Mudanças na relação homem/mulher

Mudanças na relação homem/mulher

Atualizado: Quinta-feira, 21 Janeiro de 2010 as 12

Isabelle Ludovico

A médica e terapeuta, Ago Burki, analisa esta mudança no livro "Não sou mais a mulher com quem você se casou" (Ed Paulus), fruto de uma pesquisa com mais de 100 mulheres. O modelo patriarcal de casamento, ancorado no nosso inconsciente, está fundamentado num ideal de harmonia que só pode existir quando a mulher se anula e deixa o homem decidir pelos dois. Aos poucos, surge um novo modelo, mais democrático, que resgata o valor de cada um. Esta busca de uma relação igualitária pode também gerar harmonia, mas somente quando os dois aprendem a lidar com os conflitos numa perspectiva de respeito mútuo. O desencontro será superado como resultado do amadurecimento da relação. Neste caso, a harmonia não é um ponto de partida, imposto por uma rígida distribuição de papéis, mas a conseqüência de uma relação, onde cada um tem voz ativa e ambos aprendem a compartilhar suas emoções e respeitar suas diferenças.

Geralmente é a mulher que inicia o processo de transformação quando ela questiona o lugar que lhe é reservado. Ao se sentir usada, machucada, desvalorizada, ela fica irritada e até indignada. Momentos de depressão e agressão se alternam. Ela se considera ao mesmo tempo vítima e culpada por transgredir a ordem vigente. O homem apóia a mulher enquanto ela continua dependente, mas se assusta quando ela passa a tomar iniciativas. Ele se sente traído. O esfacelamento do seu poder desencadeia uma crise de identidade, que o leva a se fechar ou agredir de volta. Cada um perde o seu lugar e o seu papel. Os dois sofrem e estão cobertos de razão. Chegaram num impasse. Quem é acusado se defende e quem se sente culpado não consegue mudar.

Enquanto a gente acusa o outro, não há progresso, mesmo se as queixas são legítimas. Um momento chave ocorre quando a mulher toma consciência de que ela ajudou a construir o modelo que hoje odeia. Ela não é vítima do marido, mas assumiu o papel de vítima. A única forma de sair do círculo vicioso de acusações e cobranças é reconhecer sua participação no conflito. A crise pode desembocar em separação física ou emocional (mesmo continuando debaixo do mesmo teto). Mas ela pode ser construtiva se cada um assume a responsabilidade por si mesmo, desenvolve a capacidade de estar só e se dispõe a iniciar um processo de diálogo, reconciliação e aceitação mútua.

Nenhum casamento pode preencher totalmente alguém. Cada um deve ter vida própria para se livrar da co-dependência e iniciar uma relação de interdependência. Os medos, fantasias, mágoas precisam ser identificados e expressos para sair do esconderijo do inconsciente onde eles assumem proporções cada vez maiores. Às vezes, as feridas são tão profundas e as defesas tão rígidas que é preciso recorrer a um terapeuta familiar para encontrar o caminho da restauração.

Os casais precisam escolher um ao outro, novamente, várias vezes no decorrer da vida. O casamento requer uma grande flexibilidade e disposição para a mudança. Os dois precisam aprender a ouvir para entender a perspectiva do outro. A vida é um processo contínuo de transformação. O passado não pode ser mudado, mas mesmo o fracasso pode servir de alavanca para o futuro. Na crise, o importante é não desistir, nem fugir na depressão. Ela é uma oportunidade de descobrir a própria força, de crescer.

Cada nova etapa começa com perda. É assim, por exemplo, com a saída dos filhos. Se os filhos não forem capazes de se tornar independentes, os pais falharam. Quando eles conseguem, o relacionamento com eles tende a se transformar numa grande amizade que leva tempo para ser construída. Da mesma forma, o casal que passa por esta crise de paradigmas pode experimentar novas maneiras de ser e de se relacionar.

Escreve-se muito sobre a mudança da mulher, mas muitas mulheres continuam à mercê do homem. Precisaremos de várias gerações para desenvolver uma linguagem própria e redescobrir valores que não sejam apenas reflexo, invertido ou não, do masculino. Homens e mulheres têm hoje a oportunidade de descortinar novos horizontes e desenvolver um potencial até então inibido pela definição estereotipada do que significa ser homem ou mulher.

Isabelle Ludovico da Silva é psicóloga clínica, com especialização em Terapia Familiar Sistêmica.

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