Os riscos em se trabalhar de madrugada

Os riscos em se trabalhar de madrugada

Atualizado: Terça-feira, 14 Junho de 2011 as 11:24

MILHARES DE TRABALHADORES  LUTAM CONTRA SEU CICLO CIRCADIANO TODOS OS DIAS, COLOCANDO A SI E A OUTROS EM PERIGO. PSICÓLOGOS ESTÃO BUSCANDO SOLUÇÕES.

Quase 15 milhões de pessoas trabalham de forma permanente à noite ou em turnos, de acordo com o Departamento Americano de Estatísticas do Trabalhador. Isso significa que uma grande parte da força de trabalho está exposta aos perigos do trabalho noturno, que incluem agitação, sonolência, fadiga, diminuição da atenção e perturbação do processo metabólico do organismo.

Esses efeitos afetam toda a sociedade, uma vez que esses trabalhadores estão nas estradas, nas salas de emergência dos hospitais e até são responsáveis pela segurança nacional.

Psicólogos atualmente buscam entender melhor exatamente como trabalhar de madrugada ou em turno afeta o desempenho cognitivo e quais intervenções e ações poderiam garantir a segurança desses trabalhadores e da sociedade.

“Basicamente o cansaço diminui a segurança”, diz Bryan Vila, especialista em sono e justiça criminal, da Universidade de Washington. “Aprender sobre as práticas saudáveis ??de sono é tão importante quanto a formação profissional”.

Quebra do ritmo natural

Segundo a psicóloga fisiológica Charmane Eastman, da Universidade de Chicago, ficar acordado durante a noite toda vai contra o ritmo circadiano natural do corpo. O ciclo circadiano é o período de aproximadamente um dia (24 horas) responsável por regular o ciclo biológico do corpo humano e de qualquer outro ser vivo, influenciado pela luz solar. Ele regula também muito dos ritmos psicológicos do nosso corpo, com influência sobre, por exemplo, a digestão ou o estado de vigília, passando pelo crescimento e pela renovação das células, assim como a subida ou descida da temperatura do corpo.

Por este motivo, nosso corpo e cérebro relaxam e se acalmam com o anoitecer e voltam em ação pela manhã. Pessoas que trabalham durante a noite toda são forçadas a lutar contra esse ritmo natural enquanto tentam permanecer alertas e funcionais durante o período em que deveriam estar descansando. “Não importa se essas pessoas dormem o suficiente durante o dia. Nem que dormissem do momento que chegassem à hora de ir trabalhar, isso não compensaria o desalinhamento circadiano”. E isso é muito perigoso para aqueles cujo trabalho requer estado de alerta constante.

Trabalhar contra o relógio biológico pode causar diversos distúrbios do sono, como a fadiga. “Ela, por sua vez, piora o humor, diminui a capacidade cognitiva e os reflexos e torna as pessoas mais vulneráveis ??a doenças”, diz o psicólogo organizacional John Violanti. O mau humor e a distorção de perspectiva podem interferir na habilidade de tomada de decisões e na gestão de pessoas, além de aumentar a frequência de pequenas discussões.

“Isso é ruim principalmente para policiais que estão constantemente sob pressão e em situações de alto risco, em que devem tomar decisões sobre quando usar ou não força letal”, diz Vila, que fez parte da polícia de Nova York durante 23 anos. “Quando você está sonolento, algumas peças do cérebro se desligam durante milissegundos ou segundos de cada vez para então voltar a funcionar”, explica.

O trabalho noturno e a fadiga também aumentam o risco de doenças cardíacas e câncer, de acordo com uma pesquisa desenvolvida por Violanti e Vila. O foco do estudo, que envolveu 98 agentes da polícia de Buffalo, NY, foi a doença metabólica – uma combinação de sintomas que piora a saúde do coração e diabetes, aumenta a concentração de gordura na região da cintura e eleva os níveis de triglicérides, colesterol, pressão arterial e de glicose, quando os profissionais ficam sem comer durante muito tempo. Os resultados apontam que oficiais que trabalham frequentemente no turno das 20 horas às 4 horas tinham maior prevalência dos sintomas da síndrome. Estes e aqueles que dormiam em média seis horas por dia tinham mais chances de apresentar a síndrome metabólica.

Além dos policiais, outros profissionais também lutam contra o ciclo circadiano. Vários estudos apontam que o cansaço, devido à jornada de trabalho prolongada ou de turno noturno, pode resultar em lapsos de julgamento e coordenação motora entre os trabalhadores de saúde. Por exemplo, um artigo de 2008 no periódico American Journal of Surgery relata que cirurgiões descansados eram significantemente mais suaves nos movimentos de suas mãos e cometiam menos erros do que seus colegas que não haviam dormido direito. Outro estudo mostra que internos que realizam turnos que duram mais de 24 horas têm o dobro de chances de sofrer um acidente de carro.

Na realidade, qualquer profissional que dirige cansado – seja a trabalho ou voltando para casa depois de um turno – corre riscos. Em 2004, o Instituto Americano de Segurança e Saúde Ocupacional divulgou que os acidentes de carro são a principal causa de mortes relacionadas ao trabalho entre 1992 e 2001. Em 7% desses casos, sonolência ou cochilo durante a condução foi citado como fator principal do acidente. Outro fator chama a atenção: o excesso de velocidade. Mas outros fatores, como desatenção do motorista e invasão de pista contrária, também podem ser influenciados pelo cansaço.

Outro estudo de 2004 aponta que pessoas que trabalham por até 12 horas no período noturno estão mais sujeitas ao fumo e ao uso abusivo de bebidas alcoólicas.

Possíveis soluções

Como é impossível extinguir o turno noturno, a questão é como melhorar a qualidade de vida desses trabalhadores.

Segundo Charmane, existem duas respostas. Uma solução seria por meio do alívio sintomático, ou seja, usar estimulantes como o café e pílulas de cafeína para forçar o organismo a ficar acordado durante a noite e tomar sedativos para dormir na parte da manhã. A outra forma – tema de uma pesquisa liderada pela psicóloga – seria adaptar completamente o relógio circadiano do organismo. “Porém, é muito difícil”.

Pesquisas anteriores já haviam estabelecido que é possível atrasar o relógio circadiano por cerca de uma ou duas horas por dia. Para isso, pesquisadores aferem o ritmo circadiano do corpo pelo monitoramento do “aparecimento da melatonina à luz ofuscante”, ou o momento em que a glândula pineal começa a secretar melatonina, que é acionado pelo relógio circadiano. Normalmente, ele entra em cena duas horas antes de estarmos prontos para dormir. “É uma maneira de ver o que o relógio circadiano está fazendo”, explica Eastman.

Segundo a pesquisa, se as pessoas – após horas de trabalho noturno sob luz intermitente – usarem óculos escuros na volta para casa e dormirem em quartos muito escuros, é possível alinhar perfeitamente o ritmo circadiano com o turno da noite em aproximadamente uma semana. “O problema é que a adaptação fisiológica iria fazer que esta pessoa literalmente troque o dia pela noite, tornando-a incapaz de dormir até mais tarde nos dias de folga e de se relacionar com pessoas que trabalham durante o dia”.

Então, Eastman e sua equipe desenvolveram um sistema em que pessoas que trabalham de forma permanente das 23 horas às 7 horas possam adaptar seus ritmos circadianos apenas o suficiente para funcionar bem durante a noite, mas sem prejudicá-los em seus dias de folga. Funciona assim: no seu dia de folga, o trabalhador vai dormir o mais tarde possível (no experimento, os participantes foram para a cama às 3 horas e acordaram meio-dia).

Em um dia de trabalho comum, ele deverá fazer como no primeiro experimento – voltar para casa de óculos escuros e dormir em quarto completamente escuro o mais cedo possível. “Assim, a diferença entre o sono em seus dias de turno e seus dias de folga seria bem menor do que a que a maioria dos trabalhadores tem hoje”.

No entanto, esta solução só é eficaz para aqueles com turno noturno fixo. Segundo a pesquisadora, cabe às empresas planejar turnos em blocos, com duração suficiente para que o corpo do trabalhador possa se adaptar e readaptar, conforme a necessidade.

“O relógio circadiano não pode se mover tão rápido”, explica. “A única coisa possível nesses casos é o alívio sintomático, porém, você teria pessoas trabalhando com muito sono durante a noite, o que é perigoso”, finaliza.

Créditos: este material aparece originalmente em inglês como The risks of night work. Copyright © 2010 da American Psychological Association (APA). Traduzido e reproduzido com permissão. A APA não é responsável pela exatidão desta tradução. Esta tradução não pode ser reproduzida ou, ainda, distribuída sem permissão prévia por escrito da APA.

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