Quanto a ficção nos filmes, livros e desenhos dizem sobre nós?

Quanto a ficção nos filmes, livros e desenhos dizem sobre nós?

Atualizado: Segunda-feira, 22 Novembro de 2010 as 12:54

Homer Simpson é um pai egoísta, algumas vezes ingênuo. Os filhos o execram, mas o amam muito. Em Toy Story 3, o menino Andy fica adulto e tem que decidir quais brinquedos, ou seja, quais lembranças de infância, vão com ele para a faculdade ou ficarão trancadas no sótão. Maria Von Trapp, a mais adorável madrasta do cinema, a Noviça Rebelde, precisa provar que boa mãe precisa ser e utiliza um recurso pouco encontrado hoje em dia: a alegria de viver.

Estes personagens fazem parte do novo livro dos casal de psicanalistas Mário e Diana Corso, os mesmos autores de Fadas no Divã (Ed. Artmed). Desta vez, quem entra no consultório para ser analisado são estes personagens que citei acima, além de dezenas de outros de seriados de TV e filmes dos anos 60 para cá. Dos caipiras americanos Waltons até Shrek 4, passando por Os Simpsons e Frankestein, o que a fantasia tem a nos dizer? Ou melhor: o que nós temos a dizer por meio da fantasia? Para escrever Psicanálise na Terra do Nunca – Ensaios sobre Fantasias (Ed. Penso, R$ 79), os especialistas se debruçaram por quatro anos e tiveram uma grande suspresa: todos nós fantasiamos sobre a figura da família. A boa, a certa, a ideal, a que gostaríamos de ter, a possível... Ficamos entre entre a do comercial de margarina e a dos seriados de comédia norte-americanos.

CRESCER: De onde nasceu a ideia de estudar o poder da fantasia, a mídia e as famílias contemporâneas?

Diana Corso: Na verdade esse não é um livro sobre família. Há vários capítulos que interpretam as fantasias sobre famílias, até como forma de a gente demonstrar como que essas fantasias que se passam através da ficção – cinema, teatro, literatura – nos interpretam. Então tem uma parte do livro no qual a gente faz estas interpretações das fantasias para tentar delinear o que é mesmo a fantasia, e acaba descobrindo que esta fantasia retrata nossos desejos, nossos ideais, aquilo que a gente acha que nós deveríamos ser, e que a nossa família, no caso, poderia ser.

C: E por isso esses filmes e desenhos fazem tanto sucesso...

Diana: Sim, porque expressam nossos desejos, mesmo quando são tão críticos quanto nos Simpsons. Ninguém queria ser um pai como o Homer, mas, na verdade, é uma família que guarda dentro de si um grande ideal: por mais que o pai seja atrapalhado, que não consiga proteger seus filhos, que a mãe seja medíocre, que os filhos aprontem, a família não se dissolve nunca.

C: A divisão "isso é coisa de criança e isso é coisa de adulto" está menor?

Mário: Acho que sim. A gente não derruba mais pontes com a nossa infância como antes. O adulto brinca muito mais. O computador, por exemplo, é poder continuar brincando.

Diana: E hoje mais pais brincam e acham que devem brincar com seus filhos. Eles têm muito claro que o papel deles é ativo na formação psicológica de seus filhos. Eles sentam para assistir junto aos filmes da Disney, comentam. A fantasia hoje é a parte mais sutil, mais delicada e mais profunda da comunicação entre pais e crianças e adolescentes. Os adultos de outrora não tinham nenhuma relação com a infância que um dia tiveram. Hoje a gente traz a nossa infância conosco. E isso não quer dizer que a gente não possa ser adulto e, sim, que continuamos conectados com a infância.

C: Estamos mais bem resolvidos entre a "nossa" Wendy e Peter Pan, história a qual vocês dedicam o livro?

Diana: A Wendy é esse adulto. No final, ela é justamente aquela que lembra de tudo, não se arrepende de ser adulta, não tem vontade de ir para a Terra do Nunca no lugar da sua filha. Guarda tudo com carinho. A Wendy é o que tendemos a ser.

Shrek, o pai improvável

"A queixa de Shrek de que ele não está pronto, que não se sente em condições e nem quer ter filhos é compreensível para as crianças, assim como é importante assistir como ele vai habilitando-se para a função de pai, fortalecendo-se graças a ela e até gostando da ideia. (...) No fim das contas – pode pensar uma criança – meus pais sentiam-se despreparados, foi um furacão em suas vidas, mas eles se tornaram pessoas melhores e maisfelizes graças a mim."

Simpsons: laços confusos, mas fortes

"No ar desde 1989, o desenho animado Os Simpsons brinca com políticos, celebridades, ideais, nações, cultura contemporânea e clássica. Tampouco poupa a si mesmo, seu humor desnuda a pequenez dos ideais e dos valores de uma família média. (...) São apenas humanos, demasiado humanos, arranjando confusão, tropeçando nas coisas simples da via. De qualquer maneira, ainda não surgiu nada que impeça essa família amarela de amar-se, e de nos encantar, mesmo sendo tão pouco amáveis."

Maria Von Trapp: o que a Noviça Rebelde tem?

"Talvez possamos responder à pergunta sobre os dons de Maria pelo avesso. A partir do que sobra nela, compreendemos a falta que isso fazia naquela família: trata-se da transmissão da alegria de viver. Alegria é algo impreciso, mas estamos falando da vontade de ficar vivo, de tirar prazer da vida, de seguir desejando, amando, trabalhando. (...) Um filho deseja ser motivo de satisfação e alegria para a mãe, preencher de alguma forma sua existência, e o estado de espírito dela é indicador disso para ele."

Toy Story e as lembranças bem guardadas

"A maior parte de nós guarda alguns objetos de sua infância em uma espécie de museu íntimo, algo que representa e testemunha nosso passado. Geralmente é na casa dos pais o lugar do "sótão". (...) O lugar para onde vai a infância é esse sótão: é preciso perde-la, mas saber que ficou guardada em um canto, de tal modo que tenhamos a fantasia de resgatá-la um algum dia."

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