O convívio com uma pessoa excepcional é uma lição de amor

O convívio com uma pessoa excepcional é uma lição de amor

Atualizado: Sexta-feira, 22 Julho de 2011 as 9:57

Aquele lar cristão fora contemplado com mais um filhinho, muito esperado e amado. Eu já era nascida e me lembro que meu irmão foi recebido com festa. Mamãe, sempre tão atenciosa, não se esqueceu de mim e me presenteou com um lindo joguinho de chá, para que pudesse brincar e não sentir tanto a presença de um novo nenê, que certamente tiraria parte das atenções a mim dispensadas. Como tantas outras, mamãe fez alguns planos para o futuro de seu novo rebento: "Quem sabe será um médico, talvez um advogado e por que não um engenheiro"? Porém, desses sonhos ela foi despertada quando ainda na maternidade verificou-se que ele era um nenê 'especial'.                 

Em seu nascimento, os médicos não garantiram sua vida e nem que possuísse o globo ocular, pois seus olhinhos não abriam nem com o auxílio de medicamentos. Era uma incessante luta para alimentá-lo, já que não mamava no peito e não aceitava o leite artificial, o que obrigava mamãe a extrair seu leite e oferecê-lo em mamadeira.

Minha mãe pôs-se de joelhos em oração, e esta foi a chave que abriria a porta para que a família se unisse em amor, compreensão e sabedoria.

Realmente foi um tempo difícil, no qual até mesmo as noites ele exigia atenção, pois seu choro era ininterrupto, o que fazia com que meus pais e meus avós se revezassem em seu cuidado. Porém, o tempo foi passando e essa luta vencida pelas misericórdias do Pai Celeste.

Em tempo maior que o comum ele abriu os olhinhos, perfeitos pela graça de Deus, que inicialmente eram azuis e, com o tempo, se tornaram cor de mel.

Custou muito para que andasse e falasse. Novamente a fé de minha mãe entrou em ação e após a oração de um missionário, ele começou a falar. Um verdadeiro milagre!

Mamãe foi agraciada com mais duas filhas. Éramos quatro, sendo ele o único menino. Por quê, Pai? Esta era a pergunta que ficava em nossa mente. E a resposta nós a encontramos na Palavra de Deus: "Os teus olhos me viram a substância ainda informe, e no teu livro foram escritos todos os meus dias, cada um deles escrito e determinado, quando nem um deles havia ainda" (Salmo 139.16).

Apesar de todas as lutas, mamãe orientou nossa família para que aquele a quem tanto amávamos não se sentisse diferente e fosse tratado com carinho, respeito, responsabilidade e igualdade (ele era um de nós, em nada diferente).

Os médicos haviam dito que, se ele sobrevivesse, não chegaria aos cinco anos. Porém, ele fez dez, vinte e assim contrariando à afirmativa inicial viveu até os trinta e nove anos. Sua vida foi alegre, de liberdade, com muita bondade em seu coração, porque tudo o que queria era ajudar o próximo. Em seus momentos finais, em meio a uma difícil enfermidade mostrou o quanto era temente a Deus, pois em seu sofrimento nunca se desesperou. Era carinhoso, compreensivo e nunca nos agrediu com palavras ou atitudes, porque assim mamãe o orientara.

As lembranças da infância ao seu lado são muitas. Nós, três meninas e ele, fazíamos nossas artes e por elas éramos todos corrigidos. Ficávamos sentados de castigo em cadeiras próximas e querendo a todo custo sair, mas com voz firme, calma e tranqüila mamãe nos explicava o porquê de estarmos ali.

Nosso amigo, assim foi nosso irmão, companheiro nas travessuras da infância e, mais tarde, em nossas lutas, nos ajudando da forma que podia.

Foi temente a Deus, amava a igreja e com que prazer e alegria se aprontava para os cultos, orava e cantava!

Da luta que tivemos desde o seu nascimento até a infância, pudemos sentir que Deus estava no controle, o que tornou as fases da adolescência, mocidade e adulta mais amenas e, por que não dizer, até normais? Realmente, chegávamos a esquecer que tínhamos um irmão excepcional. Ao sentir-se amado e protegido em nosso lar ele, dentro de suas limitações, prosperou e foi um irmão calmo e tranqüilo, possibilitando que vivêssemos em harmonia. Mamãe também foi em busca de tratamentos, técnicas e alternativas para melhor conduzir a situação.

Se você, que está lendo este artigo vive uma situação semelhante, quero lhe deixar uma palavra na qual sinta esperança e força para prosseguir. Primeiramente: 

-  entregue a Deus a pessoa "especial" que Ele colocou em sua vida.

- confie no Pai pois Ele está no controle de tudo.

- ame-a muito, lembrando que Deus nos amou primeiro (1 João 4.19).

- Peça sabedoria para educá-la e orientá-la, bem como à sua família, dentro dos bons princípios e no temor do Pai Celeste.

- Busque tratamentos e formas de propiciar uma melhor qualidade de vida.

Finalizando gostaria de dizer, por meio da nossa experiência pessoal, a bênção que foi conviver com nosso irmão "especial"! Ele, em muitos momentos nos ensinou a respeitá-lo. Sabemos que Deus poderia tê-lo curado, mas não o fez porque em seu plano perfeito quis que todos nós aprendêssemos com aquela situação. Ele foi para nós a lição pela qual pudemos ter a certeza de que dando, realmente se recebe.

Ficaram a saudade e o exemplo de minha mãe, que nos educou de maneira calma, traduzindo a tranqüilidade daqueles que esperam no Senhor.

"Aqueles que esperam no Senhor renovam as suas forças..."(Isaías 40.31)

Escrito por: Ceni Viana

veja também