Viuvez, solidão e esperança

Viuvez, solidão e esperança

Atualizado: Segunda-feira, 28 Janeiro de 2008 as 12

Coluna - Pr. Cleydemir Santos

Viuvez, solidão e esperança

Eu "vi uva".

Eu fui ao sul do Brasil e lá "vê uva" é algo muito comum e muito especial. Quando eu "viúva" num local em que elas são colhidas, percebi que era um processo muito doloroso, mas muito interessante. Chega um tempo que ela tem que se entregar, para uma nova etapa de sua existência. Toda beleza e companhia que teve desde que existe, num cacho cheias de iguais a ela, agora não conta mais. É só ela e a vida. Ela vai viver um tempo amassada, dolorida. Depois vai passar um tempo curtindo uma transformação pela qual nunca imaginou, vai perder a sua identidade, vai ficar meio azeda. Se esperar tranquilamente e perceber que aquele processo é assim natural, vai virar um suco de uva de melhor qualidade e se for mais ousada, mais ambiciosa, um vinho saboroso; e quanto mais velha ficar, mais valor terá.

Solidão

A solidão é o maior problema da viuvez. Como a uva, ela é arrancada de uma situação que sabia lidar muito bem durante toda a sua vida. Casa dela, cozinha dela, marido dela. Agora, é lançada em uma circunstancia que nunca esperava, nunca se preparou e não quer acreditar que isto está acontecendo.

Em alguns casos, o casal vivia muito mal, e parecia que a morte de um deles seria libertadora, mas a experiência diz o contrário. A praga do homem, a doida da mulher era com quem convivi toda uma história, não me ensinou a viver sem ele/ela. Esperava que após a sua morte, pudesse administrar tudo, fazer do meu jeito, caminhar do meu jeito, comer do meu jeito, mas, o meu jeito, já estava atrelado a ele, perdi o jeito. Fazer do meu jeito enquanto ele, ou ela estava aqui era estimulante, para fazer raiva nele/a. Mas agora, fazer do meu jeito é desajeitado. Não aprendi a viver sem ele/a.

Ao contrário do que se pensa, não são apenas aqueles "casais modelos" que sofrem com a viuvez. Casais que brigam frequentemente e permanecem juntos anos, ainda que reclamando bastante um do outro, sofrem muito a morte do(a) companheiro(a), pois estão habituados a essa estimulação emocional e o afeto existe, mesmo nessa aparente turbulência do relacionamento.

Culpa

Isso acaba gerando culpa em nosso coração. Culpa falsa, culpa sem razão. Foi e foi enquanto durou.  É preciso encerrar. É preciso continuar.

Luto/encerrar

Mas encerrar não é tão simples. O período de luto é um tempo difícil para todo mundo. Para alguns, a crise vem de depressão, de angústia, de muito dormir. Para outros vem de ansiedade e de medo de perder mais tempo. Para outros vem com uma enfermidade, com um envelhecimento precoce.  Para outros vem da falta de compreensão dos familiares que não conseguem nos deixar viver sem o outro. Para outros não é visível, é interna, difícil de dizer em palavras. Aparentemente nada sofreram, mas internamente vivem um vazio que tem que ser coberto a qualquer custo. A maioria vive uma crise comum: a financeira. É preciso reaprender a ganhar e a gastar. Quanto se tem dinheiro, aprender a gastar e administrar é difícil. Quando não se tem é pior ainda.

Novo matrimônio ou não

Mas sempre há solidão. E solidão se resolve de maneiras diferentes em idades diferentes. Ficou viúva nova? Que se case, que se libere, depois de um tempo, tire a aliança do dedo, faça uma aliança consigo, busque direção de Deus e disponibiliza-se. Ninguém garante que vai se casar de novo, mas você tem direito de fazê-lo. Se o fizer, tem antes que terminar dentro do seu coração o casamento que a morte terminou. Muitas ex-viúvas continuam a chamar o nome do ex-marido depois de casadas.

Não tem mais pique para isso? Mesmo assim, é importante que você cumpra o ritual do luto. Da dor, do recomeçar, da transformação e abra mão do passado. Ele não vai ajudar você. Não está mais obrigada ao seu passado. Muitas pessoas deixam de experimentar Jesus, de uma maneira salvadora, redentora, para uma vida eterna por que estão apegados a uma religiosidade familiar. A uma tradição religiosa. A mesma coisa acontece com algumas viúvas. Não admitem que algo já mudou e tudo em volta tem que mudar.   

Filhos

Às vezes por causa dos filhos, deixam de continuar a sua vida. Algumas pessoas tiveram oportunidade de estudar, de aprender a ler, de cultivar alguma coisa boa, mas ficam em casa esperando filhos que não vão voltar. Netos que não precisam deles e um passado que não volta jamais.

Envolver-se em atividades com pessoas afins, idade, por viuvez, por semelhança de propósitos (igreja, grupo de pescadores, de tricô), é saudável.

Viúvas na Bíblia

A bíblia sagrada nos dá exemplos de viúvas, algumas muito famosas. Algumas citadas pelo nome. "A profetiza Ana, filha de Fanuel, da tribo de Aser, avançada em dias, que vivera com seu marido sete anos desde que se casara, e que era viúva de oitenta e quatro anos. Esta não deixava o templo, as adorava noite e dia em jejuns e orações. E chegando naquela hora, dava graças a Deus e falava a respeito a todos os que esperavam a redenção de Jerusalém". Lc. 2.36-38

Talvez o Dr. Lucas, o médico evangelista, tenha entrevista um sobrinho, um filho desta mulher que fez de sua viuvez, um ministério profético que nunca aceitou morrer até que a vontade de Deus se cumpriu em sua vida. Ela encontrou um propósito para si. Ela fixou os olhos em Deus.

No velho testamento, talvez a viúva mais nobre seja Rute, ou quem sabe sua sogra Noemi. Ficou viúva, ajudou suas noras, não agiu com uma bondade desregrada, mas agiu para o bem de sua nora, sabendo que receberia a parte dela, a remissão da própria desgraça, se a outra fosse bem sucedida. Rute se casou, teve um filho, que por lei, seria filho de sua sogra para suscitar descendência ao seu filho e marido. Deus não abandona as viúvas. Elas estão na mira dos olhos de Deus.

A Bíblia fala de uma mulher que era doida para ficar viúva e se deu bem depois da morte de seu marido. Abgail. Vivia mal, mas era sábia. Vivia para a glória de Deus e não na dependência de seu marido tolo. Sem culpa arranjou depois um homem muito melhor que o falecido e teve com ele vários filhos.

Conclusão

A viúva esta na mira de Deus. Deus pediu a sua causa para a mão dele. Viva para a sua glória. O dicionário fala de dois sentidos para a palavra viúva:

 1. VIUVA ? MULHER A QUEM MORREU O MARIDO E NÃO VOLTOU A CASAR-SE.

2. DESAMPARADA ABANDONADA, PRIVADA, FALTA, CARENTE.

No meio da palavra viúva, tem um "U"! Tire este "U" de sua vida. Sabe o que fica? VIVA!!! Viva. Você está viva. Para você um viva. Para seu futuro um viva. Para sua situação atuação atual um viva. Para o Espírito de Deus que habita em você um viva. Se você vai se casar para a glória de Deus, viva, se vai ficar sozinha para a glória de Deus, viva.

Você não tem que viver solitária. Sozinha sim. Solitária não. A solidão é uma escolha cultural, que obriga você a ficar de luto mais que o necessário, a ficar triste como se tivesse culpa no cartório, a ficar fora da rotina de crescimento. A igreja precisa de você, a obra missionária precisa de você, as mulheres mais jovens precisam de você, Deus conta com você.

Cuide de seu corpo, vá ao médico, vá ao psicólogo, vá a hidroginástica, vá a hora nona, vá ao movimento de terceira idade de seu bairro, vá para a vizinhança carente evangelizar, vá com o pastor e a socorro para o campo missionário em férias, não gaste a toa, não jogue dinheiro fora na mão de parentes irresponsáveis, não tente ficar rica da noite para o dia, fuja do pecado e das paixões da viuvez.

Ora, que o Deus de toda graça, que em Cristo vos chamou a sua eterna glória, depois de terdes sofrido um pouco, ele mesmo vos há de aperfeiçoar, firmar, fortificar e fundamentar.  A ele seja o domínio, pelos séculos dos séculos, amém! 1 Pe. 5.10

Cleydemir Santos é pastor, psicólogo e teólogo em Minas Gerais. Trabalha com uma abordagem sistêmica, psicodramática, no atendimento de adultos e crianças.

veja também