Ninguém me contou que ter parto normal é exceção

Ninguém me contou que ter parto normal é exceção

Atualizado: Quarta-feira, 30 Março de 2011 as 10:48

DEPOIS DE UMA CESÁREA QUE NÃO TINHA PLANEJADO, A ENFERMEIRA CINTHIA LUTOU PARA TER UM PARTO DO JEITO QUE QUERIA. E TEVE, NO DIA DE NATAL

CINTHIA CALSINSKI DE ASSIS DIB, MÃE DE MATHEUS E BIANCA, É ENFERMEIRA. PAROU DE TRABALHAR DESDE QUE O FILHO MAIS VELHO NASCEU E SÓ PRETENDE VOLTAR QUANDO A BIANCA FIZER 2 ANOS

Sou enfermeira e começo falando sobre o direito do paciente em escolher, aceitar ou recusar um cuidado de saúde. No sistema de saúde privado brasileiro observamos que, se uma mulher opta por uma cesárea, ela acontecerá, mas, se opta por um parto normal, tem uma pequena chance de trazer seu filho ao mundo dessa maneira.

Minha bisavó era parteira no Rio Grande do Sul, ia a cavalo atender mulheres em trabalho de parto, todos normais, sem intercorrências. Ajudava a nascer alguns bebês que estavam sentados, virava outros. Teve 11 filhos de parto natural, claro. Minha avó, três; minha mãe, dois. Nunca duvidei de minha capacidade em parir. Conversei com a obstetra sobre parto normal e achei que isso bastaria.

O que eu não sabia era que o adventoda medicina, do ultrassom, de exames diagnósticos, trouxe aos médicos e demais profissionais de saúde um excesso de zelo, um cuidado exagerado, não  fundamentado, uma medicina não baseada em evidências. Será que décadas atrás os cordões umbilicais eram maiores e mais flexíveis e por isso não enforcavam os bebês? Será que os colos dos úteros eram mais receptivos aos hormônios e por isso não deixavam de dilatar? Os bebês eram menores? As bacias das mulheres maiores?

Minha expectativa e confiança em ter um parto normal era muito grande e eu não fui buscar nenhum tipo de informação durante a gravidez. Mas, devido a um diagnóstico de “circular de cordão  umbilical”, que é quando o cordão fica enrolado no bebê, escolhi passar por um parto cirúrgico em vez de colocar a saúde e o bem-estar de meu filho em risco. Não queria pagar pra ver.

Após a cesárea do Matheus, a felicidade de me tornar mãe tomou conta de mim, passei algum tempo sem pensar no parto.

Depois, conversando com meu pai, soube que este ficou triste e preocupado ao saber que eu passaria por uma cesariana no nascimento de seu neto. Nesse momento, entendi algo mais de suas palavras. Meu pai não tinha medo que eu sofresse ou sentisse dor durante o trabalho de parto – afinal, assim nascem os bebês. Seu medo era de me ver passar por uma cirurgia sem necessidade.

Quando engravidei da Bianca, decidi que viveria intensamente seu nascimento, da maneira que sempre quis. No meio do caminho ouvi: “Se você realmente quer um parto normal, eu preciso te falar algumas coisas.” Aquela conversa alterou minhas atitudes, minhas escolhas, meu destino.

Pari minha filha vivendo cada momento do trabalho de parto. cada contração me deixava mais próxima a ela. Após 18 horas, minha filha nasceu. Era dia 25 de dezembro. foi o presente de Natal da minha vida: ao me inclinar para a frente, vi sair de mim um bebezico. Chorei tanto que perguntei para a equipe se ela havia chorado.

Lembro-me de dizer: “Eu consegui, eu sabia que conseguiria, obrigada por me permitir viver esse momento”. A Bianca veio mamar em questão de segundos. Ficamos nos olhando e nos conhecendo por quase uma hora. Mamãe, papai e neném. Todos saíram da sala, foi um momento só nosso. Ficamos unidas ao cordão umbilical até que este parou de pulsar e meu marido o cortou.

Minhas amigas não conseguiram ter parto normal. Nenhuma delas. As mulheres que conheço que conseguiram eu descobri através da busca pelos mesmos ideais. Por isso, gestante, informe-se. Uma vez decidido o tipo de parto que você deseja, lute por ele.

Amo meus filhos da mesma maneira e intensidade, mas tenho sentimentos e sensações diferentes sobre seus nascimentos  

veja também