Presentes de Natal: tecnológicos ou não?

Presentes de Natal: tecnológicos ou não?

Atualizado: Quarta-feira, 2 Dezembro de 2009 as 12

Deixei meu sapatinho,

Na janela do quintal

Papai Noel deixou

Meu presente de Natal...

Neste período, em geral, respondo muito às perguntas de jornalistas e pais ansiosos a respeito dos brinquedos que serão o presente de Natal. No consultório atendo crianças com grandes expectativas do que irão ganhar. Parece que o Natal é um dia sem fronteiras, tudo é possível. Assisti a uma cena engraçada outro dia. A mãe disse para a menina que não tinha dinheiro para comprar aquele brinquedo caro e ouvi a filha responder: "Não faz mal! Você compra com o cartão!" A mãe respondeu: "Mas cartão também é o nosso dinheiro, minha filha". E então a menina respondeu: "Já sei! Paga com o cheque!"

Ultimamente, as novas tecnologias, internet, Nintendo, bonecas robôs que fazem de tudo, parecem distanciar as crianças do convívio familiar, além de ser o destino de todo o décimo terceiro de seus pais. As crianças ficam mais tempo livres e submersas ao bombardeio dos comerciais da televisão e querem tudo. Ninguém ensina a tolerar a frustração! Ninguém ajuda os pais a lidarem com a frustração que sentem por ter que dizer não a seus filhos!

Essa é uma terra de ninguém. Velho Oeste! Olha só: veio na minha cabeça aquela música que cantávamos batendo as mãos numa brincadeira: "No velho oeste ele nasceu. E entre bravos se criou!". Passávamos nossa infância na rua, nosso convívio era maior com outras crianças e não dispúnhamos de tanta variedade de brinquedos e tecnologias! Parece-me que éramos mais felizes e com muito menos... Teria algum modo de resgatar a coisa divertida de nossa infância com nossos filhos?

Outro dia respondi a uma pergunta sobre dar ou não brinquedos tecnológicos. Estamos num mundo moderno, pensei. Entretanto, resisti e respondi: "Sem dúvida nenhuma é importante esta combinação introduzindo também os brinquedos simples e tradicionais, como a bola, a boneca, a corda e até mesmo o livro. Você combina através da interação com a criança, ou seja, o "brinquedo" tecnológico precisa da interlocução de um adulto a princípio para evitar a "robotização" da criança. É claro que quanto menor a criança, maior a chance de ela ficar fascinada pelo fato de já ter "a coisa pronta", sem esforço e, ainda pior, sem pensamento. E esse jogo de imagens e sons encanta a crianç,a porque aparece como magia. Então, é preciso ficar atento, mas, por outro lado, não de maneira radical, pois as nossas crianças convivem com a tecnologia cada vez mais no dia a dia. Portanto, lidar com isso é necessário. Não se esqueçam que os três cientistas que receberam o Prêmio Nobel de Física nos últimos dias o fizeram devido a descobertas ligadas à alta tecnologia que organiza as relações da humanidade.

Quero dizer que esse é um recurso da evolução humana. Entretanto, esse recurso não prescinde da companhia viva de alguém que possa pensar, sentir e compartilhar as emoções. Isso é insubstituível."

por: Anne Lise Scapaticci é psicanalista infantil e terapeuta familiar, em São Paulo

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