O valor das brincadeiras em todas as idades

O valor das brincadeiras em todas as idades

Atualizado: Quinta-feira, 24 Novembro de 2011 as 11:50

Boa parte das brincadeiras infantis são um ensaio para a vida adulta. Criança brinca de ser mãe, pai, cozinheiro, motorista, polícia, ladrão (e isso, você sabe, não implica nenhum tipo de propensão ao crime). E, ah, quando não há ninguém por perto, brinca de médico também. É uma forma de viver todas as vidas possíveis antes de fazer uma escolha ou descoberta. Talvez seja por isso que a gente pare de brincar aos poucos - como se tudo isso perdesse o sentido quando viramos adultos de verdade. E tudo agora é para valer. Mas será que parar de brincar é, de fato, uma decisão madura?

Atividades de recreação e lazer estimulam o imaginário e a criatividade, facilitam a socialização e nos ajudam a combater o estresse. Mas, se tudo isso for o objetivo, perde a graça, deixa de ser brincadeira. Vira mais uma atividade produtiva a cumprir na agenda. Você só brinca de verdade (ainda que de mentirinha) pelo prazer de brincar. E só. Como escreveu Rubem Alves, quem brinca não quer chegar a lugar nenhum - já chegou.

Jogo da vida Na verdade, a gente nunca para de brincar completamente. O humor, por exemplo, é herdeiro em primeiro grau da brincadeira. Outra forma corrente de brincar na vida adulta é no contato com crianças, com a justificativa de estimulá-las e entretê-las. São os adultos que repassam antigas brincadeiras adiante, como a amarelinha. Se não houver gente grande empenhada em preservar o patrimônio lúdico, ele vai se extinguir. Quem tem filhos, sobrinhos ou primos pequenos sabe o quanto isso pode ser divertido, ainda que se perca de propósito.

O poeta gaúcho Mário Quintana escreveu certa vez que nunca se deve tirar um brinquedo de uma criança - tenha ela 8 ou 80 anos. Nunca se é velho demais para jogar dominó, ludo, gamão. A fabricante Grow estima que cerca de 20% dos usuários desses jogos sejam adultos. Isso sem mencionar os jogos do tipo quiz, de cultura geral - ou "inútil", veja que apropriado. Há outras formas de brincar na vida adulta - mas são estas, as que reproduzem momentos vividos na infância, as mais puras de objetivo. Brincadeiras que se bastam em si.

Um ditado inglês diz que a única diferença entre homens e meninos é o preço de seus brinquedos. Hoje, o consumo é uma forma de lazer largamente experimentada em todas as idades. E mesmo que um carro (de verdade) proporcione algum contato entre imaginário e matéria, característica fundamental da brincadeira, esse bem-estar pode ser comprometido por uma série de implicações associadas ao consumo - a competição social por status, a afirmação de uma autoestima fragilizada e a negação do envelhecimento.

Para a psicopedagoga Tânia Ramos Fortuna, coordenadora do projeto "Quem Quer Brincar?", da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, o que causa mais cansaço e estresse no mundo dos adultos não é o excesso de trabalho, mas a falta de diversão. Ela cita o poeta Álvaro Moreyra: "Infância, juventude e velhice são aparências do corpo: a alma faz coleção". O adulto que você é hoje pode ter muito mais de condicionamento social que de amadurecimento pessoal - pense sobre isso.

A brincadeira é, antes de tudo, uma forma de relação com o mundo. Brincando, o bebê aprende o que é o seu corpo - e o que é o do outro ou o que é coisa. "Só depois dos 4 ou 5 meses a criança compreende que ela não é também a fraldinha, a grade do berço, a mamãe",

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