Cinco dias no Haiti - Por Catiuska Peres

Cinco dias no Haiti - Por Catiuska Peres

Atualizado: Sexta-feira, 5 Fevereiro de 2010 as 12

No title "Nunca vi nada igual a isso na minha vida"… "é como se uma bomba tivesse caído e destruído tudo". O enfermeiro e pastor Carlos Más não encontra as palavras corretas para descrever as cenas e as primeiras impressões de sua visita ao Haiti.

O país está devastado. Não há comida, não há água, e há mais doentes e feridos do que a equipe médica consegue atender, nos hospitais de campanha que foram montados provisoriamente em Porto Príncipe, capital do país. Em um desses hospitais 20.000 pessoas estão sendo atendidas nesse momento. Vocês podem imaginar!

As ruas têm cheiro de morte e desespero, e as multidões lutam exaltadas pelas escassas provisões básicas para sobrevivência. A remoção dos escombros já não é a prioridade. O panorama gera um sentimento de impotência. Tudo o que é feito parece ser nada frente à magnitude do problema.

De acordo com Carlos, não é comum escutar as pessoas se queixando ou reclamando do que aconteceu, do terremoto em si, mas sim estão lutando pela água e por alimentos, principalmente por água. Nesse momento há muita violência nas ruas. Simplesmente não se pode sair. Quase não há água e a pouca água que há ou está contaminada ou custa muito caro. "Uma garrafa de água chega a custar 7 dólares", conta o Carlos.

O acampamento onde estava a delegação de médicos da qual Carlos fazia parte era dentro da propriedade de uma igreja cristã e ali ele teve a oportunidade de servir como enfermeiro, e também como pastor. Ele era como um ímã para as crianças, servir-lhes era a sua vocação.

Foi assim que ele começou uma amizade com "Maurício" e com outras crianças que estavam refugiadas no pátio da igreja. Conta que durante várias vezes por dia "Maurício" ia dizer a ele "estou com fome", mas não havia muito o que Carlos poderia fazer nesse sentido, pois todos os que estavam ali só tinham direito a uma ração de alimento por dia.

"Às 5 da tarde um prato de arroz com feijão é servido, e isso é tudo". É tudo? Sim, é tudo e é muito, quando comparado a outros haitianos que estão completamente desamparados e vagando sem rumo pelas ruas e parques, sem ter uma casa para onde ir, com seus familiares debaixo dos escombros, sem dinheiro, sem água e sem comida.

A agenda de trabalho desta equipe médica foi bem intensa. Carlos esteve cinco dias em Porto Príncipe, dormindo numa barraca de campanha, sem colchão, sem accesso à internet, telefone, nem lugares onde comprar alimentos ou água. No primeiro dia ali não pode comer nada e, nos outros dias, não teve muita água para beber. Confessa que era tanto trabalho que nem sentia fome, mas sentia sede, por causa do calor que fazia.

Carlos comenta que foi muito útil a maleta de remédios que levou com ele, graças a doações recebidas na Costa Rica, especialmente os antiinflamatórios.

Muitas histórias partiram o coração dele, e vamos compartilhar aqui três delas. A primeira é a de um menino que perdeu toda a sua família, exceto o pai, que o levou ao centro médico para que curassem o pé do menino, que tinha fissuras em todos os ossos dos dedos. A segunda é a de um senhor idoso que passou mais de 12 dias debaixo dos escombros e conta que sobreviveu comendo pasta de dentes. E a terceira é de um menino de cerca de 10 anos que o chamava chorando para que lhe dessem algo para acabar com a dor, pois suas duas pernas tinham acabado de ser amputadas. O difícil e triste é que até a morfina e tratamento para a dor são escassos no Haiti nesse momento.

Carlos regressou ao Brasil, depois de 5 dias no Haiti. Volta com um peso grande em seu coração. Tem disposição e desejo de voltar ao país para executar projetos que beneficiem a infância e a sociedade haitiana, de maneira integral.

Carlos Más trabalha na Associação Crianças de Belém, em Sorocaba (SP), organização cristã que assiste crianças com HIV/Aids. Faz parte da Rede Mãos Dadas. Ele viajou ao Haiti, como enfermeiro, pela Associação Missão Esperança (AME) em parceria com a Rede SOS Global.

Catiuska Peres é jornalista da VIVA, organização cristã parceira da Rede Mãos Dadas.

veja também