Para quatro jovens, fazer um curso superior virou motivo de comoção social e prova de fé

Para quatro jovens, fazer um curso superior virou motivo de comoção social e prova de fé

Atualizado: Sexta-feira, 18 Dezembro de 2009 as 12

Cursar uma faculdade pode ser um sonho possível para muitos jovens. Talvez, para um ou outro, nem sonho seja, dadas as viabilidades. Pois para um grupo de jovens da Serra Catarinense, além de sonho difícil de se alcançar, fazer o curso superior virou motivo de comoção social e grande prova de fé.

Joanita, Fernando, Márcia e Joel atuavam como professores da rede pública de Santa Catarina, no município de Rancho Queimado. Os quatro freqüentam a Igreja Adventista de Bom Retiro e, como irmãos, compartilhavam o desejo de cursar faculdade, a fim de se aperfeiçoar. Viam seus alunos prosseguindo os estudos, avançando para o curso superior e sentiam-se ficando "para trás", sem futuro. Falta de vontade? Não mesmo. Morando a 100 km da faculdade mais próxima e trabalhando o dia todo, um curso noturno estava muito além da possibilidade deles.

Vizinhos e colegas de trabalho não ajudavam a diminuir a angústia que já era quase insuportável. Questionavam os motivos deles, a fé, tudo. Alguns cursos de graduação a distância até apareciam, mas se concentravam às sexta-feiras à noite e aos sábados pela manhã. Impossível - pelo menos se quisessem continuar respeitando os mandamentos de Deus. Oportunidade para transgredir, não faltava. Sem falar na pressão que o governo fazia para que os professores atuantes - eles, no caso - concluíssem o ensino superior.

Certo dia, a Universidade Estadual de Santa Catarina (Udesc) abriu um curso de graduação em Pedagogia à distância para os professores da rede pública. Seria a solução? Fácil, assim? Não era bem isso. Os alunos se reuniriam em salas especiais, com monitores, e uma vez por semana fariam os trabalhos e assistiriam às aulas. A cada mês um professor da universidade iria até os locais do curso para orientar a turma. Parecia que tudo se encaminhava. Os quatro jovens fizeram matrícula e se prepararam para a aula inaugural, que reuniria os 260 alunos do curso, em Florianópolis. Só que... a aula cairia num sábado.

A tristeza tomou conta até dos que não tinham nada a ver com a história. Foi comoção geral e, apesar de alguns sugerirem o fácil caminho da desobediência a Deus, humildemente os quatro professores se submeteram à vontade do Pai. Choraram muito, mas ficaram firmes. Corriam o risco de não poder fazer o curso, mais uma vez, por causa do sábado e da prestigiada aula inaugural. Desistir agora? De jeito nenhum!

As preces foram redobradas. Depois, marcaram um encontro com a secretária de Educação do município, responsável pela parceria com a Udesc. O bom testemunho do quarteto de mestres, somado à boa reputação da Igreja Adventista na região, colaboraram, certamente. Ela ficou de ajudar, de alguma forma, e conversar com o reitor. O jeito era orar mais ainda. Será que Deus agiria nesse caso? Mais: será que perceberiam a direção do Pai?

Na semana seguinte, as aulas foram transferidas de sábado para as quintas-feiras. Primeira resposta. A segunda viria em seguida. Na data marcada para irem até a Capital e acertar o cronograma de aulas e provas, descobriram que isso tudo também estava marcado para o sábado. E agora? Essa batalha estava cansando... Bom, conversar com o reitor? Mas de novo? Também existia o receio de passar uma imagem negativa da Igreja, da Lei de Deus e tudo o mais que esses pedidos envolvem. Mas "sê fiel até a morte e dar-te-ei a coroa da vida", era um verso que animava.

Lá foram os quatro conversar com o reitor, explicar a situação e pedir a atuação dele no caso. O sonho de fazer a faculdade era acalentado havia tanto tempo... Será que ninguém ajudaria? Sim. O reitor os deixou despreocupados e foram para a sala onde receberiam as orientações. A fala do reitor na aula inaugural deixou os quatro boquiabertos.

- Senhoras e senhores do curso de Pedagogia, sejam bem-vindos à Universidade do Estado de Santa Catarina. [E depois de algumas explicações...] Como o curso é a distância, todos os alunos devem estar presentes às reuniões mensais com os professores, com exceção de quatro jovens adventistas, que estão matriculados e consideram estudar aos sábados trabalho laborioso, e, portanto, estão dispensados de todas as aulas aos sábados, durante os quatro anos de curso, sem prejuízo algum e se formando com a turma completa.

Sentados em seus lugares, os quatro não moviam um músculo sequer e era como se a respiração teimasse em não sair. Deus "gritou" em seus ouvidos. E o resultado não poderia deixar de ser contado. Com aulas e provas em dias diferenciados, eles se formaram no fim de 2003. A formatura chegou a ser alterada de sexta-feira à noite para o sábado à noite, a fim de não atrapalhar a observância do sábado pelos "alunos adventistas".

A provação não foi fácil, mas a recompensa divina não tardou e o testemunho foi forte. E ainda tinha mais. No fim do curso, uma universidade procurou o grupo de formandos para propor pós-graduação na área. O curso seria às sextas-feiras à noite e aos sábados pela manhã. Mas os quatro adventistas não se preocupavam mais com isso. Os próprios colegas sugeriram que as aulas fossem aos domingos, e a universidade aceitou. Agora, graduados e pós-graduados, os jovens da Igreja de Bom Retiro dão testemunho da validade de sua fé.

Vale a pena confiar em Deus. Ele é justo e fiel.

Rodrigo e Fabiana Bertotti trabalham na Associação Sul-Paranaense da IASD

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