Crise de identidade... da geladeira!

Crise de identidade... da geladeira!

Atualizado: Quarta-feira, 30 Janeiro de 2008 as 12

Coluna - Pr. Cleydemir Santos Crise de identidade... da geladeira!

Você pode achar que não tem nada a ver. Uma geladeira é um ser inanimado, um objeto criado pelo homem para seu uso e prazer. Concordo com você. Espero que você não ache que estou ficando lelé (psicólogo doido, grande novidade!) e consiga ler meus argumentos.   

Imagine se a peça em questão não fosse apenas um eletrodoméstico! Se pudesse expressar emoção de prazer e frustração, como seria nestes dias de calor? "Não tem água na geladeira!". "Esta geladeira não  está gelando nada". "Esta geladeira só pode estar com defeito; a comida azedou, de novo".   

Coitada! Deu tudo o que tinha, trabalhou no máximo de sua potência, mas eles querem mais e mais. Demoram para guardar a comida que estragou antes de ser depositada nela, mas de quem é a culpa? Dizem que é dela. Não queria ser geladeira, nem daquelas grandonas, pois seria culpado também de gastar muita energia; nem daquelas que não fazem gelo (não arrisco escrever o nome), pois os mais antigos não acreditam que ela faça bem o seu serviço. Mais culpa.

Culpa! Palavra difícil de carregar, pois é assim mesmo, culpa não é palavra falada, mas vivida, carregada. Esqueça a culpa. Voltemos para a geladeira.   

Recebemos dia desses, em nossa casa, a convite meu de última hora (sugiro que os maridos não façam isto, combinem com antecedência com suas esposas) a missionária Dunalva, enviada desta cidade para o Timor Leste.   

Falamos do calor aqui e comparamos com o daquele país em guerra. Narrou-nos a maneira como morreu o missionário assassinado por uma flecha envenenada naquele país. Ele tentou, como uma geladeira no  verão, agrupar missionários e orar pela unidade das igrejas e a paz no Timor Leste. Esforço pouco valorizado pelo povo para o qual deu a sua juventude, juntamente com sua irmã que ainda está naquele país, como uma geladeira no verão, dando tudo de si, sem palavras de gratidão.   

Falamos também e oramos pela missionária Isabel, da Igreja Batista Shallon, que só soube da morte do pai, dias depois que estava enterrado. Não por coincidência, Dunalva deu a notícia, por telefone, à querida colega de campo que meses antes teve a responsabilidade de informá-la, também por telefone, da morte de sua mãe enquanto estava em uma ilha daquela região.   

Desta conversa do calor e das crises dos missionários, na mesa de almoço, surge a idéia da crise de identidade das geladeiras. Lembrei que, em Angola, as geladeiras sofrem mais porque a energia elétrica vai e vem sem critério e, às vezes, são usadas como armário e não como geladeira. Menos valor e mais cobrança.   

A crise maior é das geladeiras no verão ou dos missionários nos quentes campos brancos (e minados)? Pouco lembrados, pouco participantes da realidade de suas famílias, pouco visitados. Pouco pastoreados. Muito usados enquanto têm saúde, mas abandonados quando há uma crise financeira na igreja local.  

Meu Deus, se ser geladeira é difícil, imagine ser missionário! Geladeira não tem sentimento, mas o missionário tem. Não se preocupe com ela, mas comece a se preocupar com eles. Deus não pedirá conta da crise das geladeiras, mas a situação de nossos missionários é de nossa responsabilidade e dela Ele nos pedirá conta.   

Cleydemir Santos é pastor, psicólogo e teólogo em Minas Gerais. Trabalha com uma abordagem sistêmica, psicodramática, no atendimento de adultos e crianças.

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