Profissão: mãe. Elas largaram tudo pelos seus filhos

Profissão: mãe. Elas largaram tudo pelos seus filhos

Atualizado: Sexta-feira, 6 Maio de 2011 as 11:37

A liberação sócio-comportamental da   mulher transformou o mundo: introduziu a mão de obra feminina definitivamente no   mercado de trabalho , deu-lhe   independência financeira   e colocou-a eventualmente no cargo de chefe de família. E modificou a maternidade. Gostar de trabalhar, muitas gostam. Gostar de ser mãe, também. Mas essa dupla jornada é muito complicada. Tanto que algumas abdicaram de suas carreiras para assumir a função mais antiga da mulher: gerar, parir e criar. Mas quais serão as conseqüências, para mães e filhos, dessa decisão?

A arquiteta Rosa Branca Sampaio, 31 anos, viu-se nessa encruzilhada. Quando engravidou de Cecília tinha em seus planos afastar-se por seis meses do escritório de projetos que divide com uma sócia - entre gestação e primeiros momentos do bebê - e depois retornar ao batente. Mas a chegada da filha lhe cutucou para outra realidade.

"Eu sofro para sair de casa todo dia. Fico querendo estar com ela o tempo todo. Ligo para mais de oito vezes por dia para saber se está tudo bem. Apesar de ter plena confiança na   babá , que cuidou do meu irmão quando era criança e conhece minha família há muito tempo. Mas sinto que estou deixando de ser testemunha integral de um momento maravilhoso da vida dela e, portanto, da nossa vida. Quando ela falou a primeira palavra, 'batata', e eu não estava em casa com ela e sim visitando uma obra, fiquei arrasada", lamenta-se.O desejo de estar ao lado da filha em todos os momentos está transformando a maneira como Rosa Branca vê o seu trabalho. Com oito anos de carreira, ela é dona de um apartamento de dois quartos na Gávea, na zona sul do Rio, um carro e paga todas as suas contas sem dificuldade. Ela planeja uma mudança para um apartamento maior junto com o pai de Cecília, o também arquiteto João Flores. Mas seu trabalho, que antes era uma fonte de prazer, tem se transformado em suplício. "Na hora de vir pro escritório, depois de dar o almoço pra ela, eu fico de coração partido . E percebo que ela sente isso porque, se ela me vê indo embora, chora. Estou desestimulada no trabalho, chego com vontade de ir embora ver a Ciça", confessa.

Ela e João têm conversado bastante sobre sua possibilidade de parar , mesmo momentaneamente, de trabalhar para dedicar-se à maternidade. "Nós temos condições de manter nosso padrão de vida e os custos da Ciça, mesmo se eu parar com o escritório. O que tenho medo é que, depois que ela cresça, eu me arrependa do que fiz: perca uma carreira que está se sucedendo bem e fique sem rumo. Tenho um pouco de medo do futuro, mas meu coração, no momento, pede isso", comenta Rosa Branca.

A jornalista Inês de Castro, autora do livro   "Mamãe Vai Trabalhar e Volta Já " (Editora Original), considera legítimo o medo da arquiteta. Para ela, abdicar da carreira em nome dos filhos pode gerar uma frustração irrecuperável. "A não ser que isso esteja muito amadurecido, como um ciclo que termina, um trabalho de que não se goste, essa decisão pode ser bastante comprometedora. Porque nós gostamos de trabalhar e gostamos de ser mães, mas não o tempo inteiro, nenhuma das duas coisas", comenta ela.  

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