Não tão solitários

Não tão solitários

Atualizado: Segunda-feira, 18 Outubro de 2010 as 3:17

É um clichê bastante difundido a ideia de que crianças que crescem sem irmãos podem ser "esquisitas" ou "desajustadas". No entanto, novas pesquisas derrubam essa visão - sugerindo que qualquer deficiência que exista nas habilidades sociais do filho único, quando pequeno, terá desaparecido até a sua adolescência.

Os resultados deste novo estudo também colocam na berlinda as pesquisas das ciências sociais. Qual seria a metodologia correta para se estudar um assunto de cunho tão emocional? E como se espera que os pais possam compreender as mensagens conflitantes desses estudos?

Há muito tempo que se constata que filhos únicos tendem a ter maior capacidade cognitiva do que as crianças com muitos irmãos, mas alguns pesquisadores têm considerado que isso é contrabalanceado por uma habilidade social mais empobrecida - o que potencialmente poderia se tornar um problema para os filhos únicos durante o seu crescimento.

Algumas das evidências mais convincentes a sustentar essa visão, até o presente momento, baseavam-se em um estudo de 2004, realizado com mais de 20 mil crianças americanas do jardim de infância. Esse estudo mostrou que os professores classificavam os filhos únicos como tendo habilidade social inferior à dos coleguinhas que tinham pelo menos um irmão, relatando, ainda, que mostravam menor autocontrole, menores habilidades interpessoais e mais problemas comportamentais.

Para estudar esse fenômeno, na adolescência, os sociólogos Donna Bobbit-Zeher e Douglas Downey, da Universidade Estadual de Ohio, apoiaram-se em dados já existentes do Estudo Longitudinal Americano sobre Saúde do Adolescente. No Encontro Anual da Associação Americana de Sociologia, realizada em agosto de 2010, os autores apresentaram uma análise das respostas de 13.466 alunos do ensino médio americano e do colegial - da sétima série até o terceiro colegial - os quais tinham como tarefa selecionar 5 amigos entre os alunos da escola que constavam em uma lista. Os pesquisadores descobriram que os filhos únicos têm a mesma probabilidade de serem selecionados como amigos pelos seus colegas de classe, que aqueles que possuem irmãos.

"Em cada combinação que testamos, a existência ou não de irmãos não tinha impacto sobre o grau de popularidade de um aluno entre seus pares, afirmou Bobbit-Zeher. "Acredito que ninguém precisa se preocupar com o fato de que se você não tem irmãos, não vai aprender as habilidades sociais necessárias para se relacionar bem com os outros alunos, no colegial".

Mensagens Confusas

Mas os resultados diferentes nesses dois estudos levantam uma série de perguntas. O estudo realizado com os adolescentes se baseia nas indicações dos colegas, quanto ao quesito amizade, para avaliar as habilidades sociais; enquanto que o estudo de 2004, também realizado por Downey, pedia para que os professores avaliassem as habilidades sociais das crianças. Estariam os filhos únicos se tornando mais hábeis socialmente, à medida em que amadurecem e passam mais tempo com seus colegas? Ou os resultados diferentes se devem, simplesmente, ao fato de serem dois métodos de avaliação diferentes?

"Os professores classificavam os filhos únicos como tendo habilidade social inferior a dos coleguinhas que tinham pelo menos um irmão"

A resposta, diz Downey, está na primeira alternativa e, para comprovar esse ponto de vista, ele cita uma análise do acompanhamento feito com as crianças do jardim de infância, que ele planeja publicar em breve. Ao alcançar a quinta série, as habilidades sociais do grupo de 2004 foram novamente avaliadas pelos professores e apresentaram resultados iguais ao do estudo com o grupo de adolescentes (baseado na amizade): não havia diferenças nas habilidades sociais entre os filhos únicos e os que tinham irmãos.

"O argumento de que a desvantagem de não ter irmãos não está presente lá na quinta série, usando-se o mesmo critério, nos dá maior confiança de que, embora haja uma certa diferença na maneira como estamos medindo as habilidades sociais, o fator que realmente importa é a idade das crianças", afirmou Downey.

Em 2004 eu teria dito: "Estamos vendo uma evidência modesta de que talvez haja alguns deficits nas habilidades sociais dos filhos únicos e não sabemos o que acontecerá mais tarde na vida..." Hoje eu diria: "Parece que o deficit original que vimos no jardim de infância não se sustenta por muito tempo e é superado provavelmente pela maior interação com os colegas".

Sem surpresas

Guang Guo, sociólogo da Universidade da Carolina do Norte, em Chapel Hill, está familiarizado com os dados usados no estudo dos adolescentes. Ele descreve as novas descobertas como "aceitáveis" e concorda que "não há necessariamente" um conflito com estudos anteriores. "As pessoas se adaptam às situações e isto não surpreende", afirmou.

Downey nega, também, que as divergências nos resultados apresentem mensagens conflitantes para os pais. "Nós seguimos as evidências para onde elas nos levam, e as estamos avaliando da maneira mais cuidadosa possível."

O estudo de 2004 é um dos poucos a sugerir algo do tipo: "Olha aí, talvez haja alguma coisinha ocorrendo com os filhos únicos". E agora as evidências estão descobrindo mais do que aquilo que é consenso geral entre os sociólogos.

Downey acrescentou que no momento em que ele e seus colegas pesquisadores descobriram o pequeno deficit na socialização das crianças do jardim de infância, eles não recomendaram que os pais tivessem um segundo filho para "melhorar as habilidades sociais de seu primogênito".

"As diferenças simplesmente não eram grandes o suficiente a ponto de os pais tomarem decisões sobre reprodução baseadas nelas", ele complementou.

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