O dossiê da chupeta

O dossiê da chupeta

Atualizado: Sexta-feira, 3 Dezembro de 2010 as 2:56

Depois de ganhar um formato anatômico, reconhecida como um instrumento de transição na vida do bebê, a chupeta não é rejeitada e contraindicada por profissionais da saúde como era antigamente. Parece consensual a ideia de que se for usada por crianças que realmente precisam, de forma disciplinada, e abandonada no tempo certo, a chupeta pode desempenhar um papel importante no desenvolvimento. Mas como descobrir a forma certa? A chupeta não deve ser encarada como uma peça do enxoval do bebê nem ser oferecida para um recém-nascido só porque ele está chorando. Considerando todos os prejuízos à saúde provocados pelo uso inadequado, a chupeta requer uma avaliação criteriosa de quando e como usar. A introdução da chupeta deve ser acompanhada pelo médico do bebê. Além de avaliar a necessidade junto com a família, ele indicará de que forma ela fará parte da rotina da criança e orientará a escolha do modelo adequado. Os primeiros cuidados são com o tamanho e a qualidade da chupeta. As versões com bico de bolinha, mais baratas e bastante usadas pela população de baixa renda, são condenadas por todos os profissionais. A odontopediatra Adriana Mazzoni, do Grupo de Saúde Oral da Sociedade de Pediatria de São Paulo, explicou que a chupeta deve ter bico anatômico (chamado incorretamente pelos fabricantes de ortodôntico); escudo côncavo (para não projetar os lábios para frente); furos para ventilação (para não causar assaduras ao redor da boca); e não deve ter argolas, que fazem peso na apreensão e podem enroscar e machucar o bebê. Segundo Adriana, 30% das crianças precisam de sucção além do peito – o único responsável por desenvolver de maneira plenamente correta a musculatura, as arcadas e a respiração do bebê. Por isso, os pais devem esperar os sinais da necessidade: sugar o dedo ou parte da mão, um paninho, o cabelo da mãe, a roupa. “Chupeta não é feita para tampar a boca de bebê que chora”, adverte. O pediatra do Instituto da Criança do Hospital das Clínicas de São Paulo Evandro Roberto Baldacci rejeita a chupeta antes de duas semanas de vida porque a sucção do bico artificial pode provocar o desmame precoce. Mas após a fixação da amamentação no seio até os dois anos de idade, ele recomenda o uso se a criança precisar desse recurso para se acalmar. “Tem crianças que têm necessidade desse apoio. Então, ela é útil nesse intervalo de tempo. Depois disso, ela passa a ser um verdadeiro desastre, isso é que precisa ficar claro”, ressalta.

Pode, com reservas A chupeta apresenta vantagens, desde que usada com restrições: ela não substitui brinquedos e serve só para a hora de dormir A neuropediatra Márcia Pradella-Hallinan, coordenadora do setor de pediatria do Instituto do Sono, explica que a chupeta deve ser encarada como um objeto de transição, quando a criança tem necessidade de se acalmar usando a boca. “A finalidade da chupeta é o nome dela em inglês: pacifier, pacificadora”, afirma. De acordo com ela, a chupeta deve ser relacionada ao sono, como um ingrediente do ritual de dormir, no qual a mãe agrada, brinca, canta, prepara a criança para adormecer. “A gente não encara a chupeta como uma coisa ruim, mas tem que ter limite, como qualquer coisa para criança”, afirma. Se por um lado ajuda adormecer, a chupeta tem impacto negativo no sono quando escapa da boca e a criança acorda para procurar. Essa fragmentação do sono pode levar aos sintomas comportamentais e cognitivos do sono insuficiente. “A criança levanta mal-humorada, emburrada, chata, agressiva com os amigos”, explica. A chupeta relacionada ao sono vai perdendo a função por volta de um ano de idade, até ter o uso descontinuado. Esse é um bom momento para trocá-la por um “amigo do sono”, boneco ou bichinho que a criança agarra para dormir. Com o fim da necessidade oral, a sucção é substituída pela manipulação e os brinquedos para segurar e apertar desempenham o papel que antes era da chupeta. A chupeta não deve ser confundida com brinquedo. Algumas famílias não compreendem que os bebês precisam de estímulos desde muito cedo e a chupeta acaba ocupando um espaço muito além da sua real função. As cores, tamanhos, formas, sons, texturas e movimentos dos brinquedos estimulam a criança e garantem um entretenimento saudável, que dispensa o uso exagerado da chupeta.

Substituição sem prejuízos Assim como introduziram, pais devem tirar o hábito antes da criança completar dois anos A psicoterapeuta Ivonise Fernandes da Motta, professora da Faculdade de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), defende o entra e sai da chupeta na vida da criança, conforme a necessidade em cada etapa do desenvolvimento. É um recurso “bem útil e positivo” para o bebê manter a sensação de que continua sendo cuidado quando a mãe se afasta após a mamada. Ele começa a aprender que existem substitutos: se não tem o seio, tem a chupeta. “A chupeta integra a presença e a ausência da mãe”, explica. O objeto deixa de ser necessário quando mãe e filho se separam naturalmente, com o crescimento do bebê. A criança leva um tempo para entender que ela e a mãe são duas pessoas diferentes. “Algumas crianças precisam mais da chupeta nesse processo, outras, menos. O importante é que ela seja abandonada por volta de um ano, um ano e meio”, salienta. Segundo a psicóloga, o atraso na retirada pode significar dificuldade dos pais ou da criança. Quando não consegue largar a chupeta, a criança está tendo alguma dificuldade de aceitar frustração ou de se relacionar com o mundo. “Apegar-se muito à chupeta revela uma insegurança: quais recursos de vida a criança tem para dar conta das situações que enfrenta no dia a dia?”, explica. O interesse pela chupeta diminui com a descoberta de novos atrativos. Assim como introduziram a chupeta, os pais devem oferecer mordedores e brinquedos que podem ir à boca para ensiná-la a substituir. As brincadeiras e passeios aumentam com o passar do tempo e conduzem a criança para uma nova fase. “Os pais precisam aceitar que o filho está crescendo”, ressalta Ivonise.

Para evitar o aparelho Quanto antes, melhor: danos à mordida, à fala e à dentição são menores quando a criança abandona a chupeta mais cedo A restrição da chupeta à hora de dormir e até o final do segundo ano de vida aumenta as chances de correção das possíveis sequelas sem o uso de aparelhos e sem movimentação dos dentes. Quem garante é a dentista Daniela Prócida Raggio, professora de odontopediatria da Faculdade de Odontologia da Universidade de São Paulo (USP). Aos dois anos de idade, quase todos os dentes de leite já estão na boca e, a partir daí, o estrago provocado pela chupeta é cada vez maior. “O problema vai aumentando exponencialmente”, ressalta a dentista. O impacto da sucção depende da frequência, da intensidade, do tempo de uso ao longo da vida e da predisposição genética para o surgimento de problemas de oclusão (contato dos dentes dos dois maxilares). Na somatória desses fatores, quanto mais frequente, intenso e prolongado o uso, maior o estrago e mais difícil a recuperação. As deformações como mordida aberta, mordida cruzada, projeção dos dentes para frente e musculatura flácida de lábios e língua podem desaparecer com o tempo, após fim do hábito. Mas casos mais graves exigem tratamento ortodôntico e fonoaudiológico para a correção e a eliminação das consequências. A chupeta pode prejudicar a aquisição da fala ao provocar alterações na articulação dos sons. Segundo a fonoaudióloga Flávia Neiva, a criança que chupa muito a chupeta tem comprometimento da musculatura oral e da movimentação da língua, e pode apresentar dificuldade para a produção motora de sons como S, Z e X (ch), que saem distorcidos, entre outras inabilidades. Com a chupeta o dia inteiro, a boca nunca está completamente fechada. O hábito de permanecer com o lábio aberto e a língua rebaixada altera a mastigação, a deglutição, o paladar e induz a troca da respiração nasal pela oral. “Na teoria pura, é melhor não usar chupeta, mas temos uma cultura onde a chupeta existe”, pondera a fonoaudióloga. Na impossibilidade de abolir a chupeta, ela reforça a ideia de disciplina: “A criança que usa o dia inteiro terá uma situação muito pior do que a que usa apenas para dormir, que por sua vez terá mais dificuldade do que aquela que só usa para pegar no sono”, resume.

Dedo x chupeta Na batalha dos hábitos, a chupeta é o “menos mau” “Entre o dedo e a chupeta, é a chupeta um milhão de vezes. Não tem nem o que discutir.” A afirmação do pediatra Evandro Roberto Baldacci mostra a necessidade de os pais enfrentarem essa guerra. “Precisa repetir muitas vezes para conseguir fazer essa troca, mas o recomendado é fazer isso”, diz. Unanimidade entre os profissionais, a substituição do dedo pela chupeta é tão importante quanto difícil. É necessário insistir muito com as crianças, porque, em geral, elas preferem o dedo. Além de ser muito mais difícil de disciplinar e de eliminar o hábito, o dedo não tem o formato anatômico e age com muito mais força, fazendo pressão e causando maior deformidade. Segundo a odontopediatra Daniela Prócida Raggio, os pais devem fazer um esforço para substituir o dedo pela chupeta quando o bebê ainda é bem pequeno: tirar o dedo da boca, colocar a mão para baixo e botar a chupeta. “É um trabalho cansativo, precisa ficar do lado da criança”, afirma. Mas, segundo os especialistas, vale a pena.

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