O encontro com as mães da UTI

O encontro com as mães da UTI

Atualizado: Quarta-feira, 18 Maio de 2011 as 10:57

Quinze anos depois, as médicas reencontram Victor, que nasceu com 700g e ajudou a criar métodos para cuidar de prematuros.   A primeira vez que as mãos da pediatra Filomena Bernardes de Mello tocaram os dedinhos de Victor dos Santos Gallo, ele pesava apenas 700 gramas, media menos do que 30 centímetros e acabara de nascer após uma gravidez de seis meses incompletos.

Naquele ano 1996, a criança era prematura demais para que a médica sentisse, com plena certeza, que o bebê tão pequenino sobreviveria. Quase quinze anos depois, as mãos de Filomena e Victor voltaram a se tocar.

O encontro, acompanhado pela reportagem, celebrou os “dribles” que o menino deu em todas as projeções pessimistas da medicina. “O quadro não era nada bom”, diz, com consciência de adulto, o hoje adolescente de 14 anos e 7 meses. Para Filó – como é chamada por todos na maternidade em que ainda trabalha – foi mais uma prova de que ter escolhido a função médica de tentar reproduzir o “útero” para meninos e meninas que nascem antes do tempo é mais do que um trabalho. “É uma missão”, diz ela.

A especialidade médica chamada neonatologia é aquela que cuida principalmente dos bebês prematuros ou que nascem com baixo peso severo – menor do que 1 quilo. Hoje, com a popularização das técnicas de fertilização in vitro e com o aumento da idade das mães, cresceram também as taxas de prematuridade das crianças.

Em 1996, ano em que Victor chegou ao mundo, os “apressadinhos” respondiam por 5,3% do total de partos, mostram os números do Ministério da Saúde. Uma década depois, passaram a representar 9% dos nascimentos em Estados como São Paulo, um crescimento de 27% no período.

Este aumento da demanda também veio acompanhado por mais tecnologia e pesquisas para tratar dos pequenos. Uma criança nascida após cinco meses de gestação hoje já não é mais uma raridade e as chances de sobrevida estão bem mais ampliadas.

Mas mesmo com todas as máquinas incubadoras de última geração – que ajudam a deixar quentinho o bebê, protegido e pronto para desenvolver-se fora da barriga da mãe – o papel do neonatologista é fundamental neste processo. É preciso monitorar cada batimento cardíaco, respiração, expressão facial, sono, choro. A intervenção precoce é o que garante a sobrevivência da criança prematura.

Nos oito meses que precisou ficar internado após o nascimento no dia 14 de setembro de 1996, Victor recebeu estes cuidados 24 horas por dia de uma equipe de neonatologistas majoritariamente feminina, coordenada pela Doutora Filó.

Todo ano, perto do Dia das Mães, o garoto volta ao Hospital e Maternidade Santa Joana de São Paulo para visitar as médicas que, acredita o menino, permitiram à sua mãe Diva Gallo comemorar de forma feliz o segundo domingo de maio.

Vitorioso

Diva tentava engravidar havia dez anos. Inúmeras tentativas frustradas foram colecionadas até que, aos 38 anos, veio a confirmação da gravidez. “Estava tudo certo, fazia o acompanhamento com o pré-natal, não havia orientação médica para deixar de fazer nada. Era a mulher mais feliz do mundo, mas como já tinha tido abortamentos antes, tinha receio de perder o meu bebê”, lembra Diva.

A gravidez era comemorada, mas quase não deu para ser curtida. “Foi tudo muito rápido”, lembra. Um dia Diva sentiu uma dor e certo incômodo, foi para o Hospital Santa Joana só para checar se estava tudo bem e ali foi informada que precisava fazer um parto de emergência. Não compreendia muito bem como iria parir sendo que não estava grávida nem há seis meses. Mas fez força, empurrou e teve parto normal de um menino. “Não sabia que o sexo era masculino e nem tinha escolhido um nome para ele.”

O bebê era tão pequenininho que não chorou. O silêncio era forte na sala de parto. A criança foi levada à UTI neonatal, com complicações pulmonares e cardíacas muito sérias. “Eram só 700 gramas que aquele garotinho pesava”, pensou Filomena enquanto, pela primeira vez, segurava na mão do menino.

Os médicos não deram prognósticos muito favoráveis. A sobrevivência não podia ser garantida. Mas uma enfermeira disse uma frase que marcou Diva e o marido e ajudou a definir a identidade do protagonista desta história.

“Como lutou para sobreviver este menino”, disse. Pronto. Nome escolhido. Ele era um vitorioso. Vai chamar Victor.

Experiência in loco

Ter alta da maternidade e sair sem o bebê nos braços marcou Diva. Naquele momento tão difícil ela já havia criado laços de afetividade bem fortes com toda a equipe cor-de-rosa do Santa Joana. Com Filó, o carinho também era crescente e a mãe do Victor ficava até mais segura “e menos culpada” de passar algumas horas longe do hospital quando era ela que estava de plantão.

Victor foi o menor prematuro que nasceu naquele ano no Santa Joana. As roupas e os sapatinhos ficavam folgados nele, por menor que fossem. E as médicas, sem esconder da mãe, sabiam que ele seria uma fonte de aprendizado inesgotável. Iria ensinar o que, até aquele momento, elas não sabiam.

O afeto que a equipe toda demonstra até hoje pelo menino também é justificado por ele ter sido uma espécie de “professor”. “O Victor teve todas as viroses possíveis e imagináveis, complicava o quadro sempre, usou toda a munição médica que tínhamos na época. Ele nos ensinou muito”, diz Filomena cheia de emoção.

Um bom remédio

Não foi apenas referência de procedimento clínico que o menino Victor “ensinou” àquela equipe. O conceito de humanização, ainda mais dentro da UTI, não era forte há 15 anos. As mães quase não podiam tocar as crianças, as visitas eram com prazo e hora marcada. Ficar perto do leito junto ao filho era um privilégio que parecia durar apenas alguns segundos para a maioria delas.

“Mas já naquela época começamos a perceber que as mães mais carinhosas, aquelas que conversavam por entre o vidro da incubadora com os seus bebês, as mais participativas dos tratamentos eram também as que conseguiam mais altas hospitalares e melhor sucesso com suas crianças”, conta Filó.

Diva foi uma das que ajudou a médica Filomena a chegar as estas conclusões. Victor, de certa forma, auxiliou o hospital a reconhecer a importância do tratamento mais humano, com mais contato entre mãe e filho, aos moldes da estrutura que existe hoje.

As primeiras palavras

Oito meses de internação hospitalar foram completados e Diva pôde então levar o seu pequeno, agora com 3 quilos, para a casa. “O marco da vida do prematuro é diferente dos bebês que passam por uma gestação completa”, explica Filó.

“Aqui no hospital tentamos reproduzir o que o útero materno faria. Mas esta antecipação do nascimento também traz um tempo diferenciado para as primeiras palavras, os primeiros passos e em alguns casos até de aprendizagem”, explica a neonatologista.

Victor surpreendeu nisso também. “Mamãe” foi a primeira palavra dita aos 2 anos, logo em seguida dele começar a andar sozinho. Aos 6 anos, ele foi para a escola, no ensino tradicional, e apesar de ser bem pequenino e não caber na carteira, sempre acompanhou a classe.

Foram algumas internações por problemas respiratórios e visitas frequentes ao médico, bem mais do que seus colegas de classe. Aos 8 anos, entratanto, Victor já passou a acompanhar a curva de crescimento e de peso dos outros meninos.

Todo este processo foi acompanhado pela médica Filomena, atualizada sempre que o garoto retornava ao Santa Joana ou para celebrar junto com a equipe o Dia das Mães ou o seu aniversário. “A primeira vez que eu ouvi o Victor falar ele, enrolou a língua, e disse que queria ir ao mercado comprar bala. Nunca esqueci as palavras e fiquei bem emocionada”, lembra Filó. Neste último encontro, a frase dita pelo garoto também balançou a médica. Em português bem claro, Victor contou que já deu o primeiro beijo (na boca) em uma menina mais alta do que ele, mas não é “namoro não”.

Esperança

O caso de Victor é emblemático para mostrar como Filó conduz a sua carreira que completa 27 anos em 2011. O garotinho, hoje forte e cheio de saúde, divide espaço não só no coração da equipe neonatal do Santa Joana mas também no livro onde estão as fotos do mais de 3 mil bebês que já passaram pelos cuidados das médicas e dos médicos de lá.

“Não esquece de falar do Dr. Franco, meu pediatra até hoje, porque eu adoro ele demais”, falou Victor à reportagem.

Em todas estas histórias registradas no livro do Santa Joana, Filó algumas vezes teve certeza da alta e da recuperação dos bebês. Em outras duvidou que isto seria possível (no ano passado uma menina nascida com 450 gramas foi para casa). Mas é também por ser mãe que ela sempre soube como lidar com estas perspectivas. "Existe algo que nenhum médico pode tirar do paciente que é a esperança", diz Filó. "Ser mãe de prematuro é vibrar por cada dia que a criança sobrevive na UTI. Ser médica de prematuro é também fazer isso”, contou.

Para quem dúvida, basta passar um dia ao lado de Victor, talvez futuro jogador de futebol de salão, que adora as garotas altas, deixando Diva e todas as “mães” da maternidade com um ciúme danado!    

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