O bebê e a executiva

O bebê e a executiva

Atualizado: Quinta-feira, 8 Setembro de 2011 as 4:10

Você tinha feito mil planos para sua volta ao trabalho e agora, que o fim da licença está chegando, começa a se perguntar se não seria melhor fazer uma pausa na carreira e trabalhar em casa. Ao mesmo tempo, vem o medo: e se a experiência for um desastre? Muitas mulheres decidiram dar o salto e inauguraram a tendência conhecida como work at home moms, que já é forte na Inglaterra, no Japão, Canadá e nos Estados Unidos. Nesses países, atualmente há inúmeros blogs, sites e serviços feitos por e para mulheres que mudaram o rumo profissional depois da maternidade.

Entre as brasileiras, o movimento também vem ganhando corpo, já que a maioria das empresas não prevê horários flexíveis nem outros benefícios para as mães além da licença-maternidade. “A mulher moderna é cobrada para ser uma mãe presente, educadora competente e profissional eficaz. Tudo isso em tempo integral. E mais: não pode descuidar da aparência, precisa estar bem emocionalmente e ainda tem que ganhar dinheiro para ajudar no orçamento. Só que o suporte que recebe para exercer essas múltiplas funções não evoluiu quase nada”, analisa a psicóloga Sheila Skitnevsky-Finger, do Instituto Mãe Pessoa, que presta consultoria para quem está envolvida com o desafio de equilibrar filhos e carreira. Se você está sentindo essa pressão na pele, veja o que deve avaliar antes de tomar uma decisão.

Benefícios concedidos

“Em alguns países, como Canadá e Estados Unidos, trabalhar meio período ou ir à empresa apenas duas vezes por semana já é realidade para quem tem filhos pequenos”, afirma Cristiana D. Baptista, planejadora financeira da Personal – Planejamento Pessoal e Financeiro, em São Paulo. No Brasil, ainda são raras as companhias que viabilizam horários flexíveis, mas muitas já têm um novo olhar para a profissional que se torna mãe. Por isso, antes de dar um passo definitivo, é fundamental conversar e descobrir que tipo de ajuda seu empregador está disposto a oferecer nessa fase. Caso não tenha jeito, comunique sua decisão à empresa apenas no último mês da licença, no contato de praxe com o departamento de recursos humanos. Mas não deixe para a última hora. “Essa é uma postura ética e responsável que a ajudará a manter as portas abertas para o futuro”, diz a psicóloga Renata Perrone, gerente de consultoria da Ricardo Xavier Recursos Humanos, em São Paulo.

O que pode ser negociado

Antes de pedir demissão, esgote todas as possibilidades, pois manter um vínculo empregatício, de fato, gera conforto e estabilidade. Em primeiro lugar, tente negociar uma licença maior para ficar com o bebê, ainda que seja sem remuneração. Não tenha medo de propor trabalhar meio período ou ir à empresa uma ou duas vezes por semana e, nos outros dias, cumprir as tarefas profissionais em casa. “Quanto mais especializada for sua função e mais alto o cargo que ocupa, maior a chance de encontrar uma boa alternativa para ficar com o bebê sem sair da empresa”, afirma Vanessa Alves, psicóloga responsável pela área de seleção e sócia da Inter Talentos Recrutamento e Consultoria em RH, em São Paulo.

As motivações reais

Cuidado com os fantasmas que rondam esse período: medo de não ser capaz de cuidar do bebê, de não ser boa como mãe e profissional, de deixar o filho nas mãos de estranhos, de perder o marido por não ter disposição para mais nada... Esses e outros temores típicos do momento são um gatilho para decisões precipitadas. Antes de mais nada, pergunte a si mesma: “Será que realmente quero ser mãe em tempo integral ou procuro uma rota de fuga para não encarar o desafio de conciliar maternidade e carreira?”, sugere Sheila. Quanto mais honesta for a resposta, mais chance você terá de se realizar na vida pessoal e também na profissional. Além de sofrer com as próprias dúvidas, muitas mulheres ainda têm de lidar com pressões do marido, dos pais e até dos amigos, que rotulam como “maluca” a ideia de se afastar da carreira para ficar 24 horas com o bebê. Ouvir seu coração e pensar nas suas reais necessidades é o caminho mais curto e seguro para evitar arrependimentos e se sentir plena e firme, seja qual for sua escolha.

O tempo do afastamento

Caso resolva dar uma parada, saiba que, dependendo da área, passar mais de um ano fora do mercado pode diminuir a chance de recolocação. “Setores estratégicos, como planejamento, economia e vendas, requerem profissionais constantemente conectados com o mundo dos negócios”, avisa Vanessa. A pressão é menor, porém, para quem trabalha em áreas de suporte, como administração ou marketing, que não exigem um relacionamento tão contínuo com o clienteQuando quiser voltar

Se você já deu um tempo e agora quer retomar a carreira, a psicóloga Renata Perrone ensina o caminho • Nas entrevistas, os selecionadores tentarão perceber se você tem condições de conciliar os deveres de profissional e de mãe. Por isso, deixe claro que já se organizou para a volta, falando da sua estrutura de apoio (marido, creche, babá ou avós) para cuidar do bebê. • Dependendo da área, a disponibilidade para cumprir horários flexíveis ou viajar conta pontos. Se for questionada a respeito, seja honesta sobre suas possibilidades de fazer horas extras e sair da cidade ou do país. • Quem dá o tom à entrevista é o candidato. Mostre claramente que o desejo de ficar em casa depois da licença foi seu, mas que se preparou durante esse tempo para regressar ao mercado. Segurança ao falar dos seus objetivos é uma postura positiva. • O ideal é que, mesmo em casa, você não tenha descuidado da aparência e continue com o hábito de se produzir diariamente. Sua autoestima deve estar alta no momento de ir à luta por um novo emprego.    

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