Testemunho de um marido que acompanha a sua mulher nas compras

Testemunho de um marido que acompanha a sua mulher nas compras

Atualizado: Segunda-feira, 25 Julho de 2011 as 9:19

Minhas pernas estão moles, os joelhos prestes a se dobrar, as panturrilhas com cãibras. Em meu delírio, tento encontrar um lugar para descansar, mas não o encontro. Não sinto os dedos dos pés. Vejo miragens – cadeiras, bancos – elas tremulam, me convidando, mas desaparecem quando me aproximo. Oscilo à beira do desmaio.

De repente, uma voz soa vinda da luz ofuscante: "Ah, deixe de ser criança! Só estamos fazendo compras há uma hora."

É uma voz familiar e cruel – minha esposa, cuja resistência excede muito a minha nestas ocasiões. Para ela, a seção de "acessórios" é o paraíso. Para mim, é algo entre o deserto do Saara e o Sétimo Círculo do Inferno de Dante.

Tudo bem, talvez eu esteja exagerando. Na verdade, não me importo de fazer compras da maneira certa. Desde que seja a minha maneira – com a velocidade e a eficiência de uma operação militar. Ai de mim, porque posso não determinar a agenda quando minha esposa e eu chegamos ao shopping, mas acho que ficar sonhando é uma boa catarse. Então, por favor, me dê licença enquanto fantasio. Click.

Compras à moda Drew

Em primeiro lugar, o passeio ao shopping teria um objetivo claro. Se você vai ao shopping antes de determinar o que precisa ser feito, algo estranho pode acontecer. De repente, você descobre que "precisa" de todo tipo de coisas, até mesmo de coisas que você nem sabia que existia! Uma hora se arrastando pelo shopping acaba com suas pernas. Dois, seu torso começa a fraquejar. Após três horas, a fadiga aparece na sua espinha e toma seu cérebro. De repente, a linha entre o que se precisa e o que se quer fica confusa. Você começa a pensar em estranhas perguntas: "Como foi que dormi até hoje sem uma cama que realinha a energia do meu corpo com a do campo magnético da terra?" "Como vou chamar os roedores sem este apito para atrair roedores?"

Se fosse minha decisão, não ficaríamos tempo suficiente para isso acontecer. Chegaríamos correndo. Pegue os itens. Marche com eles até o balcão. Despache as sacolas plásticas. Esvazie o recinto e chegue a casa em tempo para o jogo de futebol. A ida perfeita ao shopping!

Click. De volta à realidade. Tais jornadas são uma lembrança distante dos meus tempos de solteiro. A cena verdadeira é algo assim:

Andar. Olhar as roupas. Olhar as roupas. Andar mais. Discutir. Silêncio. Pedir desculpas. Mais discussão. Experimentar as roupas. Deixar a loja. Voltar à loja. Separar as roupas. Andar. Chorar (eu). Ranger os dentes (os meus). Andar mais.

Bom, já deu para entender. Fazer compras traz consternação ao meu casamento. Isto me pegou de surpresa. Há apenas dois anos estávamos noivos e risonhos, sem nem mesmo uma indicação do conflito no horizonte. Nós dois gostamos de ficar abraçados, de beijar e de um cara chamado Drew. Então nos casamos e começamos a fazer compras juntos.  

Mas, recentemente, descobri que algo mais estava causando problemas ao nosso casamento, algo muito pior que ir às compras – o meu egoísmo. As descrições acima fazem minha esposa parecer o bandido. Algumas explicações são necessárias aqui.

Para começar, embora minha esposa goste de ir às compras, ela raramente compra alguma coisa. é um daqueles mistérios, como o Pé Grande ou o Triângulo das Bermudas. Mas a questão é que eu tenho sorte. Já vi muitos homens adultos chorarem por causa dos hábitos de compra de suas mulheres. Quando minha mulher realmente compra alguma coisa, é só depois que a incentivo muito.

Em segundo lugar, ela me acompanha em muitas atividades das quais não gosta, e sem fazer os gemidos de uma baleia corcunda que caracterizam minhas idas ao shopping. Ela não gosta de basquete, mas vê os jogos comigo. Embora ela goste de ler, meu hábito de acampar nas livrarias do bairro testam sua determinação. Ainda assim, ela quase não reclama.

Na maioria das vezes, eu era muito egoísta para notar seu sacrifício. Agora, olhando para trás, posso ver os sinais. Sorrisos fracos quando eu anunciava que o encontro daquela noite era ir ao jogo da NBA. Olhos vítreos depois de horas em que eu perseguia volumes imensos na seção de teologia da livraria. Idas à locadora caracterizavam meu egoísmo: ela queria Emma, mas levávamos Arnold.

Embora seja tentado a culpar meus anos de solteiro por meu esquecimento do sentimento dos outros, a verdade é mais sinistra: quero as coisas do meu jeito. Como um bebê que pega um brinquedo e grita "meu!", eu estava deixando minha vontade dominar meu casamento. Minha esposa fazia sua parte, fazendo concessões e sacrifícios. Mas eu não respeitava seus desejos. Com exceção da ida ao shopping, que estraguei de tanto reclamar, fazíamos o que eu queria, do meu jeito.  

Eu sempre soube que a Bíblia é dura em relação ao egoísmo. Talvez por que ela não fale especificamente a respeito do egoísmo no contexto do shopping, eu não vi a aplicação dela. Ainda assim, seu ensino sobre este assunto é claro: "Ninguém deve buscar o seu próprio bem, mas sim o dos outros" (1Coríntios 10.24). "Assim, em tudo, façam aos outros o que vocês querem que eles lhes façam, pois esta é a Lei e os Profetas" (Mateus 7.12). "Nada façam por ambição egoísta ou por vaidade; mas humildemente considerem os outros superiores a si mesmos" (Filipenses 2.3).

Estes versos encerram o assunto. Eu tinha o hábito de me colocar antes dos outros. Enquanto solteiro, consegui disfarçar esta voz, mas o casamento trouxe isto à tona. Eu tinha que mudar.

Devoluções e trocas

Tentei alguns caminhos para a recuperação. Primeiro, empreguei o que chamo de "método do mártir". Concordei com o plano de minha esposa, até mesmo a encorajei a tomar decisões que normalmente tomo. Então, durante a atividade, chafurdei em autopiedade. Fomos às compras e sofri, mas em silêncio. Assistimos a romances; ambos os nossos rostos estavam molhados de lágrimas. Mas, eu não estava enganando ninguém. Nós dois sabíamos que minha abnegação não era sincera. O único sacrifício que fiz foi satisfazer meu ego superinflado. Eu ainda me colocava em primeiro lugar, só que de um jeito diferente.

Então, mudei para uma segunda tática: igualar o placar. "Tudo bem, hoje faremos seu programa. Amanhã o meu. Empatado". Com certeza era um pouquinho legalista, mas era justo. Manter tudo igual era a única maneira de assegurar que meu egoísmo permanecesse em xeque, eu pensava. Mas não funcionou também. Foi apenas outra maneira de olhar para mim mesmo, assegurando que ainda tinha tudo sob meu controle. Além disso, mesmo quando fazíamos as minhas coisas, não conseguia me divertir. Eu estava gastando pontos valiosos!

Finalmente, me quebrantei e tentei o jeito de Deus. Isto exigiu mais do que ajustar meu comportamento; significou inspecionar minhas atitudes. Eu sonhava verdadeiramente em colocar os interesses de minha esposa antes dos meus, ver o mundo na perspectiva dela e perguntar a mim mesmo o que poderia fazê-la feliz.

Ainda não dominei esta técnica. Continuo escorregando de volta à minha velha personalidade egoísta. Velhos hábitos são difíceis de deixar, se é que conseguimos realmente nos livrar deles. Na verdade, comecei a gostar de fazer coisas que nunca pensei que pudesse. Até mesmo as idas ao shopping não eram tão ruins.

Tenho percebido que Deus não nos dá ordens para nos fazer infelizes. Ele estende a instrução porque nos ama. Suas regras não são arbitrárias; elas constituem um código de amor. Abandonar meu egoísmo não apenas beneficiou aqueles ao meu redor, contudo me deu mais alegria também. Estou aprendendo que a paz de Deus pode preencher meu coração, não importa o que eu esteja fazendo – até mesmo compras.

Drew Dyck é escritor free-lancer e mora na Califórnia.

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