Coluna Lissânder Dias - Debaixo das árvores...

Coluna Lissânder Dias - Debaixo das árvores...

Atualizado: Terça-feira, 26 Fevereiro de 2008 as 12

Debaixo das árvores... Era final de tarde. Nós, debaixo das agradáveis árvores da paisagem nortista. O calor era grande, mas lá debaixo delas não.

O culto havia começado, e como sempre, iniciado com cânticos. Naquela época, eu sonhava muito. Não somente porque tinha apenas 18 anos de idade, mas porque realmente acreditava que Deus estava presente ali, e que cada sorriso, cada abraço, cada oração... eram reações nossas de gratidão a Ele.

Era assim que eu entendia a ação missionária. Meus olhos não estavam nas estratégias, mas sim nos efeitos de viver em missão: comunhão com Deus, alegria, amor pelo outro, fidelidade... Era isso que me fascinava e me fazia sonhar.

Com o tempo, fui sendo convencido de que o mais importante em termos de Missões eram as estratégias. Aprendi conceitos como "países não-alcançados", "janela 10x40", "missão transcultural", "chamado vocacional", etc. Bons e necessários conceitos.

Mas o meu problema era que ao mesmo tempo que aprendia estratégias, fui me distanciando cada vez mais dos efeitos da Missão. Gradativamente, fui me tornando insensível com as pessoas (apesar de ter "paixão pelas almas"). Aos poucos, fui vendo um mundo cheio de números e esquecendo do mundo cheio de histórias de vida. Passei a ter uma visão de almas e não de pessoas e suas necessidades. De futuro, e não de presente.

Hoje, com 29 anos, ainda me lembro daqueles domingos debaixo das árvores num vilarejo próximo a Castanhal, no estado do Pará. Semanalmente, eu saía de carro acompanhando um casal de missionários neozelandeses que vivia no Brasil há mais de dez anos. Confesso que Deus moldou muito minha fé naqueles dias. A fidelidade e a perseverança daquele casal ainda são exemplos para mim. Meu batismo foi dentro de um igarapé próximo daquelas árvores que nos abrigavam dominicalmente.

Minha visão de Missões agora considera toda a complexidade da vida e toda a ação soberana de Deus. A parábola da semente contada por Jesus nos ensina isto (Mc 4.26-29). A tarefa missionária se torna ainda mais difícil, mas também mais rica e prazerosa. É muito bom ver pessoas, por exemplo, renunciando diante de Deus ao seu egoísmo e transformando sua vida e sua comunidade. Cada ser humano tem uma dignidade intrínseca, e esta dignidade nenhuma estratégia (por melhor que seja) pode dimensionar. Quando a obra de Deus é feita, o mundo sofre conseqüências incríves e surpreendentes.

Poucos anos depois, Roland e Ruth Stark tiveram que voltar à Nova Zelândia. O trabalho deles não foi considerado frutífero. Mas no lugar onde eles fizeram diferença... lá os parâmetros são outros.

Lissânder Dias do Amaral é jornalista e coordenador executivo da revista Mãos Dadas (www.maosdadas.net). Formando em Missiologia, pela Centro Evangélico de Missões. Casado com Kelen, mora em Viçosa (MG).

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