Mulher-maravilha? Tô fora!

Mulher-maravilha? Tô fora!

Atualizado: Quarta-feira, 10 Março de 2010 as 12

O relógio toca às 6 da manhã. O corpo pede mais cinco minutinhos, mas você levanta num pulo (para não desistir no meio do caminho). O banho é cronometrado. O café da manhã e o jornal são "consumidos" ao mesmo tempo. Você sai de casa, apressada, pois tem que chegar logo ao escritório e terminar um relatório. O almoço é uma salada em cima da mesa – não engorda e dá para comer rápido. Fim do dia, você corre para a academia para tentar ficar mais próxima da figura de uma deusa. Aparece em casa e já é noite: dá atenção aos filhos, come qualquer coisa e pensa se não é o caso de estrear uma posição do Kama Sutra com o maridão. Só à meia-noite, você se permite dormir. A história lhe parece familiar?

É claro que você ainda teria de acomodar na sua agenda a leitura do livro que está na boca da turma, o último filme do Almodóvar, seu projeto de MBA, o curso de inglês, uma superdisposição para encarar uma balada e a compra daquele jeans que só você ainda não tem... Afinal, a gente tem de ser ótima como profissional, perfeita na faculdade, bacana entre os amigos, presente na família, assídua na academia, sem esquecer os atributos sensuais que toda mulher precisa ter. Gostosa, saudável, cheirosa, interessante, inteligente, jovem e cheia de estilo – ufa! Nossa cesta básica, condição para que sejamos amadas e felizes, está ficando cada vez mais sofisticada.Tanta perfeição, você sabe, custa muito caro – vive-se à beira de um ataque de nervos.

O mundo cobra mesmo, e muito. Mas, vamos falar a verdade: quem a colocou nessa cilada de mulher-maravilha foi você mesma. Será que o seu professor perderia o sono com a sua nota baixa? Se seu quadril aumentasse 1 centímetro, seu namorado iria embora? "Quem se propõe a se enquadrar perfeitamente nos padrões de excelência da sociedade acaba magoada, sem tempo de entender e atender os próprios desejos", explica o psicanalista Luiz Delfino, de São Paulo. Pior: quanto mais afobada você fica para ganhar nota 10 em tudo, maior o risco de entrar no piloto automático.

Tudo ao mesmo tempo

Estressadas pela pressão, nossas mães também eram. O desafio delas foi conseguir um emprego e assumir duas jornadas de trabalho, dentro e fora de casa. Hoje, no entanto, nós queremos mais. Queremos e precisamos de sucesso. Os homens não ficam de fora dessa batalha, mas, como lembra o filósofo Mario Sergio Cortella, a mulher, por sua natureza emocional, é particularmente mais vulnerável ao que os outros esperam dela.

Além do sucesso, da carreira, da família, da casa, ela ainda tem a obrigação de ser linda para ser feliz. "Não é fácil encarar todas as cobranças da vida e ainda dar conta de se manter bonita, atraente e saudável. Isso gera muita tensão", explica a psicanalista Marina Massi, da Pontifícia Universidade Católica (PUC), de São Paulo. A tensão vai se acumulando até chegar a um ponto em que as crises são praticamente inevitáveis. Estourar, na verdade, pode ser o alerta que você está precisando: "Toda crise é uma forma de chamar atenção para você mesma e lembrá-la de que merece e precisa ter suas vontades respeitadas", explica Luiz Delfino. O conselho desse especialista: se estourar, não se culpe, mas aproveite o recado para parar e reorganizar suas prioridades.

Depoimentos

"Desde pequena eu queria ser a melhor em tudo. Em 2005, quando tinha dois empregos, cursava o último ano de faculdade, fazia aulas de inglês, academia, acabei sofrendo uma crise de pânico: tinha medo de ser seqüestrada. A situação só se acalmou quando eu desisti de um dos empregos."

Ana Elisa Morano, 22 anos, estudante de São Paulo

"Sempre gostei de fazer tudo do meu jeito. Por isso, aos 23 anos, resolvi abrir minha própria empresa. No começo foi difícil aprender a lidar com coisas que eu não conhecia, como a parte burocrática. Eu, que sou muito exigente comigo mesma, passei a engordar e ter queda de cabelo. No fim de 2005, decidi mudar. Comecei a fazer terapia e a pensar mais em mim. Vivo hoje uma fase transitória, meio egoísta; mas nunca mais me deixo em segundo lugar!"

Juliana Reis, 28 anos, jornalista de São Paulo

"A minha rotina é a básica: trabalho, faço academia, procuro comer direitinho, sou mãe de duas crianças (Bran, de 1 ano, e Ayla, de 10) e tenho um marido maravilhoso. Mas, confesso, volta e meia me pego na síndrome tenho-que-dar-conta-de-tudo. Nem com um dia de 35 horas! O jeito é priorizar as atividades e dividir as tarefas com o maridão."

Ana Cláudia Marques, 34 anos, analista de sistemas de Brasília

Fique de olho nos sintomas

Alguns sintomas podem indicar que você precisa se dar uma folga. Preste atenção se:

• Você anda cansada e tendo gripe ou virose constantemente. Sinal de que o stress está afetando o seu sistema imunológico.

• O seu sono anda mal. O vilão aqui é a ansiedade: seu organismo fica a mil por hora e não descansa. Sem descansar, perde o pique.

• Você anda comendo demais ou de menos. O apetite é um retrato das condições psicológicas. Quem anda com os nervos à flor da pele tem a tendência a descontar na comida.

• A sua vida sexual está ruim. Ela é parte fundamental do relacionamento amoroso e, principalmente, do relacionamento com o seu corpo.

• Você vive estressada. É um sinal importante de que você está tentando ser perfeita em mais situações do que pode dar conta.

Dicas para aposentar os superpoderes

Desencana!

Fugir do modelo mulher-maravilha depende de um treino diário para neutralizar a pressão social. Os especialistas ensinam como aposentar os seus superpoderes

• Organize-se!

Quando estiver com mil problemas na cabeça, priorize. Isso vai ajudar a resolver as urgências primeiro, escolher em que situações você entra em cena e em quais você passa a vez.

• Não faça tempestade em copo d'água!

Coloque as coisas em perspectiva – cometer um engano, não ir tão bem na prova ou estar sem pique para sair não é o fim do mundo.

• Você não é perfeita

O ser humano é imperfeito por natureza. Aceite que tem limitações e crie expectativas possíveis, para não se frustrar depois.

• Preste atenção!

Tire alguns minutos todos os dias e analise se você está feliz com o trabalho, a profissão, a faculdade e a vida pessoal. Não se trata de largar tudo, mas mudar as coisas de modo a ficar mais satisfeita com suas opções. Essa é uma ferramenta.

Por Danielle Sanches

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