Você é X, seu filho é Y

Você é X, seu filho é Y

Atualizado: Segunda-feira, 14 Junho de 2010 as 9:32

Provavelmente, você se lembra de quando seus pais lhe davam broncas carinhosas perguntando como conseguia estudar com os fones do walkman no ouvido. Agora, veja a si mesma observando seus filhos sem compreender como eles conseguem fazer a lição de casa, acessar o Orkut, ouvir música no iPod, fazer um download, falar ao celular e ver TV - tudo ao mesmo tempo. Algo mudou, não é? No admirável mundo novo da tecnologia, uma geração diferente de jovens surgiu, com muitas características com as quais pais e educadores estão, a duras penas, aprendendo a lidar. Estamos diante da geração Y. Esse foi o termo encontrado por pesquisadores e profissionais da área de recursos humanos para tentar entender o comportamento de crianças e jovens multitarefa, ou seja, que fazem muitas coisas simultaneamente, são colaborativos, ágeis, compartilham ideias com facilidade e mostram-se acostumados a um ambiente de mudanças e de incertezas. A expressão surgiu na década de 1990, mas vem se popularizando. "Enquanto os adultos com mais de 30 anos nasceram no mundo analógico, a geração Y cresceu imersa nas infovias, com acesso ilimitado a imagens, sons e outros recursos de comunicação", afirma a pesquisadora Cristina Cano, estudiosa das diferenças geracionais, da Universidade de Barcelona, na Espanha. Segundo ela, há um gap com o qual precisamos aprender a conviver, pois somos verdadeiros imigrantes nesse mundo. Os adultos representam a geração conhecida como X, pós-baby boom (a grande explosão populacional do pós-guerra). De maneira geral, são pessoas que brincaram na rua e têm uma relação no máximo amigável com o computador. Os filhos - daí o Y - já conheciam o play e o stop aos 3 anos. E há quem já fale em geração Z para incorporar outros aspectos, como a disseminação e a sofisticação crescente dos games. Não se trata apenas de ter mais brinquedinhos eletrônicos à mão. Há muitas mudanças que não devem ser desprezadas. Segundo os especialistas, entre as características dessas novas gerações está a organização em comunidades de valores - isso explica a explosão de sites de relacionamento, como Orkut, Facebook e MSN. Na era digital, esses grupos se multiplicam exponencialmente, influindo no modo como consomem, formam juízos de valor e se informam. Nós confiávamos nas enciclopédias, enquanto eles recorrem a redes in termináveis para descobrir o que querem e para expressar suas preferências, seus desejos e suas posições.

Além dessa vida comunitária intensa, há diversos pontos em comum entre os jovens de hoje, segundo Renato Trindade, presidente da Bridge Research, empresa de pesquisa que estuda o comportamento das novas gerações, entre outros assuntos. "Eles clamam por feedback e resultados imediatos. Se não percebem que estão evoluindo, têm dificuldade em continuar insistindo", observa. No mundo do trabalho, essa carapuça serve para jovens que trocam de emprego a cada três meses. Na sala de aula, questionam o tempo todo se o que estão aprendendo vai adiantar para alguma coisa. Para entender e educar essa geração, é preciso saber que são bastante diferentes de nós. Mais do que nunca, os pais devem encontrar nas escolas bons parceiros para lidar com essa nova realidade. A escolha da escola e o acompanhamento do aprendizado tornam-se especialmente importantes nesse contexto – sem esquecer que a presença da família continua imprescindível.

Professor X diz "vovô viu a uva".O aluno, que passa horas na net, ouve isso e se sente um ET

MARIO SERGIO CORTELLA

Filas + giz + saliva = indisciplina

Não é algo simples. A educação vive um período de grandes contradições. Ao mesmo tempo que se dispõe a preparar os cidadãos do século 21, sobrevive amarrada em estruturas seculares – como colocar uma criança atrás da outra em aulas expositivas que seguem a velha fórmula do giz e saliva. Por isso, nas salas de aula, um dos sintomas para esse gap entre professores e alunos se traduz em indisciplina. "Quando um aluno que vê horas de TV por dia, acessa a internet e joga videogame chega à escola e ouve o professor dizendo ‘o vovô viu a uva’, provavelmente se sente um extraterrestre. É como se dissesse: ‘Muito bem, leve-me ao seu líder’ ", costuma brincar o filósofo Mario Sergio Cortella. Em outras palavras, a aula silenciosa, em que um mestre fala por 45 minutos e o discípulo escuta, é uma realidade radicalmente inversa à que vivem os jovens fora da escola. "As crianças navegam num mar de informações que se conectam o tempo todo, e esse entorno acaba por criar uma certa resistência à antiga organização da escola. É cada vez mais difícil prender a atenção dos alunos longamente, ainda que isso fosse possível tempos atrás", diz o professor e escritor Paulo Bedaque.

A solução não é simplesmente incorporar os recursos tecnológicos ao ensino. A tecnologia precisa estar presente, mas não apenas como um disfarce para aulas que continuam presas aos formatos tradicionais: deve ampliar as possibilidades de pesquisa, de simulação de fenômenos, de interação entre estudantes e professores. Para fazer um teste, cheque se os trabalhos apresentados pelos alunos não são somente um copy-paste de conteúdos encontrados prontos na web. Uma boa escola terá a preocupação de identificar e contornar a tentação da cola high-tech. Do mesmo modo, é preciso não se iludir com a grande facilidade que crianças e jovens demonstram para navegar pelo oceano de informações, pois frequentemente desenvolvem uma relação superficial com o saber escolar. De fato, uma das dificuldades apontadas pelos educadores é o tempo cada vez menor em que os jovens conseguem ficar concentrados num assunto. Não é aceitável, porém, que uma escola use esse argumento para justificar os problemas de aprendizagem. "Se um dos lados tem que aprender como lidar com o baixo poder de concentração, esse lado é a escola, que deve estar atenta às novas demandas da sociedade", defende Bedaque. Assim, observe as estratégias utilizadas nas aulas das crianças, o interesse que elas manifestam e, sobretudo, a forma como se relacionam com seus professores. "Os estudos que vêm sendo feitos nos últimos dez anos mostram a necessidade de mudança nos padrões de relacionamento e de comunicação entre professores e alunos", completa o pesquisador Joe Garcia, doutor em educação pela PUC-SP.

Comida congelada e roupa suja

A geração Y também pede, desde os primeiros anos, um cuidado especial com a formação de valores. Isso vale para os diversos aspectos da educação. Uma das características marcantes desses jovens é a dificuldade em assumir responsabilidades, lembra Renato. Um exemplo simples: se você deixar, é muito provável que o filhão só saia de casa depois dos 30 anos e ainda volte para pegar uma comida congelada e entregar a roupa suja. No mundo da educação, essa característica, já notada no mundo corporativo, pede uma ação contrária e de mesma intensidade. Mais do que nunca, deve-se mostrar às crianças e aos adolescentes que não há meio-termo: para amadurecer, terão de arcar com as consequências dos próprios atos, e essa lição começa bem cedo. Se a escola se limita a punir as infrações às regras, sem se preocupar em discutir com os alunos o alcance dos seus atos - quando magoam os amigos, desrespeitam o professor ou destroem carteiras -, pouco avanço haverá nesse campo. É preciso que haja tempo e espaço para que os jovens compreendam os efeitos de seu comportamento.

É hora de ir à escola do seu filho e ver como ela está enfrentando o desafio de educar essa nova geração. Seja de um ponto de vista mais conservador, seja adotando um discurso moderno, é fundamental que os diretores e coordenadores tenham opinião formada sobre um tema que não é nada banal - e que essa opinião combine com a sua. Muito mais do que ter computadores à disposição, as crianças e os jovens da geração Y precisam encontrar condições para seguir adiante - não como pessoas imaturas e sem rumo nem como profetas de um novo tempo, mas simplesmente como seres humanos que nasceram dentro de uma nova realidade e necessitam encontrar formas próprias de viver e se realizar.

Geração Y exige resultados imediatos e feedback. Se isso não vem, os jovens acabam desistindo

RENATO TRINDADE

Por: Paulo de Camargo

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