Novas famílias: estamos caminhando para um mundo com menos bebês?

Novas famílias: estamos caminhando para um mundo com menos bebês?

Atualizado: Terça-feira, 13 Maio de 2008 as 12

Pesquisa recente realizada sobre a fecundidade do brasileiro revela que quatro em cada dez gestações ocorridas no Brasil não foram planejadas. E, embora isso aconteça com mais freqüência entre os mais jovens (56%) e os mais pobres (44%), este não é fenômeno exclusivo deles: entre os que estão no topo da pirâmide social, 34% tiveram filhos sem planejar. Os pesquisadores também perguntaram aos pais, o que aconteceria se eles pudessem voltar no tempo: "teriam o mesmo número de filhos?". A maioria dos entrevistados (60%) afirmou que faria escolhas diferentes: 24% teriam menos filhos, 21% teriam mais e 15% não teriam filhos.

No Japão, país com uma das menores taxas de fecundidade do planeta e o maior percentual de idosos, há o risco da população de 128 milhões de pessoas encolher ? juntamente com a produtividade e a riqueza ? para um patamar inferior a 100 milhões de habitantes, em 2046. Na tentativa de amenizar o quadro, o governo anunciou o terceiro pacote de medidas, em doze anos, destinado a aumentar o número de bebês nos berçários do país. A maioria dos casais japoneses com um só filho queria, na verdade, ter dois. Não o faz por dois motivos: o primeiro é o alto custo para criar uma criança no Japão (em torno de 200.000 dólares, do nascimento ao término da faculdade) e o segundo é o fato de as mulheres acreditarem que um segundo filho inviabilizaria suas chances de continuarem empregadas.

Entretanto, também nesse aspecto, o planeta não é igualitário, o envelhecimento da população e a baixa taxa de fecundidade são uma tendência apenas nos países ricos e desenvolvidos. Na Coréia do Sul e na Austrália, a taxa de fecundidade também caiu abaixo da linha de reposição da população. Dos membros do G8, o grupo dos países mais ricos do mundo, apenas os Estados Unidos têm uma taxa de fecundidade capaz de manter a população estável.

Do outro lado, as taxas de fecundidade continuam elevadíssimas nos países mais miseráveis da Ásia e da África. Este quadro pode se alterar com a modernização destas sociedades, pois a história nos ensina que avanços na educação, mudanças no papel social da mulher e melhorias nas condições de saúde derrubam as taxas de fecundidade. Foi exatamente a entrada das mulheres no mercado de trabalho, o fator histórico que levou às maiores quedas nas taxas de fecundidade em todo o mundo ? respaldada, obviamente, por métodos anticoncepcionais confiáveis. A preocupação com a carreira leva as mulheres a adiar o casamento e, por conseqüência, a ter filhos mais tarde.

Filhos, hoje, são uma opção.

Além desta nova postura feminina, novos arranjos sociais e familiares vão lentamente determinando mudanças na formação das famílias. Uma "nova categoria familiar", a dos casais sem filhos, vem chamando atenção. Nos Estados Unidos, esses casais são chamados de dinks, abreviatura de double income, no kids ("dupla renda, sem filhos"). Nesse grupo estão incluídos os jovens que protelam a chegada dos herdeiros, pessoas de meia-idade que já criaram os filhos, os parceiros homossexuais e os casais que não podem ou não querem se tornar pais. No Brasil, a PNAD de 2006 identificou 8,6 milhões de residências de casais sem filhos, o que representa um aumento de 60% sobre o número de 1996. Segundo o IBGE, a tendência é que essa parcela da população deva dobrar na próxima década.

O aumento de casais que optam por não ter filhos revela que a procriação saiu do campo das contingências biológicas para adentrar o universo do desejo. Filhos, hoje, são uma opção. Se, por um lado, uma vida sem crianças não provoca estragos ao orçamento e permite mais liberdade na vida a dois, ir contra a expectativa da sociedade tem seu ônus. As pessoas vêem com estranheza quem não tem filhos porque existe a idéia de que isso é "contra a natureza humana".

Muitos preferem acreditar que a decisão de não ter filhos seria fruto de imaturidade e de egoísmo do casal. Mas isso não é verdade. Pode até acontecer o contrário: casais maduros pensam mais nas conseqüências de trazer um filho à vida e por isso optam por não tê-los. Do outro lado, há casais que podem decidir ter filhos por razões extremamente egoístas - a ilusão de "salvar o casamento" ou o desejo de perpetuar-se no outro, como uma forma de fazer-se imortal.

Apesar de a escolha de não ter filhos ser aparentemente racional, a decisão deriva mais de emoções do que de razões. Geralmente, não ter filhos está associado a muitos medos: da responsabilidade, das mudanças que um filho traria para a dinâmica do casal, receio de não ser um bom pai ou boa mãe; preocupações com o futuro. Independentemente das razões que levam uma pessoa a abrir mão da paternidade e da maternidade, o fato é que esta opção tem de ser bem pensada, pois é uma decisão tão séria quanto querer ter filhos.

Prof. Dr. Joji Ueno. O autor é ginecologista, especialista em reprodução humana, Doutor em Medicina pela Faculdade de Medicina da USP, diretor da Clínica Gera.

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