Adolescentes brasileiras engravidam por opção?

Adolescentes brasileiras engravidam por opção?

Atualizado: Domingo, 3 Janeiro de 2009 as 12

Por Adriana Amorim - www.guiame.com.br

Em 2007, do total de nascimentos registrados no Brasil, aproximadamente 19% correspondiam a filhos de mulheres com idade entre 15 e 19 anos. Este percentual chegava a mais de 20% do total, quando somado à maternidade abaixo dos 15 anos. Na região Norte, aproximadamente 25% dos registros de nascimento eram de mães adolescentes. Os dados são do IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística e refletem a problemática da gravidez na adolescência no Brasil. Muitas mães são jovens de baixo nível sócio-econômico, que identificam na maternidade uma forma de desvencilharem-se dos problemas dos lares em que vivem, de constituirem uma nova família e uma oportunidade de sentirem-se amadas. A coordenadora do abrigo para mães adolescentes Rancho do Senhor, localizado em São Paulo (SP), Lilian Santos, conta que, com freqüência, ouve das garotas que chegam à instituição: "Eu queria engravidar". O abrigo acolhe adolescentes gestantes em situação de risco, vítimas de violência e abandono. Liderado pela Igreja Exército de Salvação, conhecida mundialmente por sua organização militar e grupos que atuam mundialmente em situações de emergência, o Rancho do Senhor foi reativado em 2007. Além de moradia, oferece orientação para jovens gestantes que não residem no local, como pré-natal, cuidados com o bebê, amamentação. A outra forma de atuação da instituição é a prevenir a gravidez na adolescência por meio de palestras em escolas, entidades, igrejas. Monitorado pelo Exército da Salvação, conta até 2010 com um financiamento do governo holandês, além do apoio de alguns colaboradores, entre eles, pessoas físicas e jurídicas. O projeto presta contas também ao governo brasileiro e passa assiduamente por auditorias.

Abrigo Acolhendo adolescentes entre 12 e 16 anos, o Rancho do Senhor tem capacidade para 16 jovens, que podem residir com outro filho de até cinco anos de idade. Lilian conta que as moças chegam à instituição por meio do Conselho Tutelar, da Vara da Infância e Juventude, ou entidades que tarabalham com a criança e o adolescente, como o Creca - Centro de Referência da Criança e do Adolescente ou Cedeca - Centro de Defesa da Criança e do Adolescente. Atualmente, vivem no Rancho nove moças. Lilian explica que a capacidade total não é preenchida principalmente pelo receio das jovens mães em procurarem estes centros de assistência: "Elas acabam procurando mais comunidades de bairro ou são encontradas por meio de uma denúncia de um vizinho, por exemplo, que sabe que ela está sozinha grávida ou também por uma questão dela estar sob ameaça. Ameaça do companheiro, do traficante da região que ela mora, por envolvimento com drogas, aí sim ela procura".

O período para permanência no abrigo é de até dois anos. O local possui áreas de convivência e quartos individuais para uma mãe com, no máximo, duas crianças. A equipe conta com duas psicólogas, que prestam atendimento individual (consulta) e coletivo (terapia), além de trabalho institucional; duas educadoras, que se revezam para estar em tempo integral; e uma coordenadora.

Jovens mães Oriundas, em geral, de famílias de baixa-renda, as adolescentes que chegam ao Rancho vêm de um lar desestruturado. Com rostos jovens, expressam timidez e tristeza por um passado de sofrimento. "Normalmente a família está desorganizada, então ela acaba buscando na gestação alguém que a proteja, que cuide dela, geralmente um companheiro mais velho. A gente já tem meninas com 15, 16 anos, que chegaram aqui na segunda gestação", afirma Lilian. Além dos conflitos familiares, algumas abrigadas possuíam envolvimento com drogas, álcool ou foram vítimas de violência.

A coordenadora conta que a gravidez traz às jovens mães uma nova estima por si mesmas: "Duas aqui estudam na mesma escola e se organizaram para fazer um chá de bebê. Elas são olhadas de uma outra forma. O fato de estarem grávidas chama a atenção".

Na visita do Guia-me ao Rancho, uma das moradoras do abrigo, uma jovem de 16 anos, trocava a fralda de seu bebê, que deveria ganhar um nome em inglês, mas acabou recebendo um nome bíblico. "Eu já estava com a placenta descolada, eu tinha usado bastante droga, ele poderia morrer, aí eu falei para Deus que se ele nascesse com saúde eu ía colocar esse nome. Mas no próximo eu vou colocar o outro", conta. Perguntada se pretendia ter um filho em breve, declarou: "Não. Eu já tenho uma filha. Vai fazer três anos. O juiz tomou de mim por alguns problemas, mas ele vai devolver [...] Este é quase o sétimo abrigo que eu passo. Nos outros eu fugia [...] Vim para cá quando estava grávida". Moradora de rua desde os 13 anos, ela conta que não vê a mãe, que cometeu alguns delitos criminais, há algum tempo. A respeito de seu pai, desabafa:  "Eu não tenho pai. Porque pai que estupra as filhas não é pai". Sobre sua próxima residência, após o abrigo, expressa: "Eu não sei. Eu não tenho casa ainda". Com muitas dúvidas sobre a vida profissional, seu sonho é "fazer faculdade para ser legista". "Mas eu não gosto de escola", confessa. A jovem relata que fez muitas amizades na igreja que freqüenta e que gosta de ouvir as pregações: "Eu confio em Deus [...] Se não fosse Ele eu estaria morta".

Os pais "A maioria dos pais não é presente", aponta a coordenadora. Lilian afirma que são comuns os casos de envolvimentos de homens mais velhos com as garotas, a diferença de idade chega a 20 ou 30 anos. Os relacionamentos amorosos estão muitas vezes ligados a situações de ciúme, agressão, e violência, e finalizam no momento em que a jovem descobre que está grávida. Em alguns casos, a coordenadora conta que é necessário o teste de DNA para confirmar a paternidade. Em outros, o pai pede à garota que realize um aborto..

Uma nova rotina "Aqui é como uma casa. A gente chama de abrigo porque é proteção, mas a gente tenta fazer como uma casa", explica a responsável pelo projeto Rancho do Senhor, capitã Philippa Chagas. Assim como em um lar, a capitã explica que as jovens precisam se sentir responsáveis como mães e possuir atividades diárias que as auxiliem a adquirir disciplina e entender a importância de um planejamento familiar. Na rotina das jovens, existem horários para lavar roupa, hora para o banho e a papinha das crianças, para o almoço, a escola."Vão à escola, participam dacomunidade local, freqüentam a igreja, fazem cursos profissionalizantes que as estruturam para o mercado de trabalho. Tudo que a gente consegue inserir na vida local, elas fazem, porque estão abrigadas, mas não privadas de liberdade", aponta a coordenadora Lilian Chagas.

Lilian relata que algumas adolescentes, que não acostumadas com a responsabilidade materna, desabafam: "Esse bebê dá muito trabalho". "Esse bebê é um filho para a vida inteira. Você vai ter que cuidar dele a vida inteira", responde a coordenadora, que explica que a decisão de residir no abrigo parte da adolescente: "Para ela ser abrigada ela faz uma entrevista. Então vem a pessoa do lugar que a está encaminhando, ela, alguém da família, quando possível. Então a gente explica o que é o abrigo, porque ela está vindo para cá, qual o motivo [...] É importante que ela queira ficar".

Apoio Espiritual Ao freqüentarem a Igreja do Exército da Salvação, as abrigadas estabelecem novos relacionamentos e apoio espiritual. "A gente acha importante no sentido de dar um apoio espiritual, enqüanto estão aqui, mas mesmo depois de sair é um vínculo. Elas já têm uma família cristã. Se depois elas forem para longe ou resolverem ir por outro caminho, vincular-se a outro lugar, não há problema. Mas no momento que elas saem têm uma família cristã que pode olhar por elas, sentirão falta delas se elas não estiverem ali, estarão orando por elas [...] A nossa missão é essa. Que cada uma das meninas possa ter uma transformação no seu dia a dia e espiritualmente. A vida delas como um todo", aponta a capitã Philippa.

No Rancho, agradecem a Deus pelo alimento diariamente e são estimuladas a serem gratas pelo lugar em que residem. "Elas têm muito essa questão de orarem antes do parto para que Deus as abençoe. Como é um momento mais sensível, elas acabam sendo mais abertas para receber um apoio espiritual. Agora a profissão da fé, a aceitação, é independente, se cada uma quiser", esclarece Lilian Santos.

Doações Apoiado pelo governo da Holanda até 2010, Philippa conta que é necessário que o Rancho seja subsidiado por recursos brasileiros, pois o apoio financeiro holandês, conforme acordo, diminui gradativamente. Atualmente, recebem de alguns comerciantes alimentação para o café, frutas, verduras e legumes. No entanto, materiais como fraldas e leite em pó são pagos pelo projeto. "Precisamos buscar doações locais", aponta a capitã. Lilian conclui: "O projeto não pode funcionar quatro ou cinco anos e parar".

Para conhecer o trabalho e contribuir com o projeto, entre em contato por telefone: (11) 2275-4487

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