Meu filho não gosta de estudar

Meu filho não gosta de estudar

Atualizado: Quinta-feira, 13 Janeiro de 2011 as 2:59

Despertar a curiosidade, realizar passeios pedagógicos e encaminhar o jovem para uma visão de futuro: estes são apenas três dos inúmeros caminhos apontados pela psicóloga e orientadora educacional Tatiana Sessa em seu livro "E agora, meu filho não gosta de estudar", da Editora Best Seller. A fim de ajudar os pais a encontrar possíveis soluções para este problema, a autora chama a atenção para a necessidade de exigir dos filhos "pequenas responsabilidades" que podem começar no âmbito doméstico e avisa que a tecnologia não pode ser responsabilizada pela desmotivação dos estudantes.

"Existem dois ingredientes importantes para ajudar os jovens: insistência e consistência. Insistência, pois a educação não tem efeitos imediatos. É preciso renovar diariamente o convite para o prazer de estudar. E consistência porque os filhos aprendem mais com o que veem do que com o que ouvem".

1) Em seu livro "E agora, meu filho não gosta de estudar" você aponta que a desmotivação para os estudos não possui uma única causa sendo, portanto, multifatorial. Apesar da gama de possibilidades, qual seria o ponto de partida para uma recuperação da relação entre estudo e prazer?

Tatiana: "Como pontuo no livro, as crianças não nascem desmotivadas. O ser humano é um explorador inato, portanto, é fundamental despertar a curiosidade, realizar passeios pedagógicos e encaminhar o jovem para uma visão de futuro.

Se os pais refletirem um pouco, descobrirão que o filho se interessa por algo profundamente. Este interesse é o canal para a descoberta da vocação e para o interesse pelos estudos".

2) Estudar é, hoje, visto como "mais chato" do que em outros tempos? As novas tecnologias contribuem para esta sensação de enfado por parte das crianças e adolescentes ou estariam os pais menos preparados para educar seus filhos a gostar dos estudos?

Tatiana: "A resistência aos estudos já existia anteriormente, mas hoje tem nuances diferentes. O desrespeito ao professor tornou-se algo generalizado também. Temos o mundo em um click, portanto os estudantes não têm muita paciência para buscar as respostas. Entretanto, não podemos responsabilizar a tecnologia pela desmotivação dos jovens - muitos menos culpar inteiramente os pais. Nenhum pai quer, intencionalmente, fazer mal ao filho; afinal, é a própria herança genética que está em jogo. O que ocorre é que os pais se sentem sobrecarregados e não conseguem acompanhar tanto quanto gostariam a vida dos filhos, que sofrem muitas influências além da esfera familiar".

3) A falta de tempo para um acompanhamento escolar é sempre um argumento utilizado pelos pais, que posteriormente se sentem culpados pelo insucesso de seus filhos. Em seu livro, você utiliza um termo descontraído - os pais "oculpados". Como você orienta os pais a saírem deste estado constante de ocupação e culpa?

Tatiana: "Primeiramente, acredito que muitos pais estão estressados com tantas atribuições e agenda lotada. Mas é importante é priorizar a qualidade do tempo que dividem com os filhos. Eles devem estar "inteiros" no momento em que estiverem juntos. Sentar para dialogar (muitas vezes, os pais, na melhor das intenções, não dialogam, mas fazem monólogos na esperança de orientar os filhos e isto pode não surtir efeito), passear etc. Nesses momentos, os pais podem desligar o celular, por exemplo. O jovem percebe quando tem atenção.

Acho que é normal e fundamental os pais se questionarem se estão sendo bons educadores. Mas o sentimento de culpa em excesso bloqueia a pessoa e é carregado nas costas como uma carga. Quando esta carga se instala nos pais, o que ocorre? Eles não passam firmeza no contato verbal que fazem diariamente com os filhos. Estes, por sua vez, aprendem a articular sabiamente a culpa dos pais para obter o ‘sim' sempre que querem".

4) Nesse livro, você chama a atenção para a importância de uma "pedagogia doméstica", que seriam pequenas tarefas a serem realizadas pelos filhos, tais como recolher objetos espalhados pela casa, preparar a mesa para o café, ajudar na ida ao supermercado etc. Qual a importância destas pequenas responsabilidades?

Tatiana: "Um filho que ajuda os pais mostra reconhecimento. Isto deve ser ensinado desde pequeno, pois assim se aprende a dar valor ao que é conquistado. As "pequenas" responsabilidades que são cumpridas preparam a disciplina para cumprir outras "grandes" responsabilidades futuras. As mordomias do cotidiano dão margem à preguiça juvenil. Com a falta de uma pedagogia doméstica eles precisam de novos estímulos para treinar novas funções. Sozinhos não são capazes de encontrar a motivação de que precisam para agir e cuidar da própria vida. Portanto, precisam ser incitados a iniciar as atividades, mexer com o corpo e com a mente".

5) Com muita frequencia, você alerta aos pais sobre o excesso de proteção em relação às dificuldades do mundo. Por que seria saudável cobrar e exigir mais dos filhos em casa, uma vez que as exigências exteriores também são enormes?

Tatiana: "Porque afeto não é excesso de gratificação. Proteção é diferente de superproteção. Existe uma fronteira clara. Os pais devem animar os filhos, desde bebês, para o prazer de entender o mundo à sua volta. Fazer um muro ao redor da criança para que ela não seja desapontada não é demonstrar afeto. A falta de cobranças não prepara o jovem para o mundo competitivo que ele terá de enfrentar".

6) Apesar de reconhecer o professor como o segundo modelo na vida de um ser humano, você aponta que "o jovem percebe o quanto aquele profissional é desvalorizado, portanto, tem deixado de admirá-lo". Como os pais podem contribuir para que exista uma revalorização do professor?

Tatiana: "É muito comum os pais criticarem a escola e o professor na frente dos filhos. Isso prejudica muito o papel do professor. Os pais têm o direito de contestar, mas devem fazer isto diretamente na escola. É importante fortalecer a parceria entre pais e escola e estar em contínuo contato, endossando a função de autoridade e das propostas do colégio".

7) Em "E agora, meu filho não gosta de estudar", você propõe um teste para que os pais possam reconhecer simples informações sobre o gosto particular de seus filhos: cor preferida, banda preferida, programa de TV de que mais gosta etc. O que este tipo de teste tem a ver com o fato de um filho não gostar de estudar?

Tatiana: "É muito difícil ajudar um filho se os pais não o conhecem de verdade. Penso que os pais são os faróis, sinalizam o caminho, ajudam os filhos a enxergar as possibilidades da vida. Portanto, sabendo o que eles pensam e tendo consciência das suas preferências e interesses, fica mais fácil dialogar e acessar seu mundo interno para sugerir novas táticas de estudo e convencê-los dos benefícios de mergulhar nos livros".

8) "O exercício da espiritualidade também pode fazer parte de uma pedagogia doméstica". Como o envolvimento com uma prática religiosa pode influenciar num bom desempenho de um filho em relação aos estudos?

Tatiana: "É importante salientar que o estímulo a práticas religiosas pode fazer parte de uma pedagogia doméstica, pois os ensinamentos espirituais também constituem a formação humana. O amadurecimento pessoal se desenvolve diante da ampliação da visão de mundo. É comum as pessoas se apegarem à espiritualidade para superar as piores situações e se equilibrar".

9) Em determinado momento, você propõe a quebra do mito de que "administrar o tempo é virar escravo do próprio relógio", sugerindo tabelas de controle de horários de estudo. Existe um momento ou período mínimo ideal para estudar?

Tatiana: "Costumo dizer que não adianta os pais determinarem os horários de estudo. Já vi pais que trancavam a criança no escritório a tarde inteira, mas as notas continuaram baixas. Não é a quantidade do tempo, é a qualidade do estudo e o compromisso. Pergunte para o seu filho em qual horário a atividade cerebral dele está a todo vapor, quando ele está se sentindo mais disposto. Quantas horas ele pode se comprometer a estudar? Se você marcar um horário pra ele, não estará incentivando a autonomia e a gestão do próprio tempo!

Gosto de dar o exemplo de dois ex-alunos meus que eram amigos e se inscreveram para o concorrido vestibular para Direito. Um estudava seis horas e o outro, duas horas, além do horário de aulas. Adivinha quem passou? O que estudava ‘apenas' duas horas. E ele justificou dizendo que fez isso a vida inteira. Já o seu amigo estudava as seis horas apenas no último ano do ensino médio. Portanto, o mais importante é a continuidade e a concentração no estudo".

10) "Os pais reclamam que seus filhos não leem, mas será que eles entram em livrarias e pedem que se escolha um livro?". Em seu livro, você realiza um trabalho constante de fazer com que os pais se voltem para suas ações e possíveis deslizes na educação de seus filhos. Seria este seu principal diagnóstico da dificuldade atual das crianças e adolescentes com os estudos?

Tatiana: "Certamente os pais são referenciais para seus filhos. Isto é inegável. Entretanto, culpar e responsabilizar apenas os pais não seria o correto. Ou seja, o comportamento dos pais influencia, mas não determina o comportamento dos filhos. Existem dois ingredientes importantes para ajudar os jovens: insistência e consistência. Insistência, pois a educação não tem efeitos imediatos. É preciso renovar diariamente o convite para o prazer de estudar. E consistência porque os filhos aprender mais com o que vêem do que com o que ouvem".

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