Agnês: Aos 36 anos, matriculou-se em Enfermagem e atua hoje em Angola

Agnês: Aos 36 anos, matriculou-se em Enfermagem e atua hoje em Angola

Atualizado: Quarta-feira, 3 Fevereiro de 2010 as 12

No title Agnês Raquel Camisão Silva nasceu no dia 26 de agosto de 1963, no Jardim Eulina, bairro periférico da cidade de Campinas, SP. Terceira em uma família de quatro filhos, Agnês jurava que a mãe gostava mais da caçula. Do seu primeiro lar lembra-se apenas que, quando chovia, a água entrava na casa. A mãe cobria os filhos com plástico, todos subiam na cama e ficavam de cima olhando a água passar.

Seu pai, o seu Rafael, trabalhava como pintor, sua mãe, a dona Araci, era lavadeira. A renda dos dois daria para pagar um aluguel melhor. O problema era o vício de seu Rafael. Ele consumia tudo o que ganhava em bebida alcoólica, cigarro e jogo do bicho. Seu Rafael era conhecido como Camisão. Mulato, boa aparência, era o apitador da escola de samba do bairro. Dona Araci era negra, embora um dos avós fosse japonês. Era mulher lutadora, animada, bem vestida, disposta a acompanhar o marido nos pagodes da comunidade.

Foi nessa família que Agnês cresceu, cercada de irmãos, primos, tias, madrinhas e de toda uma comunidade que ia definindo o mundo para ela. Aos 17 anos, foi trabalhar como telefonista. Continuou trabalhando e estudando. No terceiro ano do segundo grau, resolveu voltar para o segundo ano colegial em uma escola técnica. Queria ter uma profissão e não acreditava que poderia algum dia freqüentar uma faculdade. Mas esse plano não deu certo e ela acabou conseguindo emprego no banco Itaú, onde ficou por oito anos. Ainda no Itaú, resolveu voltar a estudar. Dessa vez se inscreveu para um curso técnico em enfermagem no Serviço Nacional do Comércio (SENAC).

Durante todo o curso os professores insistiam com ela para que fizesse faculdade de enfermagem. "Você tem muito potencial," diziam-lhe. Em 1996, aos 32 anos de idade, Agnês criou coragem - fez vestibular na Pontifícia Universidade Católica de Campinas para o curso de enfermagem. Passou. Conseguiu crédito educativo para cobrir oitenta porcento dos custos da faculdade. Porém, não tinha dinheiro para os gastos com transporte, roupas, sapatos, livros, remédios.

Foi a comunidade que lhe deu o apoio de que precisava. A mãe voltou a costurar para vestir a filha; a pastora da igreja que freqüentava lhe dava tecido, ajuda em dinheiro; uma senhora da mesma igreja lhe dava vales-transporte; uma outra lhe dava cem reais todo mês. Pai, irmãos, cunhada, ex-colega de trabalho, amigas da escola, todos ajudaram a manter a Agnês na faculdade. O diploma dela é comunitário!

Ao se formar, Agnês sentiu-se chamada a retribuir tudo o que havia recebido. Depois de alguns anos em Minas Gerais, preparando-se para missões, período em que conheceu e depois casou-se com o Obadias, Agnês está hoje concluindo um ano de trabalho como enfermeira em Angola.

Agnês está convencida de que o seu caminho é ajudar pessoas excluídas do atendimento básico de saúde. Quer dedicar seu tempo e esforços devolvendo às comunidades mais carentes todas as bênçãos que recebeu da sua, quando precisou. (E.G.)

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