Vitamina da futura mamãe

Vitamina da futura mamãe

Atualizado: Quarta-feira, 2 Junho de 2010 as 3:23

O cuidado com a saúde do bebê pode e deve começar antes da gestação. O ácido fólico é uma vitamina do complexo B que faz parte do metabolismo celular e é muito importante para a formação do sistema nervoso dos fetos, no que diz respeito ao fechamento correto do tubo neural. A falta dessa substância pode acarretar vários problemas de formação, que levam a diferentes graus de dificuldades para a vida que vem por aí.

Esse é o motivo pelo qual os médicos se preocupam com a complementação desse nutriente. O Dr. Renato Sá, da Sociedade de Ginecologia e Obstetrícia do Rio de Janeiro, afirma que "essa é uma prevenção simples que pode evitar conseqüências muito sérias".

Tubo neural

O tubo neural é a estrutura que vai formar o sistema nervoso. Ele começa a aparecer poucos dias depois do embrião se fixar no útero e por isso é importante que a complementação seja feita no primeiro momento da gestação. Acontece que é impossível saber esse momento. As gestações, geralmente, são descobertas depois desse período.

Por esse motivo, a medicação é recomendada para mulheres que estão querendo engravidar ou mesmo para aquelas em idade fértil que não usam métodos contraceptivos. Uma especificidade dessa vitamina é que ela é importante, sobretudo, no início da gravidez enquanto os outros complementos nutricionais são indicados a partir do terceiro mês de gestação.

Combate à anemia

De acordo com a nutróloga Elizabeth Ayoub, a vitamina, conhecida como folato ou B9, é eficiente no combate à anemia e às doenças cardiovasculares; necessária para a produção de glóbulos vermelhos do sangue; fundamental para a duplicação normal das células e para todas as funções que exijam divisão celular. Por causa da grande importância para a saúde, a exemplo do que acontece em vários países, desde 2004 o Ministério da Saúde e a Agência de Vigilância Sanitária (Anvisa) obriga que as farinhas de milho e trigo vendidas diretamente ao consumidor ou utilizadas como matéria-prima nas indústrias sejam enriquecidas com ferro e ácido fólico. A resolução foi tomada como tentativa de diminuir os altos índices de anemia e de doenças causadas pela deficiência de ácido fólico na população brasileira.

Elizabeth Ayoub alerta que a falta de ácido fólico pode ser indicada pela presença de um tipo de anemia, a megaloblástica, em que os glóbulos vermelhos imaturos têm um tamanho maior que o normal. "Baixo peso, falta de apetite, debilidade, palidez, fadiga, náuseas, diarréias, mau humor, depressão, inflamação e rachaduras linguais (glossite), úlceras bucais, taquicardia, atraso no crescimento e cabelos brancos também podem ser sintomas da falta de ácido fólico", comenta a nutróloga.

Saúde do bebê em formação

Segundo o ginecologista Dr. Renato Sá, as doenças que podem aparecer no feto pela falta de ácido fólico são a mielomeningocele, a espinha bífita e a anencefalia. As seqüelas em cada uma das doenças é bastante variável, elas se apresentam em diferentes graus. "A anencefalia é caracterizada pela não formação do cérebro. Nesses casos, a fatalidade é certa. A mielomeningocele é uma espécie de bolsa que se forma na coluna para onde vai escorrer o líquido do sistema nervoso. Há várias complicações possíveis, entre eles, retardo mental e deficiência motora, paraplegia, incontinência urinária e fecal. Tudo depende de onde acontecerá o problema de enervação", explica Dr. Renato. A espinha bífita seria o problema com menos implicações: é possível viver com ela mesmo sem saber.

Ácido fólico x Síndrome de Down

Uma pesquisa realizada pela Universidade de Campinas revelou que a utilização de ácido fólico diminui o risco de bebês com aberrações cromossômicas, como a Síndrome de Down. De acordo com a professora do departamento de Genética Médica Carmem Bertuzzo, idealizadora e uma das responsáveis pelo estudo, houve a comprovação de que pessoas com deficiência genética em enzimas do ciclo do ácido fólico têm um risco maior de ter filhos com problemas.

"Pessoas com deficiência no ciclo metabólico do ácido fólico estão mais sujeitas a erros na divisão celular. Esse é o efeito que leva ao nascimento de crianças com aberrações cromossômicas. A administração de ácido fólico faz o ciclo girar mais vezes, suprindo a deficiência", explica a pesquisadora. A descoberta não muda a quantidade de vitamina que deve ser ingerida, mas o período: a suplementação deveria começar três meses antes da gravidez.

Fizeram parte da pesquisa um grupo de 70 mães em que os bebês nasceram com a Síndrome de Down e 88 mulheres com filhos normais e sem histórico de abortos. O grupo das mães de portadores da síndrome tem mais mulheres com mutações enzimáticas, se comparado às mulheres com filhos normais. Os resultados demonstraram que as portadoras das mutações têm nove vezes mais probabilidade de ter filhos com Down. No caso de mulheres com mais de 35 anos, o risco é cerca de cinco vezes maior que na população geral. A cada 800 nascimentos, um tem o distúrbio da Síndrome de Down.

É mesmo preciso complemento?

A nutróloga Elizabeth Ayoub enumerou alguns alimentos ricos em ácido fólico: hortaliças verdes, como espinafre, couve e couve-flor, além de outros vegetais, como cenoura, ervilhas, batata, germe de trigo e levedo de cerveja; cogumelos, timo de vitela; rins, músculos, ovos, frango e queijos. "A substância também está presente em fracas doses no leite e praticamente ausente no leite de cabra, e por isso é perigoso alimentar bebês exclusivamente com esse leite", afirma a médica.

Apesar de estar presente em tantos alimentos diferentes e de estar por lei na composição de farinhas, há situações em que o ácido fólico precisa ser ingerido em pílulas. Dr. Renato explicou que são indicados medicamentos para a complementação porque, em geral, não se sabe se, via alimentação, a futura mamãe está absorvendo uma quantidade suficiente de ácido fólico. Inclusive porque há síndromes que realmente alteram essa absorção. Daí a indicação para mulheres em idade fértil, grávidas ou amamentando.

"Todas as mulheres que tomam suplementos de ácido fólico antes da concepção reduzem em cerca de 50% os riscos de defeitos neurológicos no futuro bebê. Iniciar a suplementação três meses antes de engravidar ou três meses antes de parar a pílula anticoncepcional é importante", enfatiza Elizabeth Ayoub.

A nutróloga indica outras situações em que a complementação pode ser necessária: idosos; tabagistas e alcoólicos que absorvem menos vitaminas, doença de Crohn, colite ulcerativa e enfermidades com evacuações freqüentes e diarréicas. Além disso, é indicado no caso de uso contínuo de anticoncepcionais orais, antiinflamatórios, sedantes e soníferos.

A médica explica que não existe hipervitaminose para o ácido fólico, mas isso não quer dizer que você deve sair tomando. Consultar o médico é muito importante antes de utilizar qualquer remédio, mesmo que seja uma vitamina. "O consumo excessivo leva à falta de vitamina B12 e pode mascarar essa segunda deficiência. A ingestão elevada pode interferir na absorção do zinco e reduzir os efeitos da medicação antiepiléptica", explica.

Elizabeth Ayoub revela que a dose média diária recomendada para grávidas é de 0,4 miligramas de folato. Outro importante motivo para se evitar a automedicação é que algumas pesquisas apontam a possibilidade de altas doses de ácido fólico estarem relacionadas ao câncer de mama em mulheres com mais de 35 anos. "Não podemos esquecer que os alimentos já contêm o nutriente", finaliza a nutróloga.

Por: Lívia Duarte

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