Oito maiores desafios da família do século 21

Oito maiores desafios da família do século 21

Atualizado: Quinta-feira, 8 Julho de 2010 as 10:06

A formatação da família dos últimos tempos mudou significativamente e, junto com as transformações, também aumentaram os desafios para manter uma boa relação entre os familiares. Sem falar nos obstáculos que a vida contemporânea trouxe ao cenário doméstico - longas jornadas de trabalho, por exemplo. Aprenda a seguir quais as soluções de vários especialistas para você ter harmonia e felicidade em sua casa.

Tolerar as diferenças

Para Mirian Goldenberg, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro e escritora, o retrato familiar que se desenha hoje se baseia na qualidade das relações. ''Há mais investimento em afeto, tempo e atenção. A divisão doméstica de tarefas decorre de uma negociação permanente'', define. Justamente por isso, o que manterá essa nova família unida é o empenho de todos os envolvidos. ''Será preciso respeitar a individualidade de cada um e estimular o diálogo e a reciprocidade. Significa aceitar que nem todos os conflitos serão resolvidos e que temos que aprender a conviver com as diferenças'', afirma Mirian.

Superar o fim do amor

Preservar o casamento e por tabela a união familiar não é fácil. Para o filósofo francês Luc Ferry, autor de Famílias, Amo Vocês (Ed. Objetiva), a causa dessa dificuldade está justamente no amor e no que ele chama de seus ''efeitos perversos''. ''Vivemos, pelo menos nas sociedades democráticas, em famílias fundadas sobre o princípio do casamento por amor - não mais do casamento pela razão. Isso é um progresso, mas todo progresso tem seu preço: se baseamos o casamento, e com ele a união familiar, no afeto, como evitar o divórcio e a desunião quando os sentimentos se transformam em indiferença ou ódio? É esse o problema da família moderna em oposição aos tempos antigos, quando o casamento não estava ligado ao amor e as pessoas não se divorciavam'', acredita Ferry. A saída que ele enxerga é muita ponderação antes de tomar decisões. ''É preciso que tenhamos sabedoria para escolher se permanecemos com os nossos ou recomeçamos a aventura de um novo amor. Seja qual for a decisão, ela não traz de volta o amor original. Uma vez que a gente consiga de fato assumir a opção feita, então todos nós ganhamos muito - mas nem sempre é fácil'', admite.

Ensinar o respeito

Na maioria das famílias, a palavra solidariedade está abandonada. ''Vivemos numa sociedade individualista. Cada um só pensa no seu prazer, no seu interesse e na sua liberdade'', constata a pedagoga e mestre em educação Tânia Zagury, autora de diversos livros. A solução, segundo ela, não é simples e exige uma nova postura por parte da família. ''É preciso educar o filho para pensar no outro também. Mas para repensar valores é necessária a convivência: fazer uma refeição em família, assistir televisão juntos ou sentar para bater um papo para ver que conceitos a criança está adquirindo. Se os pais não criam um espaço de diálogo, amanhã não saberão nada do filho'', assegura ela.

Combater a violência

A senadora Patrícia Saboya (PDT-CE), coordenadora da Frente Parlamentar em Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente, considera um desafio educar num mundo tão violento como este. ''Vejo um grande avanço tecnológico acompanhado de um retrocesso nas relações pessoais. A violência está voltando à idade da pedra. Não basta matar: tortura-se.'' Para ela, o combate à violência começa em casa, com um diálogo franco entre pais e filhos - e muito limite. Dar limites é fundamental. A juventude está meio solta, ficando cada vez mais agressiva e cada vez mais cedo.'' Obviamente, também existe uma grande lacuna a ser preenchida pelo poder público: ''A violência existe porque existem tráfico, pobreza, exploração do trabalho infantil e, sobretudo, desigualdade. A escola pública não oferece perspectiva de futuro''. Patrícia acredita que a solução está na democratização da educação de qualidade, no acesso à cultura, à informática e ao lazer. ''Se todos tiverem acesso a oportunidades, ou seja, a tudo que é capaz de transformar a vida de uma pessoa, viveremos num mundo menos violento.''

Conviver com qualidade

Para quem trabalha fora, o dia deveria ter umas horinhas - está combinado, várias! - sobressalentes. As longas jornadas encolheram o tempo de convívio entre pais e filhos. Os pequenos, por sua vez, também estão com as agendas lotadas de atividades extracurriculares. ''A casa das famílias de classe média virou centro de entretenimento: tem videogames, muitos canais de televisão e jogos no computador. A tendência é as pessoas se sobrecarregarem de tarefas ou de interesses individuais, de forma que na maior parte dos lares existem ‘ilhas’ de pessoas, cada uma no seu canto. Um dos desafios principais é a criação de tempo de convívio de boa qualidade'', afirma a psicóloga e mestre em psicologia clínica Maria Tereza Maldonado, autora de 30 livros, entre eles Cá entre Nós: na Intimidade das Famílias (Ed. Integrare). Como equacionar na prática essa convivência? Cabe a cada família achar o próprio modelo: ''Algumas, por exemplo, marcam dia e hora para uma conversa sobre a semana. E todos os membros se comprometem a estar presentes ao encontro''.

Cuidar do dinheiro

Famílias autônomas do século 21 terão, claro, que se haver com a questão financeira. ''Precisarão tornar-se eficientes no uso do dinheiro e conquistar a independência'', acredita a consultora financeira Eliana Bussinger, autora dos livros As Leis do Dinheiro para Mulheres e A Dieta do Bolso (ambos Ed. Campus). ''Significa não depender do governo nem dos filhos, especialmente na terceira idade.'' Será preciso também educar as crianças para lidar sensatamente com dinheiro, orientação essencial diante das mudanças supersônicas que afetam o mercado de trabalho. ''A longevidade não para de crescer e os empregos como conhecemos estão mudando. Portanto, a forma de ganhar dinheiro também. A tendência é cada um trabalhar por conta própria.'' Apesar de todas essas evidências, esse saber ainda não está sendo ensinado nas escolas. ''Desenvolver a inteligência financeira dos filhos é responsabilidade dos pais neste momento. Para isso, seria interessante educar as mães financeiramente porque são multiplicadoras do conhecimento em casa.'' A orientação financeira deve obedecer à faixa etária da criança. Dar mesada é um bom começo. ''Os pais devem ensinar que o dinheiro precisa ser usado com cuidado e que não se pode ter tudo o que a gente quer. E mais: dinheiro gasto não volta. Torrou, acabou.''

Comer melhor

A alimentação inadequada, aliada ao sedentarismo, é uma das causas da obesidade infantil, problema que já atinge 23% dos alunos de escolas públicas, segundo pesquisa do nutrólogo Mauro Fisberg, da Universidade Federal de São Paulo. Isso pode transformar a próxima geração em campeã de problemas cardiovasculares. Para o pediatra carioca Jayme Vaisman, por mais ocupados que os pais sejam, não podem descuidar do que seus filhos comem. ''Na ansiedade de nutrir a criança, muitas famílias substituem o alimento saudável por um de fácil aceitação, oferecendo, por exemplo, macarrão instantâneo e fritura todo dia. Isso estabelece um parâmetro alimentar ruim.'' A má nutrição se agrava na idade escolar graças a lanches com alto teor calórico, cheios de gorduras saturadas, como batatas fritas. Vaisman lembra que os pais precisam dar o exemplo alimentando-se corretamente nas refeições e nos lanches - o que será ótimo para todos.

Preservar o planeta

Motivadas principalmente pelas escolas, muitas crianças já estão educando os pais nos princípios da sustentabilidade. Mesmo assim, há muito a fazer, começando por mudar hábitos dentro de casa. Não se trata simplesmente de fechar a torneira enquanto escova os dentes ou de reciclar o lixo: as mudanças devem ser mais profundas. ''A família deve exercer um novo pensamento em relação ao consumo: ‘Precisamos comprar esse produto? Como vamos descartá-lo depois?’ '', propõe Heloisa Mello, gerente de operações do Instituto Akatu, que prega o consumo consciente. Ela lembra que muitos pais, talvez num mecanismo para compensar ausências prolongadas, cobrem os filhos de presentes. ''Por que não sugerir um lazer juntos ao ar livre em vez de compras no shopping?'' A chave: investir mais nas relações humanas do que no consumo.

Por: Sibelle Pedral

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