Vaidade na infância não pode tomar o lugar do faz de conta

Vaidade na infância não pode tomar o lugar do faz de conta

Atualizado: Quinta-feira, 2 Abril de 2009 as 12

São 13h30min de uma quinta-feira. Alícia tem horário marcado na agenda do salão de beleza. Reservou parte da tarde para fazer uma escova nos longos cabelos e pintar as unhas das mãos e dos pés.

A cliente chega, saúda a manicure predileta e a cabeleireira. Deixa a bolsa de pano com a mãe e senta como princesa em uma cadeira maior que ela. Os pés nem sequer chegam ao chão. Afinal, Alícia tem seis anos - e uma vaidade de gente grande.

- Ela curte muito o salão de beleza. É frequentadora desde os três anos e adora se arrumar em casa, passar batom, sombra e cuidar da aparência - conta a mãe, a empresária Verônica.

O entusiasmo para ficar impecável e a curiosidade de ver a própria aparência modificada por esmaltes coloridos, pranchas de alisamento e cachinhos nos cabelos são uma das brincadeiras prediletas da menina. Nesse caminho vaidoso, em que o ser criança e o descobrir-se feminina se fundem, a mãe de Alícia incentiva também o lado lúdico da filha.

- Ela vai ao parque, brinca, faz balé e todas as coisas de criança. Dou liberdade para ela escolher e decidir se, no futuro, vai querer continuar com tanta vaidade - diz Verônica.

Saber avaliar se os desejos dos filhos são compatíveis com a faixa etária é uma tarefa difícil para os pais. Com o avanço das tecnologias, dos apelos publicitários e da geração de crianças espertas e bem informadas, é comum que os pequenos queiram ficar mais belos ou atraentes por meio de recursos que antes eram exclusivos do mundo adulto - como tintura no cabelo, brincos, maquiagem e até mesmo tatuagem e cirurgia plástica.

A fronteira entre o aceitável e o extravagante para a idade é o que desafia os pais. Para o psiquiatra-chefe do serviço de psiquiatria do Hospital Criança Santo Antônio e mestre em Educação, Paulo Berel Sukiennik, o querer fazer “coisas de adultos” pode ser uma maneira de se espelhar em um exemplo que a criança considera bom. Mas pode ser considerado negativo quando a atitude se torna compulsiva, tomando o lugar da brincadeira ou do faz de conta.

- Nestes casos, é preciso segurar o impulso das crianças, o que é uma prova de amor - diz Sukiennik.

Psiquiatra da infância e da adolescência, Celso Gutfreind, da Associação de Psiquiatria do RS, afirma que o desejo de fazer atividades adultas, principalmente relacionadas à beleza, se transforma em problema quando há uma necessidade narcisista, uma ditadura da beleza. Quando crianças e adolescentes passam a atender apenas a exigências de uma cultura, que pode vir da família, dos amigos ou dos grupos, pode ser violenta a ideia de atingir um modelo inatingível.

- É como a internet, que pode ser boa para criança se o adulto souber filtrá-la. Preocupar-se com a aparência, por exemplo, pode ser prejudicial se a relação com os pais estiver apenas baseada nisso - explica Gutfreind.

É por isso que, com toda a preocupação de Verônica, a pequena Alícia ainda tem uma preferência: apesar de adorar o salão de beleza, nas horas que tem livre, gosta mesmo é de se divertir.

- Eu adoro mesmo é brincar de boneca! - revela a menina de sorriso desdentado.

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