Pesquisa revela que trabalhar fora não prejudica os filhos

Pesquisa revela que trabalhar fora não prejudica os filhos

Atualizado: Segunda-feira, 10 Outubro de 2011 as 8:30

O dilema das mães da modernidade: a necessidade de trabalhar e a culpa por não estar presente na vida dos pequenos no dia a dia. Porém, uma pesquisa realizada pela Universidade Columbia, de Nova Iorque (Estados Unidos), entre 2002 e 2009, aponta que essas mães não devem se sentir culpadas. O estudo ouviu mais de mil crianças e constatou que, ao contrário do que as mães pensavam, o fato delas trabalharem fora não prejudica o desenvolvimento emocional dos filhos ou a sua capacidade de aprendizado no futuro. A qualidade que as mães dispensam aos filhos quando eles estão juntos e outros quesitos como harmonia, carinho, acesso a educação e a uma vida estabilizada financeiramente é o que conta.

Se por um lado essa pesquisa veio dar um bálsamo no quesito culpa, por outro, mãe é mãe, e elas sempre se sentirão divididas, ainda mais no nosso País, onde 76% das mulheres trabalham fora e 43% delas são chefes de família, conforme dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Veja a seguir o relato de duas mães, que exemplificam bem o sentimento de milhões de brasileiras:

“Se soubermos dosar, no final dá tudo certo”

A jornalista Ivonete Abreu – mãe de Thamires, de 8 anos, e Cauê, de 4 – diz que sentiu como se lhe tirassem algo quando teve de deixar a filha, na época com apenas 3 meses e 10 dias, na escolinha, para que pudesse voltar a trabalhar. “A médica me liberou 20 dias antes do nascimento dela, consequentemente, tive de voltar 10 dias mais cedo do que o habitual, que são 4 meses. Foi terrível, lembro-me como se fosse hoje, entreguei  minha filha, com menos de 4 meses, nos braços de uma ‘desconhecida’. Foi uma sensação de vazio, era como se tirassem algo de dentro do meu coração, um pedaço de mim”, conta.

Ivonete lembra que chorou muito, mas que, com o tempo, foi se acalmando: “Com o passar dos dias e a comprovação de que minha filha estava sendo mesmo bem tratada, fui me acalmando, até ela crescer, começar a se expressar e dizer o quanto ‘curtia’ estar na escolinha. Pronto, a dor cessou, mas até isso acontecer, chorei muito. Só que algumas coisas eu quase não tive o privilégio de participar, como vê-la dar os primeiros passos, o que aconteceu na escola.”

Com o segundo filho, a jornalista já não sofreu tanto. “Tive a oportunidade de ficar em casa com ele até os 9 meses. Ele já se alimentava, sentava e engatinhava. Mesmo assim, ao voltar a trabalhar, foi aquele choro, mas não tanto quanto da primeira filha. Já era familiar para mim a escola, a confiança já havia, então, tudo foi mais fácil. Mesmo assim, quando eles adoeciam – com qualquer gripe ou coisinhas comuns de crianças –, batia uma dor na alma, principalmente por ter de levá-los, muitas vezes, com febre pra escola, já que não tinha outra opção. Outras vezes, receber um telefonema da escola para ir buscá-los porque estavam com febre, também me fazia sentir essa culpa. Em outro momento, quando o meu filho caiu na escola e teve que levar dois pontos no canto da boca, a sensação era de que se eu tivesse com ele, isso não teria acontecido”

Ela afirma que muitas vezes ainda se sente culpada, mas, apesar da saudade, está mais sossegada. “Se soubermos dosar o amor, a educação e o trabalho, no final dá tudo certo. O que me dá alívio é saber que posso educá-los com mais qualidade, numa escola particular. Vale a pena o sacrifício. Para quem é mãe e profissional, como eu, o conselho é que, se tiverem a oportunidade de manter o jogo de cintura, fazendo as duas coisas, que o façam: nem abandonar totalmente a vida profissional, nem delegar totalmente aos outros aresponsabilidade de educar, cuidar e amar os filhos. Se tiver que deixar numa escolinha, procure obter o maior número de referências possível, mas, acima de tudo, confie e entregue nas nãos de Deus. Hoje, eles estão super bem, saudáveis, alegres, amorosos e muito arteiros”.

Deixou os filhos para trabalhar de babá

Por circunstâncias da vida e depois de um tempo desempregada, com dois filhos para criar – Gabriel, hoje com 13 anos, e Rodrigo, com 21 –, Ivana Reis, de 40 anos, arrumou um emprego de babá em um condomínio de luxo da capital paulista. Deixou os próprios filhos para cuidar dos de outra pessoa. “Deixei para a minha mãe cuidar dos meus dois filhos, na época com 6 e 12 anos. No começo foi bem doloroso, senti que estava perdendo a infância de um e, o começo da adolescência do outro. Mas precisava muito do emprego. Precisava sustentá-los. Desde o nascimento do segundo, sou separada, o que redobrava minha tarefa de mãe. Seria muito difícil arranjar outro emprego que não fosse esse, mesmo ficando longe das crianças”, relata Ivana.

A babá conta que a avó dos meninos dava todo o suporte que eles precisavam: “Eu folgava a cada 15 dias. Foi uma conciliação difícil, ficar tanto tempo sem ver os meus filhos. Minha mãe foi fundamental nessa história, mas eu estava sempre ligando, falando com eles, e quando nos encontrávamos era só alegria. Consegui educá-los à distância e desde o início sempre deixei claro que a minha ausência não era porque eu queria, mas por uma necessidade. Aproveitávamos cada segundo juntos íamos ao shopping, passeávamos e eu ajudava nas lições de casa. Isso fortaleceu a nossa união.”

Ivana acredita que os filhos passaram bem pela situação: “Claro que senti muito remorso por estar longe deles, mas eles não têm nenhum trauma por eu ter ficado longe. Acho que a mãe sofre mais do que o filho. Continuo como babá, só que agora folgo mais vezes, pois troquei de emprego. Hoje, acompanho mais a adolescência do segundo filho. Digo para mim mesma, quando surge a culpa, que foi melhor assim. Se hoje eles têm uma boa educação e uma vida estável foi por conta do sacrifício que tive que fazer.”

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