Vida louca, vida BREVE

Vida louca, vida BREVE

Atualizado: Terça-feira, 4 Agosto de 2009 as 12

0 Porsche estaciona, o dono do carro desce e sorri. Não tem mais que 20 anos. Na porta da casa noturna, uma pessoa olha a lista de convidados. Mesmo que o nome do recém-chegado esteja ali, é difícil entrar se ele estiver mal vestido. Se o traje for aprovado, recebe o passaporte que dá acesso ao mundo da diversão de luxo. Na pista, nas mesas e nos camarotes da casa noturna, grupos de amigos, bebidas, música e luzes coloridas no ambiente obscuro. A Folha Universal ouviu alguns frequentadores das casas noturnas mais caras da capital paulista (que preferem manter as identidades em segredo) e constatou que, para eles, diversão é quase sempre sinônimo de gastar muito dinheiro (até R$ 4 mil em uma única noite) e consumir drogas, lícitas ou não.

Na danceteria cara da moda, o dono do Porsche paga R$ 300 só para entrar, é servido de bebidas na mesa e recebe drogas discretamente nas mãos, sem sair do lugar. Os entorpecentes – cocaína ou ecstasy – são os mesmos que circulam nas bocas da favela, mas, no mundo dos ricos, não há cadáveres pelas ruas. Eles continuam nas comunidades pobres, onde acontecem a maioria dos assassinatos do País. Muitos deles, de garotos que nunca completarão 20 anos.

Um estudo recente mostrou que um em cada 500 jovens brasileiros será assassinado antes dos 19 anos. "A probabilidade de que um adolescente brasileiro seja atingido por uma arma de fogo é três vezes maior do que ser assassinado de qualquer outra forma. Logo, o controle das armas deve ser prioridade das políticas de prevenção", aponta o sociólogo Ignácio Cano, do Laboratório de Análise da Violência da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).

A polícia de São Paulo tem feito algumas apreensões em boates da moda. Chegam sem avisar, no meio da noite, acendem as luzes, revistam as bolsas das mulheres (de grife, claro, que custam, em média, um salário mínimo – R$ 465), as calças dos rapazes (algo em torno de dois salários mínimos) e encontram grandes quantidades de substâncias ilícitas, tanto ou mais do que apreenderiam numa boca de comunidade carente. Em outras operações, policiais se inflitram nos grupos, disfarçados de jovens bem nascidos e, depois de meses de investigação, conseguem desarmar a trama do uso e do tráfico de entorpecentes nas classes mais abastadas. Uma das diferenças mais notáveis é que o traficante da balada cara não é chamado de traficante, mas de "dealer" (negociante em inglês). Veste roupas de grife e dirige carrão do ano, como os clientes endinheirados.

Bebidas alcoólicas também são consumidas de modo exagerado nas casas noturnas mais caras. Na boate Disco, em São Paulo, uma garrafa de um litro e meio de champanhe Cristal Magnum custa pouco menos de R$ 6 mil – e o estoque não encalha. Comprar uma garrafa dessas é um modo de ostentar e demonstrar poder diante do grupo de amigos e conhecidos.

O uso de álcool e drogas, aliás, está diretamente relacionado à aceitação pelo grupo. É o que apontam estudos e especialistas no assunto. A pesquisa Jovens e Drogas: Sociabilidades Alternativas, realizada por antropólogos da organização não-governamental (ONG) Imagens Educação, de São Paulo, constatou que o uso de drogas, para os jovens, está ligado ao prazer, à satisfação dos desejos e à inserção em grupos. Outro estudo, feito pela Secretaria Nacional Antidrogas (Senad) revela que 81% dos jovens de 18 anos já beberam pelo menos uma vez na vida e 41% já tinham usado bebidas alcoólicas entre os 10 e 12 anos.

A psicóloga Stella de Almeida, do Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre Psicoativos (Neip), ressalta que alguns pais mais abastados pensam que fornecer bens materiais aos filhos é o suficiente. "A família de classe média está perdida. Acha que os jovens, quando têm coisas materiais, não precisam de mais nada. E não é bem assim. Muitas vezes, os jovens precisam de outra coisa, como carinho e diálogo", analisa. Por essas e outras, a vida de alguns deles se torna vazia. Se eles pensam já ter tudo o que querem, só precisam se divertir. "Esvaziados de objetivos, eles acabam entrando nesse mundo, inclusive o da venda de drogas, para cobrir esse vácuo", completa.

Postado por: Felipe Pinheiro

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