"75% da Igreja têm resistência à mudança", aponta fundador da Amme Evangelizar

"75% da Igreja têm resistência à mudança", aponta fundador da Amme Evangelizar

Atualizado: Terça-feira, 24 Março de 2009 as 12

Por Adriana Amorim

No último fim de semana, dias 20 e 21 de março, a Missão Amme Evangelizar realizou seu encontro nacional na capital paulista. Relacionando-se no dia a dia com igrejas e líderes, a missão tem o propósito de auxiliar as igrejas brasileiras na evangelização. O tema escolhido para o evento foi "Santificação e evangelização na pós-modernidade". O fundador da Amme, pastor José Bernardo, conta que com freqüência a missão questiona-se porque igrejas e pessoas têm dificuldade em evangelizar. Uma das questões levantadas foi a evangelização na pós-modernidade e a adaptação da Igreja para evangelizar na atualidade.

Segundo o pastor, o que move a Igreja para a evangelização é o "desejo sincero". "Método é apenas 10%, recursos, materiais, tudo apenas 10% de toda a evangelização. 90% da evangelização é atitude, essa vontade de ajudar as pessoas. Como Jesus, que andava e via as pessoas, as via como ovelhas sem pastores. Ele queria ajudar, socorrer, e isso é que faz a evangelização, a vontade de socorrer o próximo, ajudá-lo. Obviamente, associada a fé, a certeza de que a Palavra de Deus é que vai ajudar, ou então você se torna um ativista social.".

Em entrevista ao Guia-me, Bernardo falou sobre o relativismo da pós-modernidade e como a igreja tem agido em um contexto social de questionamentos. Um tempo de interpretações, emeferidade, falta de otimismo, busca por exeperiências e apego ao presente.

Guia-me: Como falar de Jesus em um mundo onde não existe mais verdades absolutas?

Pr. José Bernardo: Para mim, é um engano das pessoas da pós-modernidade dizer que não têm uma verdade, que tudo é relativo. Ou seja, já de começo, quando você diz que não existe verdade absoluta, você está dizendo uma verdade absoluta. Para a pós-modernidade ser absolutamente coerente, se ela disser que tudo é relativo, ela teM que dizer que essa verdade também é relativa. Outro absoluto da pós-modernidade é a experiência, que vale mais que a teoria. Experimentar as coisas é mais importante. Ora, cristianismo é isso, experimentar. Então, eu entendo que a pós-modernidade não é um tempo pior nem melhor do que a modernidade para se pregar o Evangelho. Do mesmo jeito que a modernidade não fez nem pior nem melhor para o ambiente da pré-modernidade. Qualquer tempo vai exigir uma adaptação da Igreja. Se eu mando um missionário para uma tribo indígena, que nunca ouviu falar de Jesus, que pensa que tudo aquilo que o pagé diz é a mais pura verdade e ue se ela pisar fora da aldeia, sem a ordem do chefe, será fulminada, o missionário terá que se adaptar dentro daquele contexto. Se esse missionário vai para uma universidade, digamos, do mundo muçulmano, onde as pessoas vivem por uma determinada lógica, é preciso trabalhar com essas pessoas, dentro da realidade delas. Se você está dentro de um grupo de emo, de punk, de surfistas em torno de seus 20 e poucos anos, você precisa aprender a comunicar o Evangelho dentro dessa realidade. Eu particularmente entendo que Jesus comunicou o Evangelho durante um período pós-moderno, que tinha características semelhantes.

Guia-me: Então, deve-se procurar estabelecer relacionamentos?

Pr. José Bernardo: Sempre. Eu acho que relacionamento é importante emqualquer uma das cosmologias, cosmovisões. Mas para o pós-modernismo ele é ainda mais importante. A pessoa precisa experimentar tudo que é dito. Ou seja, ela vai ter que vivenciar aquilo que você está pregando.

Guia-me: Em sua opinião, a Igreja tem coragem de assumir que o tempo mudou?

Pr. José Bernardo: Eu venho ensinando sobre mudanças há muitos anos. Antes da Amme já, na minha carreira profissional. Em 95 foi que eu comecei a trabalhar em tempo integral na igreja. Antes de 95 eu fiz carreira na área de marketing e já naquela época como consultor, eu sempre estava falando para executivos sobre a questão da mudança.

Eu desenvolvi uma pequena alegoria, onde eu comparo as quatro atitudes de mudanças a bichos. Você tem o avestruz, apesar dos biólogos dizerem que a avestruz não bota a cabeça na areia para se esconder, que é a pessoa que ignora a mudança, é a atitude da indiferença. A atitude da preguiça, que vê tudo mudando, mas se move lentamente, uma atitude de procrastinação, de deixar para depois: depois eu faço, depois eu vejo, depois eu me informo, depois eu vou atrás disso. A terceira atitude é da resistência, o burro, empaca a qualquer sinal de perigo, de tensão, de estresse, empaca e não muda de jeito nenhum. Eu resisto, isso é do diabo, eu não vou aceitar mudar etc e tal. E o quarto, que quer a mudança, tem o estilo da águia. O menor barulhinho e ela dá aquele salto para cima, voa e escolhe um novo objetivo, uma nova coisa. Só que dentro da mudança, existem duas atitudes da igreja. Eu diria que 75% da igreja tem resistência à mudança. E 75% das pessoas, empresas, têm resistência à mudança. É por isso que livros como 'Quem mexeu no meu queijo' fazem tanto sucesso. Agora 25% das pessoas que talvez queiram mudar dividem-se em dois grupos: aqueles que mudam as coisas que precisam ser mudadas e aqueles que mudam as coisas que não devem ser mudadas. Eu não acho que o problema é só a coragem.  O que não deveria mudar, está mudando, e o que precisaria mudar, não. Por exemplo, redução da pregação da Palavra, a pretexto de que a pessoa não-crente não agüenta ouvir a pregação. Isso é um absurdo.

Guia-me: As pessoas buscando tem buscado experiências. Isso não pode aproximá-las de falsas doutrinas?

Pr. José Bernardo: Que tipo de experiência se não for uma experiência com a Palavra? Uma exepriência que não é com a Palavra é inválida. Nós não estamos aqui hoje como alguns vendedores de livros cristãos voltados para a psicologia, a psicanálise, material de auto-ajuda. Pára, nosso negócio aqui é Bíblia. E é a Bíblia que transforma, que muda. Não é negociável.

Aí você vê o menino na segunda-feira. Tem pregação na primeira, na segunda, na terceira, na quarta e na quinta aula. Na terça, na quarta, na quinta, tem gente que tem aula aos sábados, tudo pregação. Então ele escuta aí, na semana toda, quinze, dezoito horas de pregação. Aí chega na igreja, o pastor não pode pregar 15 minutos? Brincadeira. Talvez, obviamente, o assunto que esteja sendo pregado, não é o  que a pessoa está precisando ouvir, falta de sensivbilidade do pregador. Talvez o pregador não esteja usando todos os recursos de didática que ele poderia usar para tornar a pregação mais interessante. Mas deixar de pregar a Bíblia? É deixar de ser cristão! O grande problema é que precisa sim de ousadia para mudar, e mudança é complicado.

Guia-me: Então a Igreja tem buscado adaptar-se para se aproximar?

Pr. José Bernardo: A expressão que eu uso é tirada do mercado de software:igreja amigável. No software todo mundo quer um programa amigável, que funcione do jeito que você quer. Um programa que você não tem que mudar nada, aprender nada. Simplesmente o programa chega, você faz plug-in nele, e ele funciona direto, é plug and play. Você bota na tomada e sai usando. Não é assim a Igreja, ela está falando de transformação, de mudança de vida, de ser nova criatura, não pode ser um negócio que você não sente diferença nenhuma, que você sai do mundo e entra na igreja. Tem diferença sim.

Esse termo da igreja amigável pegou forte no Brasil, ainda tem igreja vivendo isso. Você vai falar para o irmão: "Irmão, isso é exagero". Uma das coisas que eu tenho falado muito é sobre o tribalismo. Tem igreja que acha que ela precisa virar uma tribo. Vamos evangelizar os emos. Então todo mundo de franjão aqui na igreja, agora. Gente, não é assim, porque os emos vão desaparecer daqui há três, quatro anos, já mudaram. O movimento que surgiu há uns 10 anos, no Brasil há uns dois anos, já mudou. Primeiro vestia de um jeito, agora de outro. Primeiro cantava de um jeito, agora de outro. Esses movimentos não têm nenhuma fundamentação para a igreja dizer: "Agora nós vamos construir uma igreja só para esse movimento". O movimento vai embora e o que você faz da sua igreja? A Igreja deve estar preparada a pregar o Evangelho para toda criatura. Não só para os emos, pagodeiros...

Há muito material vindo de fora sobre a igreja emergente, que passou da situação de usar métodos para parecer com as pessoas do mundo, para que elas não sentissem nenhuma diferença na Igreja. Se elas não sentem nenhuma diferença, elas não encontraram nada, não tem “boa notícia”. Toda “boa notícia” é diferente do que você conhecia, ou não é notícia. Então, tem que ser nova.

Guia-me: Como estão agindo as igrejas emergentes?

Pr. José Bernardo: As igrejas emergentes estão voltando a ser as de sempre, porque elas já perceberam. A nova geração, que foi criada fora da Igreja, que tem pais que não foram da Igreja católica ou outra, essa geração não conhece Igreja. Então, para ela tanto faz o tipo de Igreja que você tiver. Na verdade, se ela chegar e encontrar o que tem no mundo, pelo contrário, é aí que não vai ficar em sua igreja. Então, uma nova geração hoje está em busca de uma experiência espiritual, verdadeira, uma coisa realmente diferente. As emergentes estão sendo muito mais firmes na pregação da Palavra, na adoração, e menos na aparência, estética. Existe um retorno, uma vontade de viver mais intensamente a espiritualidade.

Guia-me: Mas, em um mundo de interpretações, no qual a verdade de uma pessoa é diferente de outra, não há um risco da Igreja pregar o Evangelho e ser identificada com uma atitude de superioridade?

Pr. José Bernardo: É interessante como às vezes você tem que impor. Acho que depende muito da pessoa. Essa é uma questão que determina a pós-modernidade. Lógico que a nova geração suspeita de toda imposição, e não quer que se imponha nada sobre ela. Quando você diz isso, eu me lembro do apóstolo Paulo: "Tempera sua mensagem com sal". Não é mudar a mensagem para que ela seja mais aceita pelas pessoas. É a mesma mensagem. Você muda o método, mas prega a mesma mensagem. Essa mudança está de acordo com o ouvir. Ainda agora eu respondi uma pergunta do painel: Qual a atitude prática que a Igreja precisa ter ao ministrar em um ambiente totalmente diferente?" Ela precisa ouvir. Ninguém gosta de ir a um médico, principalmente os da medicina pública, e o cara ficar de cabeça baixa, escrevendo lá: "Toma uma novalgina a cada não sei quantas horas e não me enche mais a paciência". Não, todo mundo fala bem do médico que examina: "Olha fui em um médico ótimo, ficou uma hora me examinando, apertou minha barriga, perguntou das doenças da minha bisavó, esse médico é bom". Nós sempre achamos que o médico que examina mais vai dar uma receita melhor, uma solução melhor. E a gente não transfere muito isso para a evangelização. Simplesmente a pessoa chega, e a gente diz: "Ah, eu tenho a receita para você. Não precisa me falar o que você tem, não precisa falar o que você pensa, eu não quero saber suas opiniões, não quero saber de você de forma alguma, toma esse remédio aqui e pronto".

Guia-me: O remédio então é ouvir?

Pr. José Bernardo: A falta de ouvir é muito ruim. Entender o outro, Jesus gostava de fazer isso. Escuta, "o que queres que eu te faça?" O que você está precisando, qual a sua necessidade? E ouvir as pessoas, porque não quer dizer que tudo que elas te dirão é certo, tudo que elas vão falar é correto. Não quer dizer que a interpretação delas de mundo esteja correta. Quer dizer sim, que ao ouvir a pessoa, você vai descobrir com o discernimento do Espírito, como dizer para ela, como conversar, como falar com ela. Dentro de uma diversidade, que é a pós-modernidade, a melhor coisa que a gente faz é antes de abrir a boca, ouvir as pessoas. O que eu posso fazer por você? Como eu posso te ajudar? Ouvir é a grande resposta prática para o mundo em que a gente vive.

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