Coluna - Reverendo Cácio Silva

Coluna - Reverendo Cácio Silva

Atualizado: Terça-feira, 5 Agosto de 2008 as 12

Outro dia fiz um pequeno agrado a uma criança indígena Yuhupdeh. Rapidamente seu pai instruiu sua filhinha: "filha, agradeça ao nosso patrão"! Aquilo soou mal aos meus ouvidos. Patrão?! Tudo o que quero é que me veja como amigo e ele me chama de patrão?! Lembrei-me de William Reyburn e sua experiência entre os Quéchuas dos Andes Equatorianos.

Missionário entre aquele povo, se sentia frustrado nos seus esforços de contextualização sempre que se dirigiam a ele chamando-o de "patrón" ou "patroncito". Essa era a forma que os Quéchuas tratavam os brancos da região, que geralmente tinham atitudes imperialistas e discriminatórias para com os indígenas.

Desejoso de identificar-se o máximo possível com o povo, Reyburn decidiu morar numa choupana de barro e sapé sem mobília, usar roupas típicas e comer comida indígena. Perseguido pela desconfortável expressão "patrón", questionou a forma que se referiam a ele alegando que também não tinha terras. Mas os Quéchuas justificaram que ele usava sapatos de couro. Reyburn passou a usar alpargatas feitas no local, com sola de fibras e a parte superior de tecido. Continuaram chamando-o de "patroncito", agora alegando que ele se relacionava com os habitantes de origem espanhola da região, identificando-se assim com a classe dos patrões. Reybourn esforçou-se para não ter contato com os moradores da cidade e pôs-se a trabalhar com os indígenas na construção de uma estrada por dois meses, até ficar com mãos ásperas e calejadas. "Agora não podem mais me chamar de 'patroncito', pois trabalho com vocês", disse ele, mostrando suas mãos esfoladas. A verdade final saiu então de um indígena alcoolizado: "nós o chamamos de 'patroncito' porque você não nasceu de mãe índia!".

Todo missionário esforça-se para identificar o máximo possível com o povo com o qual trabalha. A língua, o estilo de moradia, a alimentação, as regras de comportamento e os princípios de comunicação são elementos que podem nos aproximar ou afastar do povo. Chamamos o esforço pela aproximação de contextualização. É uma tentativa de minimizar o "diferente", possibilitando uma convivência e comunicação relevante. É o princípio usado por Paulo, que se fez de judeu para ganhar judeus e de gentio para ganhar gentios. Mas por maior que seja o esforço, sempre esbarraremos em alguns limites.

No caso do Reyburn era um limite étnico: você nunca será indígena porque não é filho de índia! No meu caso, um limite sociolingüístico: na língua dos Yuhupdeh, a mesma palavra usada para "patrão" é também usada para "branco" (ou não-indígena), ou seja, você é patrão porque é branco! No seu caso pode ser a faixa etária, o nível socioeconômico, a formação acadêmica ou algo assim.

Creio que, apesar da necessidade de nos contextualizarmos, o grande diferencial é o amor. Jesus era judeu, mas tratava os samaritanos com amor e por isso era visto como um judeu diferente. Os limites da contextualização são ultrapassados pelo amor manifesto na convivência e no modo de ser.

Você comunicará o evangelho de forma relevante àquela pessoa que deseja alcançar, quando minimizar o "diferente" entre vocês e, sobretudo, quando tratá-la com amor.

Cácio Silva é pastor presbiteriano e missionário da WEC Brasil/Missão AMEM, juntamente com sua esposa Elisângela, entre indígenas na Floresta Amazônica. Professor de fenomenologia da religião, lingüista responsável pela ortografia da língua Yuhup e pela produção de material didático na mesma. Tem bacharelado em teologia (EBPS/FTSA), mestrado em missiologia (CEM) e habilitação em lingüística (ALEM).

veja também