Carlos Alberto Bezerra Jr. alerta agentes sociais em encontro da Renas: "Abuso sexual também acontece em abrigo"

Carlos Alberto Bezerra Jr. alerta agentes sociais em encontro da Renas: "Abuso sexual também acontece em abrigo"

Atualizado: Sexta-feira, 23 Outubro de 2009 as 12

Por Adriana Amorim www.guiame.com.br

"Em abrigo também acontece abuso. Abuso também acontece em creche".A afirmação do vereador Carlos Alberto Bezerra Jr. (PSDB), que esteve ontem, 22, no Instituto Betel Brasileiro, em São paulo (SP), em encontro da Renas (Rede Evangélica Nacional de Ação Social), evidencia o propósito da reunião: chamar a atenção dos agente sociais para o problema da violência sexual infantil e o papel de cada um quanto à prevenção e denúncia.

Antes da apresentação de alguns resultados e medidas da CPI para o "Enfrentamento à violência sexual infanto-juvenil", da qual é relator, Carlos Alberto Bezerra Jr. falou aos presentes sobre o episódio da última segunda-feira, 19, quando 13 vereadores da Câmara Municipal de São Paulo, tiveram seus mandatos cassados por acusação de fraude eleitoral. Bezerra, que tem seu nome entre os citados na lista, ressaltou que a doação da AIB (Associação Imobiliária Brasileira) foi oficial, autorizada pelo TRE - Tribunal regional Eleitoral, e sempre esteve disponível na internet.

"A Soninha [vereadora de São Paulo] disse: 'Carlos Alberto, se você está nessa lista, eu não posso acreditar nela'. [...] O pastor Ariovaldo Ramos acabou de postar um artigo em meu site. Ele falou: 'Fique tranquilo, porque eu faço questão de dar o meu testemunho pessoal do que eu conheço, daquilo que está acontecendo'. Eu milito em um campo diferente. Fui militante da área social por muitos anos, daí fui para a política. Só que o campo da política é completamente diferente, é o campo do tiro, da guerra, de um fronte avançado. Mesmo você tendo todos os tipos de cuidado, a esse tipo de coisa você está sujeito. Estou tranquilo. Deus é minha justiça [...] Nós vamos avançar muito mais. Meu último pedido em relação a isso é: 'Orem por mim'".

O encontro reuniu líderes de organizações como Lar Batista, Jeame, Jocum, Vale da Bênção, Comunidade da Graça, Lar Nefesh, Casa de Jesus, Abenf, ABVN, Diaconia Integral, Comunidade Conquista. Também estava presente Alexandre Gonçalves, supervisor do programa Claves, que atua na prevenção prevenção à violência e promoção de bons tratos. O programa, que nasceu no Uruguai em 1995 e recebeu desse país o certificado de utilidade pública, prepara profissionais que lidam com crianças, adolescentes e seus familiares, a atuarem em situações delicadas, como a de um abuso sexual. No Brasil, o curso ministrado pelo Claves, "Brincando nos fortalecemos para enfrentar situações difíceis", é ministrado por meio de material e oficinas lúdicas.

"Estamos com esse time aí, caminhando, fortalecendo. É uma rede que também vai fazer um trabalho muito focado na questão do enfrentamento da violência infanto-juvenil, especialmente os temas ligados à questão da pedofilia", falou o pastor Tércio Sá Freire, um dos gestores da Renas São Paulo. Uma das gestoras nacional, Debora Fahur, também participou da tarde.

CPI - Mudança de nome

Carlos Alberto contou que há seis anos tem atuado nas questões que envolvem a proteção à criança e ao adolescente: "Eu comecei a trabalhar um projeto de lei, que depois se tornou lei aqui em São Paulo, que obriga que todo servidor público, municipal, que lida com criança, esteja capacitado para reconhecer sinais de abuso sexual nas crianças".

Conhecida inicialmente como "CPI da Pedofilia", a CPI para o "Enfrentamento à violência sexual infanto-juvenil" teve seu nome alterado após um embate de opiniões na Câmara de São Paulo. O vereador narra que sofreu críticas de que a intenção da mudança de nome era apenas intelectual. No entanto, Bezerra Jr. esclare: "Eu me perguntava: 'CPI da Pedofilia?Como assim? O que significa? Nós vamos investigar a pedofilia?' Pedofilia é uma patologia. Nós vamos investigar isso ou a violência sexual contra a criança e o adolescente? Ou é uma comissão parlamentar de inquérito para fazer o enfrentamento disso?".

Segundo o vereador, a alteração do nome possibilitou a mudança de enfoque. Ele citou o caráter "policialesco", segundo ele, da CPI do Senado, que também debate o tema. Na opinião do vereador, quando não se constrói uma boa estrutura de apoio às crianças vítimas de abuso, elas são revitimizadas. "Denunciar não é o problema, o problema é garantir que a rede funcione. Garantir que não aconteçam os absurdos de hoje nos canais. A delegacia não se comunica com a unidade de saúde, que não se comunica com o IML, que não se comunica com o centro de referência. Então assim, em cada lugar que a criança vai, ela repete o depoimento. Imagina o trauma. De que adianta aumentar a denúncia se você não tem recurso e nem programa para cuidar da criança e da família?", questionou.

Em entrevista ao Guia-me, Bezerra Jr. contou que a CPI está em fase final de investigação, que "percorreu o caminho" pelo qual a criança passa quando é abusada sexualmente. "A gente foi no Creas (Centro de Referência Especializado de Assistência Social) da Sé, ver o atendimento, viu as debilidades. A gente está vendo as dificuldades estruturais dos conselhos tutelares, a baixa capacitação dos conselheiros para o acolhimento, a baixa estrutura de recursos que é oferecida aos conselheiros tutelares [...] Vamos terminar com um relatório que vai propor uma reestruturação da rede".

Epidemia Social

Durante a palestra, Bezerra Jr. mostrou um gráfico, criado por Jeferson Drezett, coordenador do Serviço de Ação Integral do hospital Pérola Byington, que apresentou indíces de abuso de crianças, adolescentes e mulheres adultas, no período de 1994 a 2008.

Segundo o gráfico, o número de crianças abusadas vem crescendo, especialmente quando comparado aos abusos de mulheres adultas e adolescentes. Bezerra Jr. atribui essa alteração a dois fatores: os mecanismos de denúncia mais disponíveis à sociedade e o abuso sexual infantil como "uma epidemia social, uma doença de nosso tempo".

Mitos

A ideia de que o abusador um "monstro", de acordo com o vereador, não passa de um mito. Em dados apresentados em slides, Bezerra Jr. apontou que em 71% dos casos o abuso é intrafamiliar, dividido em: 44% de pais, 17% de padrastos e 10% de tios. "Mas existe um outro número que está crescendo. Vocês estão sentados?", questionou Bezerra Jr. E completou: "Entre os avós. Os pais saem para trabalhar e os avós abusam dos netos e netas".

Entre membros da Igreja - líderes das organizações e redes que fazem parte da Renas - Carlos Alberto Bezerra Jr. declarou: "Isso se enfrenta também com joelho em terra, é o ministério da Iniquidade".

Cartilha

Pensando em fornecer um guia de referência mínimo à população, especialmente pais e educadores, Carlos Alberto Bezerra Jr. também criou uma cartilha que apresenta sete passos para combater o abuso sexual de crianças.  Quero que as pessoas digam: "Eu sei reconhecer, fazer a denúncia, eu sei encaminhar".

"Não espere sinais óbvios"

A palestra apresentou uma lista de comportamentos corporais da criança, como: "enfermidades psicossomáticas, doenças sexualmente transmissíveis, dor e sangramento nas áreas genitais, roupas íntimas rasgadas, lesões corporais",  e comportamentais, como: "medo de escuro; mudanças subitas de comportamento; mudança de hábito alimentar; relacionamentos com muitos segredos; fugas frequentes de casa", que podem demonstrar que uma criança está sendo vítima de abuso.

Segundo o vereador, apenas 40% das crianças têm sinais físicos que evidenciam o abuso, por isso, deve-se estar atento. "Em um dos casos que chegou na CPI, dois conselheiros tutelares foram a uma casa visitar uma família onde havia uma denúncia de abuso. Enquanto eles entrevistavam os pais, sentados na cozinha, a menina que estava sendo vítima de abuso não havia falado nada, negou, não conseguia falar. Ela estava lavando louça, o conselheiro, que era um cara treinado, ficou olhando para o comportamento dela. De repente ele prestou atenção e percebeu que a menina pegava a palha de aço e esfregava as palmas das mãos até sangrarem. Era a forma com a qual ela estava fazendo a denúncia", contou Bezerra Jr..

Outro exemplo citado foi uma figura feita por uma criança de 10 anos, vítima de abuso sexual, a quem foi solicitado o desenho do rosto de seu pai. A primeira vista, o desenho transmitia diferentes sensações, como susto, sarcasmo e malícia. Analisando a imagem em duas partes, a surpresa. A expressão da figura no lado esquerdo evidenciava serenidade e um sorriso. No canto direito, a boca da figura estava cerrada, numa expressão de violência e perversidade.

"Com o apito na mão"

"Eu queria estimular vocês a fazer um diálogo político saudável, com as câmaras, com os deputados. É importante as nossas entidades estarem articuladas nos coselhos, no CONGRECA, nos conselhos municipais, porque eu vou falar para vocês gente: 'Quem milita no campo sente falta de uma articulação maior nossa, firme, que possa fazer esse diálogo mais forte com o setor público'", alertou Bezerra Jr.

Questionado sobre a impunidade, apontada como um dos facilitadores para que crimes de abuso sexual aconteçam, o vereador afirmou que lamentavelmente a média de punição no mundo ao agressor é de apenas 6% do total.

Demonstrando a responsabilidade como militantes da área social e cristãos, Carlos Alberto Bezerra Jr. narrou uma história real, descrita no site do jornalista Gilberto Dimenstein: "Havia um setor em especial da periferia do Recife com altíssimos índices de violência contra a mulher, e os caras fazendo política pública, investindo em recursos, mas nada resolvia. Até que a comunidade decidiu que a solução deveria vir dela. O governo apoia, mas a sociedade tem que se organizar. Eles capacitaram as mulheres a reconhecerem a violência, porque tem muito da cultura, aquela coisa: 'Eu não sei porque estou batendo, mas você sabe porque está apanhando. Um pouco da cultura brasileira. Capacitaram as mulheres e fizeram só uma iniciativa, distribuíram apitos e disseram: 'Na hora que você ouvir que sua vizinha está apanhando, que o marido dela chegou cheio de cana na cabeça e começou a dar umas bolachas nela, você apita, e a hora que você ouvir alguém apitando, nem pergunta, apita também [...] Aquilo vai fazendo uma onda na comunidade. Primeiro impacto: o cara que ouviu o apito pensa: 'Opa, me viram aqui, deixa eu parar'. Segundo: a Polícia fica constrangida, precisa correr até o local. Resultado: Os índices caíram [...] O nosso papel é distribuir apitos e apitar o mais alto. Seja na Câmara, na Assembleia, na rua, na sua entidade, na Igreja. Onde a gente for, o apito deve estar sempre na mão".

Para Marli Marcandali, presidente do Ministério Jeame, que apoia crianças em situação de risco em São Paulo, o encontro foi "encorajador": A gente que trabalha com crianças de rua sabe que há um alto índice de abuso. Para as meninas, por exemplo, sabemos que mais de 90% foram abusadas em casa [...] Ainda é um assunto que tem muito a ser falado e discutido, mas eu estou super animada com isso, foi encorajador para mim [...] Esse trabalho de trazer à tona a problemática, que nós somos os responsáveis como cristãos para sermos o apito da sociedade, achei bárbara essa ideia".

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