Placenta é tudo!

Placenta é tudo!

Atualizado: Quarta-feira, 29 Dezembro de 2010 as 12:58

Tom Cruise causou um escândalo quando declarou que pretendia comer a placenta de sua mulher logo após o parto de sua filha. Mas a verdade é que esse ato não é tão incomum assim. Há quem concorde e quem discorde, claro. O que ninguém discute é a importância desse órgão tão especial que nutre a vida durante os nove meses da gestação. Fora do mundo das celebridades, a designer carioca Gilda Midani provoca rebuliço quando conta suas experiências pós-parto. É que ela comeu parte de sua placenta quando nasceu seu primeiro filho, João Vicente, hoje com 23 anos, e fez o mesmo quando deu à luz a Ana, de 15. A idéia pode parecer estranha, mas a placentofagia (ato de comer a placenta depois do parto) é algo extremamente comum entre as fêmeas do mundo animal (vegetarianas ou não) e também é uma tradição que sobrevive entre algumas mulheres de diferentes países pelo mundo.

A explicação para isso é simples: acreditase que a placenta tenha algumas substâncias, como opióides naturais, que poderiam dar uma sensação de bem-estar pós-parto e estimular a produção de leite. No entanto, a maior parte dos médicos afirma que é pouco provável que essa sensação seja melhor do que comer um bom filé de carne bovina, uma vez que a maioria das substâncias seriam destruídas no preparo ou na digestão da placenta como alimento.

Independente de comer ou não, a placenta tem uma estrutura maravilhosa, desenvolvida ao longo da evolução das espécies para prover uma perfeita troca de nutrientes e oxigênio entre a mãe e o bebê, além de fabricar uma grande quantidade de hormônios. Também produz o líquido amniótico, importantíssimo para o desenvolvimento do bebê e sua proteção. “No caso dos mamíferos, como o cão e o gato, as fêmeas consomem a própria placenta para suprir uma necessidade de nutrição, uma vez que ficam impossibilitadas temporariamente de procurar alimento. Além disso, agindo assim elas apagam possíveis rastros que permitiriam aos predadores encontrá-la indefesa com suas crias. O ser humano bem alimentado não necessita dessa ingestão, mas nada impede que a faça”, diz o obstetra Abner Lobão Neto, pai de Arthur, coordenador do Pré-Natal Personalizado da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

De caso (bem) pensado

Gilda Midani decidiu comer a placenta depois de assistir a palestras da médica austríaca Eva Reich. Na época, ela veio ao Brasil falar sobre a importância do parto natural e do vínculo entre mãe e filho. “Foi quando explicou também tudo o que a placenta tinha de bom e os benefícios de comê-la após o nascimento pra prevenir depressão pós-parto e aumentar a produção de leite. Achei lindo e resolvi falar com meu médico, um alopata supertradicional na época, que achou graça da minha decisão. Mas eu fui em frente. Depois do parto do João, pedi um pedaço, comi e não achei nada ruim. Na verdade, tem uma textura parecida com a da uva e não tem gosto de nada”, lembra. No segundo parto, Gilda foi mais preparada: levou um liquidificador pra maternidade! “Logo após o parto, pedi pra que fizessem uma vitamina com parte da placenta, laranjas e tomate, como recomendava Eva Reich”, conta. Coincidência ou não, Gilda se sentiu uma fortaleza depois dos nascimentos de seus filhos. “E olha que eu tinha motivo de sobra pra ter depressão já que minha vida e meus casamentos estavam caóticos”, diz.

Marília Calil Salim, obstetra do Rio de Janeiro que pertence ao grupo de Profissionais Humanizados, lembra bem da história de Gilda. “Fiz o segundo parto dela, de cócoras, e recordo que depois da filha nascer ela tomou a tal da vitamina com placenta. Achei isso muito bonito na época. Mas claro que é uma coisa bem pessoal que, para ser feita, precisa fazer total sentido pra mãe. Comparo a placenta com uma raiz, que nutre o feto durante a gestação. E, quando ela acaba, perde sua função. Então,por que não nutrir a própria mãe?”, diz.

A maioria dos médicos, no entanto, não aprova a prática. E a maioria das mulheres também não embarca nessa. “Na Ásia, região onde as mulheres cultivavam o costume de comer a placenta depois do parto, hoje o que se faz são estudos relacionados às células multipotentes desse órgão. Isso porque se acredita que elas podem se tornar uma rica alternativa diante da polêmica sobre o uso das células embrionárias nas pesquisas com células-tronco”, explica José Bento de Souza, ginecologista e obstetra do Hospital Albert Einstein, de São Paulo. Agora, para alimentar ou tratar depressão pós-parto, ele prefere outras alternativas. “Hoje dispomos de terapias muito melhores e menos aversivas para os problemas que podem ocorrer no pós-parto do que a ingestão de placenta, não é mesmo?”

Polêmicas à parte

Há quem veja nesse costume um fundo psicológico. Por ser uma tentativa da mãe “incorporar” o bebê. “Freud fez um trabalho chamado Totem e Tabu que fala sobre isso. O ato de comer a placenta seria uma volta aos rituais primitivos e uma tentativa de incorporar os atributos do bebê, de se sentir mais próxima dele. Como se o casal que fizesse isso quisesse regredir ao mesmo estágio de recém-nascido para entender suas necessidades”, explica Anne Lise Scappaticci, psicanalista e professora de terapia familiar da Unifesp.

Bom, não cabe a nós julgar se a declaração de Tom Cruise tinha apenas a intenção de causar polêmica ou se ele estava pensando mesmo em fazer um ritual para se sentir mais próximo de sua filha. Nem dá pra afirmar que é certo ou errado imitar os animais e comer a placenta logo após o parto. O interessante dessa polêmica é parar para pensar e respeitar as novas – ou velhíssimas – ideias e rituais da natureza. Se pensarmos direitinho, veremos que eles são muito sábios. Afinal, temos mesmo é que venerar esse órgão ao mesmo tempo tão frágil e tão poderoso. Placenta é vida. E isso é tudo.

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