças em creches nos EUA é mordida por outra criança, os estudos indicam. Apesar de não ser socialmente aceitável, morder é um comportamento comum entre crianças abaixo dos 3 anos de idade, de acordo com pesquisas em andamento. É uma forma de as crianças expressarem sua raiva, frustração e uma necessidade de controle e atenção antes que elas tenham as palavras para fazê-lo, diz o psicanalista clínico Stanley Goldstein, autor do livro   Troubled Children/Troubled Parents   ( Crianças problema, pais problema , na tradução livre). Mas para os pais e funcionários de creches, é um grande problema com consequências potencialmente de alto risco.

Pais de crianças que mordem as outras ficam constrangidos e preocupados que seus filhos sejam expulsos do colégio. Funcionários de creches temem ações legais, hostilidade por parte dos pais das crianças que sofrem mordidas e que sejam responsabilizados pela atitude do pequeno. E os pais de uma criança que é mordida ficam tristes e preocupados com relação à segurança de seus filhos.

Na busca por respostas, pais procuram os psicólogos, que por sua vez também buscam respostas para este comportamento. Há falta de pesquisas sobre isso – uma vez que não é fácil estudá-lo em um laboratório –, mas os psicólogos descobriram algumas técnicas para trabalhar com a mordida. Em resumo, as técnicas ajudam a reduzir a raiva, a vergonha e o embaraço, e ajuda as crianças a entrarem em sintonia com outras em seu próprio nível de desenvolvimento.

“Há um estigma associado à mordida entre os adultos de que crianças que mordem serão adultos violentos”, diz Goldstein. “Mas muitos pais não se dão conta de que este comportamento faz parte do desenvolvimento normal das crianças. Há muitos anos, Piaget [Jean Piaget] dizia que as crianças não pensam como os adultos. Os adultos precisam administrar intervenções sob orientação com a criança. Isto inclui reagir rapidamente e educar as crianças a não usar seus dentes como armas”, diz Goldstein e outros psicólogos.

Trabalhando a mania de morder

Quando uma criança morde outra, é comum os adultos ficarem sem reação. Mas, segundo Goldstein, é nessa hora que eles precisam agir rapidamente. Ele aconselha a supervisão de adultos:

• Separe a criança daquela que a mordeu.   Rapidamente, acalme a situação, retirando a criança que deu a mordida do ambiente. Retirar a criança da situação que a deixou frustrada ou com raiva acalma e também ajuda a vítima a se sentir segura.

• Ajude a criança que mordeu a entender os sentimentos que a levaram a morder o colega e como ela pode lidar com eles de outra forma.   “Os pequenos precisam da ajuda dos adultos para identificar o que sentem e a reagir adequadamente”, explica Jana Martin, membro do comitê da APA para o Progresso da Prática Profissional, que foi consultora em centros de acolhimento a crianças por quase 30 anos. “O adulto pode dizer: ‘você está bravo. Não morda os outros quando você estiver bravo. Você deve pedir ajuda ao seu professor’”, diz Martin. Ela recomenda que os pais evitem palavras negativas como “errado” ou “ruim”, pois a criança pode entender que está sendo punida em vez de educada.

“São crianças pequenas que mal sabem falar e que geralmente estão tão assustadas quanto as que foram mordidas”, diz. “Os adultos precisam aprender a falar de forma simples e direta, com frases curtas, para que a criança consiga entender que o que fez é errado”.

Martin recomenda também que as creches tenham uma sala ou um espaço reservado e calmo, onde as crianças possam ser levadas para se acalmar. A criança deve ficar lá por pelo menos três minutos (ou um minuto por idade) para que pense e entenda o que fez.

Console a vítima

É comum após o corrido a criança que deu a mordida virar o centro das atenções. “Em vez disso, a atenção deve se voltar à criança mordida, não apenas para que seja consolada, mas para que ela entenda que não fez nada errado”, diz o psicólogo Robert Walrath. “Quando a criança que mordeu percebe que quem foi mordido está recebendo toda a atenção, isto ajuda a fazer que ela pare de se comportar desta forma”.

Para Robert, os adultos devem aproveitar este momento para falar sobre sentimentos e reações com a criança que foi mordida e com aquelas que viram o ocorrido. “Uma discussão franca sobre o que pode ser feito no lugar de morder ajuda a inibir os colegas de fazerem o mesmo, principalmente a criança que foi mordida”, acrescenta.

“Se a criança que mordeu for maior que 2 anos, ela também deve ser orientada a consolar a vítima”, diz Goldstein. Neste caso, as duas crianças – a que mordeu e a que foi mordida – devem concordar com a atitude. E, segundo Walrath, as crianças não devem ser as únicas a receber consolo: os pais da criança que foi mordida também precisam de orientação e saber que o caso está sendo levado a sério. “Assim, os pais também aprendem mais sobre este comportamento”.

No entanto, se com as intervenções a criança continuar a morder os colegas, este é o momento de procurar ajuda profissional, de preferência de algum especialista no comportamento de crianças.

Como prevenir

“Primeiro os adultos devem aprender a reagir de forma propositiva ao comportamento. Em seguida, devem prestar bastante atenção para identificar o que leva a criança a agir daquela forma”, diz Goldstein. Algumas situações podem ser a dificuldade de compartilhar brinquedos com as outras crianças ou um ambiente muito barulhento. Desta forma, é possível intervir antes que a criança se irrite ou fique frustrada.

“Outra atitude preventiva é a distração: crianças pequenas se esquecem que estão bravas com algo se você simplesmente redirecionar sua atenção e encorajá-las a participar desta nova atividade”, explica o psicólogo John Marr.

Uma atitude questionável, mas muito utilizada no passado, pode inibir completamente as crianças de morderem as outras: os pais podem morder a criança para ela ver o quanto isso dói – alguns especialistas concordam com a técnica. “A questão aqui é que o adulto está reforçando um comportamento que, na verdade, ele está tentando extinguir. Crianças nessa idade são como esponjas, elas aprendem com o comportamento dos adultos. Existem diversos tipos de técnicas, cabe ao adulto escolher a mais apropriada”, conclui Marr.

Créditos: este material aparece originalmente em inglês como   Biting questions.   Copyright © 2010 da American Psychological Association (APA). Traduzido e reproduzido com permissão. A APA não é responsável pela exatidão desta tradução. Esta tradução não pode ser reproduzida ou, ainda, distribuída sem permissão prévia por escrito da APA  

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