Relaxa, pai!

Relaxa, pai!

Atualizado: Quinta-feira, 19 Agosto de 2010 as 1:06

Quando alguém fala de meus filhos recebo como uma crítica. Mesmo que seja uma recomendação ou um elogio. Entendo que a criação que ofereço está sendo discutida. Levo para o lado pessoal. Eu embruteço, solto os pés de galinha dos olhos, afundo as rugas das sobrancelhas. Não relaxo. Sinto-me ameaçado. Ora, que pretensão, falar de meus filhos como se conhecessem melhor do que eu. Pode ser a mãe de um colega, o pediatra, o porteiro. Cultivo a paternagem centralizadora. Mais advogado de defesa do que pai. Não democratizo as tarefas, muito menos a vocação. Deveria deixar a vida também criar minhas crianças. Educação de qualidade é guarda partilhada com o mundo.

A namorada já percebeu que as conversas girando em torno de Vicente e Mariana resultam em cara amarrada, com rosnado ao final. Tem medo de puxar o assunto, venho criando resistência onde há mais amor. Acho que não me perdoei pela separação, que redobrou a necessidade de controlar o incontrolável. Ou talvez não me permita fracassar onde tanto sofri quando pequeno. Pretendo realizar mais do que o disponível, e me culpo por trabalhar e não estar presente em tempo integral.

Pai bem resolvido não existe. Não sou bem resolvido, confesso. E já estive do outro lado e não guardei a paciência. Eu decorava lições para prova na cozinha quando minha mãe lavava louça. Batia continência, ao lado dela, lendo alto as questões. Ela repetia as perguntas e eu respondia sem consultar o caderno. Contente com os acertos, eu pulava e abraçava a mãe. Naquele momento, a água respingava nas folhas. Pois é, a alegria nunca é impune. Isso gerou a maior investigação escolar. Um legítimo bafafá de corredor. Ao entregar os cadernos, a professora chamou a direção que chamou minha mãe. Foi uma reunião fechada no gabinete do Serviço de Orientação.

- Seu filho está chorando. Aconteceu algo de diferente em casa?

- Chorando?

- Seus cadernos estão borrados, o lápis manchado. Acreditamos que ele chora ao fazer os temas. Você o obriga a cumprir as tarefas, coloca de castigo?

- Não, de nenhuma forma.

- Ele receberá a vigilância de nossos orientadores até resolvermos o problema.

Hoje esclareço o desconforto. A mãe ganhou a desconfiança à toa, eu parecia vítima de maus-tratos e era mais cuidado do que pássaro nascendo. Situação idêntica experimentei com Vicente, 8 anos. Ele chorou na saída do seu turno. A professora nos confidenciou com um semblante grave, típico da salinha de hospital. Lembrava um diagnóstico, não uma informação provisória. Eu adoeci, articulava de que um colega bateu nele, que suportava constrangimentos no recreio. Tentei tirar, a todo custo, a informação. Ele resmungava: "Não foi nada, pai". Seguiram dias e dias cerceando a história. A dificuldade de confessar do filho aumentava a minha insistência. Após briga, ele explodiu e explicou que a professora mostrou sua foto em um filme do aniversário do colégio. Tímido como é, ficou encabulado. Minha paternidade tem que relaxar. Sofro em vão pelo medo de sofrer. Falta-me a simplicidade de um pano de prato.

FABRÍCIO CARPINEJAR é poeta; autor de "Meu Filho, Minha Filha" (Ed. Bertrand Brasil, 2007), entre outros livros, vencedor do Prêmio Jabuti de 2009 e pai de Mariana, 16 anos, e Vicente, 8.

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