Sua vida cheia de prazos

Sua vida cheia de prazos

Atualizado: Terça-feira, 11 Maio de 2010 as 10:33

Desde a infância, Britney Spears já sabia que queria ser famosa. Não perdeu o foco um minuto até conquistar o posto de popstar internacional. Também nunca escondeu sua vontade de ser mãe com 23 anos. Dito e feito: o pequeno Sean Preston nasceu dia 14 de setembro de 2005, dois meses antes de a estrelada cantora soprar as velinhas de seus 24. Será que ser uma mulher que sabe o que quer da vida e exatamente quando quer garantiu a felicidade de Britney? No time de rainhas dos prazos há outras celebridades, como a cantora Joss Stone: "Já fiz uma listinha. À medida que vou conquistando, coloco um ‘Ok’ do lado", revelou numa entrevista. A diva Beyoncé, que atuou no filme Dreamgirls, também tem projetos traçados: em cerca de dez anos, pretende estar casada e com filhos. "E... ganhar um Oscar."

Projetar uma vida ideal, encaixando cada peça do cenário numa data exata, não é privilégio de quem passeia pelo hall da fama. Mortais comuns na faixa dos 20 anos costumam agir assim também. Se é o seu caso, deve ficar listando o que "precisa" realizar (e quando) para ser feliz - pôr os pés em outros países, ter um trabalho de sonho, casar em grande estilo... Nada mais natural. O problema é quando se aprisiona aos prazos que estipula. Pronto, os sonhos viram obrigações, gerando impaciência e até frustração se algo sai fora do planejado. De onde vem tanta rigidez? Da pressão que existe sobre todo mundo, e você sente na pele, de ser bem-sucedida. Como se a felicidade dependesse de ser uma profissional elogiada, uma mulher linda e jovem (sempre!), uma mãe e dona-de-casa exemplar. Ora, se isso fosse verdade, celebridades que já conseguiram tudo estariam relaxando numa ilha paradisíaca. Mas elas continuam insatisfeitas, querendo mais e mais. Receberam um Grammy? Querem um Oscar no ano seguinte. Ganharam um perfume com seu nome? Buscam assinar uma marca de roupas no mesmo ano. Conseguiram tudo isso? Querem adotar ou ter seu próprio bebê - e rápido. Por que essa urgência?

Movida pela ambição

Já saiu do shopping cheia de sacolas e depois viu que não usaria metade das roupas novas? Você entra num processo parecido quando começa a estabelecer metas sem pensar se trarão felicidade. A gerente Luciana, de 29 anos, passou por isso: "Sempre tive objetivos profissionais que sonhava alcançar até os 30 anos. Por sorte, consegui aos 27. Só que, em vez de curtir as conquistas, pensei: ‘O que eu quero agora?’" A psicóloga Sheila Panchal, autora de Turning 30 (Batendo na casa dos 30), avalia o caso. "A necessidade de cumprir dead-lines pode ser prejudicial. Se não chega lá, sente-se perdedora; se sim, no lugar de apreciar o sabor da vitória, se impõe novos desafios." E olha o perigo: pode não avaliar se a etapa seguinte é crucial ou puro capricho. Já Ana, produtora de 28 anos, não tirou da cabeça a idéia de trabalhar numa importante rede de tevê quando chegasse aos 30 anos. Ao ser convidada para ingressar na tal empresa, desistiu. "Na hora H, descobri que não gostaria de mudar para a capital." Resolveu brilhar na emissora do interior, onde já trabalhava. "Andava tão focada naquela meta que nem enxerguei o óbvio: o melhor era ter sucesso sem me afastar da família e dos amigos", conta.

Decidida ou ansiosa?

Outra cilada é estar obcecada a ponto de pular etapas, como fez a nutricionista Andrea, de 27 anos. "Namorava o Fabio havia seis anos e ele sempre soube que era importante para mim entrar na igreja com 27", conta. "Na idade-limite, entrei em pânico. Nem relaxava nem curtia o relacionamento, preocupada em saber por que ele não pedia a minha mão. Num passeio ao shopping, sugeri comprarmos as alianças. O Fá concordou. Fiquei feliz - embora desejasse que ele tivesse tomado a iniciativa. Minha ansiedade de querer resolver as coisas cortou esse encanto." A assistente social Fernanda, de 21 anos, está no mesmo barco. "Sempre sonhei ter um bebê até os 25 anos, no auge da minha energia e saúde. Meu namorado e eu vamos começar a tentar assim que casarmos, daqui a um ano." Será que Fernanda cogitou a hipótese de essa pressa levá-la a tomar decisões erradas? "É natural ter desejos, mas de forma inflexível não é", alerta a terapeuta de casais Sarah McCloughry. "Há o risco de colocar o objetivo acima de decisões cruciais, como escolher o homem certo para casar."

Sem autossabotagem

A consultora de inovação Chris Barez Brown concorda que batalhar pelo que quer com ponderação evita frustrações. "Prazos geram estímulo. Mas não existem para aprisionar", defende. Ou seja: se encarar um dead-line como obrigação e não enxergar mais nada ao redor, pode se sabotar. Agora, se é realista e flexível, vai usá-lo como fonte de motivação. "Não é a meta que traz felicidade, mas a jornada para chegar a ela", acredita Chris. Especialistas em traçar planos não cansam de dizer que eles têm de ser sempre revistos, atualizados e modificados. Ou perdem o valor. Se vai ganhar um Oscar agindo assim, maravilha. Mas sua felicidade não pode depender exclusivamente disso.

Por: Giovana Lombardi

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