Veja como pais e escola devem falar de sexo com as crianças

Veja como pais e escola devem falar de sexo com as crianças

Atualizado: Segunda-feira, 31 Maio de 2010 as 11:48

"Manheê, de onde eu vim?!" Você pode não perceber mas essa frase é uma pergunta sobre sexo. A sexualidade está presente na vida da criança desde cedo e o jeito que você reage às ações de seu filho é um modo de educar, que se reflete no desenvolvimento dele. "A forma como os pais agem com os filhos, dando carinho, amor, aconchego e proteção, será importante para desenvolver uma boa estrutura psicológica e de sexualidade", afirma o sexólogo Marcos Ribeiro, coordenador do Centro de Orientação e Educação Sexual, o Cores, que presta consultoria a escolas e para o Ministério da Saúde.

A sexualidade vai muito além do ato sexual e da reprodução. Abrange o que são as pessoas, seus sentimentos e relacionamentos. "Implica ainda aprendizagem, reflexão, valores morais e escolhas", diz Claudia Ribeiro, professora da Universidade Federal de Lavras, Minas Gerais. E está presente em todo lugar, na família, na TV, no out-door, nas revistas, na rua... Daí a importância de a escola assumir seu papel social nessa história. Como os pais, ela educa sem se dar conta disso. Nas paginas seguintes, CRESCER fala da contribuição de cada um para a educação sexual de nossas crianças.

Não se surpreenda

Se encontrar seu filho de 3 anos com um amiguinho ou amiguinha, ambos sem roupa e mexendo nos órgãos genitais. Nessa fase aflora a curiosidade sobre o corpo e a criança começa a comparar seu corpo com o das outras. Se, também com essa idade, ele ou ela começar a brincar com os órgãos genitais, passando a mão distraidamente nessa região durante um tempão. Ou roçando essa parte do corpo em almofadas, um brinquedo ou outro objeto. Sim, ele está se masturbando, o que faz parte do processo de descobrimento do corpo e as suas sensações. Se pegar seu filho manipulando o pênis do amiguinho. Ou se sua filha vive de mãos dadas e agarradinha com a melhor amiga da escola. Os pais ficam logo preocupados pensando que isso pode ser indício de homossexualidade. Mas essa escolha segue caminhos complexos e tem muito mais a ver com a relação afetiva da criança com os pais do que com suas brincadeiras infantis. Tudo começa em casa

E bem antes de a criança nascer. Logo que a mãe fica sabendo se seu filho será menina ou menino, qual é a primeira providência? Dez entre dez brasileiras tratam de arranjar o enxoval nas cores azul, se for menino, ou rosinha, no caso de menina. Quando o casal não dispõe dessa indicação, faz aquela coisa neutra, apostando no verdinho ou amarelinho. Desde o berço, portanto, o bebê tem contato com a noção de gênero, de masculino e feminino, da diferença de papéis do homem e da mulher.

Quer mais um exemplo? Você está assistindo a um filme na TV enquanto seu filho brinca distraidamente ali do lado. De repente aparece uma cena mais picante. O que você faz? Muda de canal rapidamente? Solta um comentário cheio de reprovação para seu companheiro? Ou simplesmente acha normal e reage com naturalidade? Qualquer que seja a alternativa escolhida, você estará passando uma mensagem sobre sexo. Uma mensagem carregada de valores. Ao observar os pais mudarem de canal ou desligarem a TV quando passa uma cena de sexo, a criança entende que eles não querem que ela veja. Por que será?, começa a caraminholar. E vai construindo suas hipóteses.

"O ideal é que a família abra um espaço para o diálogo", diz a psicanalista Francisca Vieitas Vergueiro, membro do Grupo de Trabalho e Pesquisa em Orientação Sexual, GTPOS, de São Paulo. Dialogar é dar oportunidade para a criança aprender. E não só sobre sexo. A primeira grande curiosidade de uma criança é saber de onde vêm os bebês. Quando ela pergunta aos pais e obtém uma resposta confiável, que sacia a curiosidade, descobre um modelo de conhecimento que usará para o resto da vida. É perguntando que ela descobre as coisas.

Mas as respostas precisam ter bom senso. Não adianta falar de espermatozóide, óvulo, útero e relações sexuais para uma criança de 2 ou 3 anos. "A resposta tem de ir até onde a curiosidade e a compreensão da criança alcança", diz Francisca, do GTPOS.

Criança pergunta cada coisa...

Mal aprendem a falar, os pequenos viram uns perguntadores de marca maior. Sexo para eles está na pauta do dia. As curiosidades a respeito variam dependendo do ambiente, do cotidiano, do espaço que a criança tem para falar sobre sexualidade em casa, dos vínculos construídos com os familiares e educadores. Apresentamos algumas das perguntas mais freqüentes, em cada idade, e a forma mais simples de respondê-las.

De 2 a 3 anos

Posso fazer xixi de pé, como meu irmão? (Pergunta de menina)

Pode, mas vai molhar a tampa do vaso sanitário e o chão. Os meninos fazem xixi de pé porque fica mais fácil. Se eles fossem fazer xixi sentados na privada, teriam que segurar o pênis para baixo para não molhar o chão.

Por onde sai meu xixi? (Pergunta de menina)

Por um buraquinho que tem entre suas pernas. Se você quiser, pode ver com um espelhinho.

Por que não posso mexer no pipi do papai?

Crianças e adultos não devem mexer no pênis ou na vulva um do outro. As crianças - da mesma idade - podem fazer brincadeiras entre si.

Por que o pipi do papai é maior que o meu? (Pergunta de menino)

Porque ele é maior do que você. Os braços são maiores, as pernas e o pipi também tem que ser.

De 4 a 6 anos

Por onde saem os bebês?

Por um buraquinho chamado vagina que existe entre as pernas da mamãe. A mulher vai para o hospital na hora de o bebê nascer. Às vezes, o médico precisa abrir a barriga da mãe para tirar o bebê.

E como ele entra na barriga da mãe?

Um jeito muito especial de responder a essa pergunta está no livro Mamãe Botou um Ovo!, de Babette Colle. A mamãe tem ovos dentro da barriga. O papai tem sementes nos saquinhos que ficam fora do seu corpo. O papai tem um tubo. As sementes que estão nos saquinhos saem por ali. O papai encaixa na mamãe e o tubo entra na barriga dela por um pequeno buraco. Então as sementes nadam lá dentro com a ajuda de seus rabinhos até o ovo. Quando os dois se juntam formam o bebê.

Por que a professora ficou brava quando o Pedro disse filho da puta?

Puta é como são chamadas as mulheres que recebem dinheiro dos homens para ter relação sexual. Xingar alguém assim é uma ofensa para a sua mãe.

De 7 a 10 anos

É verdade que o bebê é feito de pedaço de cabeça de mulher, de braço, de perna?

Para se gerar um bebê é necessário que o espermatozóide do homem encontre o óvulo da mulher. São tão pequeninos que não dá pra ver sem lente de aumento.

E como ele se alimenta?

O bebê se alimenta pelo cordão umbilical, que liga a mãe à criança.

O sangue que passa pelo cordão é transformado em nutrientes e oxigênio antes de chegar ao bebê.

O que é abuso sexual?

É uma situação em que a criança ou adolescente é usado para o prazer de um adulto ou mesmo de um adolescente mais velho. Acontecem carícias no órgão genital, na mama, no ânus e até o ato sexual, com ou sem violência. É importante que você saiba que o seu corpinho é só seu e só você dirá quem pode tocá-lo. As brincadeiras devem ser com alguém da sua idade.

Como é que a gente dá beijo na boca?

Tem vários modos e depende da intimidade das pessoas que se beijam. Elas podem apenas encostar os lábios uma da outra e, se forem muito íntimas, abrir um pouquinho a boca e tocar uma língua na outra. Mas isso não é coisa de criança. Quando você crescer vai saber o que fazer na hora de beijar.

O que não é dito explicitamente também influencia. As atitudes e hábitos dos pais são outra maneira de falar sobre sexo. E isso pode gerar conflitos na cabecinha dos filhos. "Certas famílias têm um discurso liberal, mas, na prática, agem de um modo diferente", afirma Marcos Ribeiro.

Ele cita um exemplo: no final da refeição, pai e filho vão cuidar da vida e deixam para a mãe e a filha as tarefas da casa. Ou, no máximo, o marido concede em "ajudar" e não em "dividir" algumas atividades domésticas. O que isso tem a ver com sexo? Tudo. "Não adianta os pais defenderem a igualdade entre homem e mulher se, em casa, os filhos vêem que não é bem assim", alerta Ribeiro. Aprendendo a encarar homem e mulher de forma igualitária, a criança usará esse conceito quando ampliar a convivência social, respeitando mais as diferenças.

Na família da assistente social Valkiria Martins de Oliveira, mãe de Lucas, 11 anos, e Marina, 8, os papos sobre sexualidade sempre foram abertos e francos. "Procurei fazer com que eles ficassem à vontade para perguntar qualquer coisa", diz Valkiria. Como? Para começar, ela e o marido tratavam o corpo como algo natural. "Desde muito pequenos, eles se acostumaram a tomar banho comigo e o pai", ela relata.

Valeu para eles, pode não valer na sua família. "Uma mãe veio me perguntar se era normal tomar banho com o filho", conta Marcos Ribeiro. "Se perguntou é porque não era natural para ela e, em se tratando de sexo, a família deve agir com o máximo de naturalidade possível, da maneira mais confortável para todos."

Criança quer respeito

A sexualidade de seu filho não merece gozações e brincadeirinhas. É preciso respeitá-lo. Há pouco mais de um ano, quando nasceram os primeiros pêlos pubianos em Lucas, ele começou a trancar a porta do banheiro e Valkiria logo se tocou. "Ele é tímido e agora tem um pouco de vergonha", afirma. Às vezes, ela não resiste e solta um comentário do tipo "E aí, Lucas, você já está apaixonado?" O garoto, que ainda brinca de carrinho, só ri. Como a orientação sexual entrou em pauta no colégio, Lucas não faz tantas perguntas à mãe. Mariana é mais curiosa. "Outro dia ela ouviu um funk que falava de sexo e não entendeu um termo pejorativo. Queria saber o que era. O Lucas riu dela, mas eu respondi direito", afirma Valkiria.

Na casa da funcionária pública Sandra Regina Rodrigues, as curiosidades da filha Érica sobre sexo começaram quando a menina, de 7 anos, notou a barriga da mãe crescendo. Grávida de sete meses, Sandra se deparou recentemente com perguntas do tipo "O papai usa camisinha para evitar filho?".

Assim como a maioria das mães de sua geração, Sandra não tinha espaço para discutir sexo com a família. "Quando criança, eu achava que beijo na boca engravidava", recorda-se. "Meu maior medo é não saber qual a hora certa para minha filha saber tudo", confessa. Para responder a Érica, Sandra busca informações complementares em livros, revistas e sites especializados e aconselha-se com o pediatra. "Tento responder naturalmente", diz ela. "Acho errado enrolar as crianças com meias-verdades."

Caso a curiosidade ainda não tenha pipocado na cabeça de seu filho e isso a esteja preocupando, você pode tentar a estratégia apontada por Marcos Ribeiro. Mostre um livro que fale sobre o tema (sugestões ao lado), diga para ele dar uma olhadinha e deixe o caminho aberto para vocês conversarem sobre as dúvidas que surgirem.E continua na sala de aula

Como em casa, a educação sexual está presente na escola mesmo sem planejamento. Quando um funcionário do colégio pega dois meninos no banheiro com as calças abaixadas, mexendo nos órgãos genitais um do outro e toma uma atitude - repreende ou leva o caso para a diretoria -, está educando. Pois é. O problema é esse. Se a instituição não tem um projeto organizado nem pessoas orientadas para tratar das questões sexuais, diretores, professores e funcionários acabam tratando o assunto de acordo com suas convicções pessoais, passando para o aluno seus próprios valores.

E não é esse o papel da escola. "Ela recebe alunos de diferentes famílias, com valores culturais e morais diversos", diz a psicanalista Francisca Vergueiro, do GTPOS. A escola tem que acolher essas diferenças, apresentar outras referências e criar um espaço para o debate e a reflexão. "Assim, bem informado, cada um poderá decidir como cuidar da própria sexualidade", conclui Francisca.

Para introduzir o assunto

Menino Brinca de Boneca?, de Marcos Ribeiro. Fala sobre preconceitos envolvendo as divisões de papel de homem e mulher. R$ 15,50, Editora Salamandra, tel. (11) 6090-1500.

O Menino Que Brincava de Ser, de Georgiana da Costa Martins. Conta a história de Dudu, o menino que gostava de se fantasiar de menina e introduz o tema dos papéis sexuais. R$ 14,00, Editora DCL, tel. (11) 3932-5222.

Mamãe Botou um Ovo!, de Babette Cole. Com pouco texto e muita ilustração, fala de forma divertida sobre como nascem os bebês. R$ 19,90, Editora Ática, tel. (11) 3346-3404. De Onde Viemos?, Explicando às Crianças os Fatos da Vida, sem Absurdos, de Peter Mayle, Arthur Robins e Paul Walter. Em linguagem simples, conta como os bebês são gerados e como nascem. R$ 19,00, Editora Nobel, tel. (11) 3706-1466.

Família para educação afetiva e sexual. O kit vem com cinco bonecos representando o pai e a mãe, adolescente grávida e casal de filhos. Todos com órgãos sexuais. São disponíveis em três etnias: branca, negra e mulata. R$ 266,00, Crianças Criativas, tel. (24) 2221-3359.

Família colchete. São nove bonecos em cada kit, com os respectivos órgãos sexuais, representando pais, avós, casal de jovens, adolescentes e dois bebês. Todos os bonecos possuem colchetes em lugares estratégicos para simular cenas como pegar na mão ou beijar. R$ 280,00, Semina Produtos Educativos, tel. 0800-552452.

Boa intenção no papel

A orientação sexual entrou oficialmente nas escolas com os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN), lançados pelo Ministério da Educação e Cultura, em 1997, que dá as diretrizes sobre como o assunto pode ser abordado na escola. "Até a quarta série a professora deve estar atenta para as manifestações dos alunos e, a partir daí, colocar o tema em pauta na aula", explica Yara Sayão, do serviço de psicologia escolar da Universidade de São Paulo, e consultora do MEC no tema de sexualidade.

A partir da quinta série, a orientação sexual pode ser uma aula com dia e hora marcados. O professor responsável não precisa ser o de biologia. O essencial é que saiba ouvir sem impôr suas idéias, que seja um adulto confiável para os alunos e que consiga falar com naturalidade sobre o assunto. "Essas características não dependem da matéria que o professor leciona", diz o psicólogo e educador Antonio Carlos Egypto, do GTPOS. "Nada impede que na aula de História, o professor fale sobre homossexualidade quando eles estão estudando a Grécia Antiga", exemplifica Egypto.

Para que tudo isso aconteça, é preciso que a escola tenha um projeto de orientação sexual e, principalmente, prepare seus professores para praticá-lo. Não é esse cenário que vemos hoje no Brasil. O MEC lançou o tema, mas não criou uma política governamental para que ele fosse implantado nas escolas. "A educação sexual ainda é um apêndice nas práticas educacionais e raramente integra o projeto político pedagógico das escolas", avalia a educadora Claudia Ribeiro. Outra deficiência, segundo ela, é que os cursos de formação de professores não incluem a sexualidade em sua grade curricular. O resultado são professores e professoras que, na visão de Claudia, desconhecem as idéias das crianças sobre sexualidade.

Onde está funcionando

Nadando contra essa corrente, há exemplos de escolas no Brasil inteiro que implantaram projetos de educação sexual e já colhem bons frutos.

A Escola Estadual Ceará, em Porto Alegre, criou seu projeto de educação sexual há dez anos. No ano passado, um folder produzido por seus alunos sobre o tema foi premiado pela Unesco.

 No início deste ano, a prefeitura de Curitiba distribuiu uma cartilha para alunos de 5ª a 8ª séries e outra para os pais. "Apresentamos a eles a melhor maneira de conversar com os filhos sobre sexo", diz Rosemari Castro, coordenadora do projeto.

 Os alunos do Instituto Municipal de Educação José Arapiraca percorrem as escolas de Salvador encenando a peça Diálogos, que fala da relação entre pais e filhos. Terminada a apresentação, os atores debatem os temas com a platéia. Esses alunos já discutem o tema com tal desembaraço que podem tratar dele com outros colegas e professores. "A intenção é transformá-los em adolescentes multiplicadores, que levarão o debate para a comunidade", diz a professora Clara Amoedo.

 Em Goiânia uma parceria entre o governo estadual e a ONG Transas do Corpo preparou professores da rede pública. O trabalho culminou com a produção do vídeo Sexo, Giz e Apagador.

Debate falso

Um dos mitos sobre a adoção de um programa de educação sexual pelas escolas é o de que os pais dos alunos não aceitariam. Argumento: seria uma forma de colocar "minhoca" na cabeça das crianças. As escolas que incluíram o tema na grade curricular perceberam que essa resistência não existe. Um bom exemplo é dado pelo Instituto de Educação Beatíssima Virgem Maria, em São Paulo, onde estudam 1.200 crianças, da pré-escola ao ensino médio.

O Beatíssima implantou um projeto de orientação sexual há oito anos. "No começo, convocamos todos os pais para apresentar o projeto", conta Maria de Fátima Avelar, coordenadora de orientação sexual do colégio. "Apenas dois manifestaram alguma resistência, mas ao conhecerem a proposta acabaram aceitando", conclui.

Por: Malu Echeverria

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