Doação: muitos significados, o mesmo objetivo

Doação: muitos significados, o mesmo objetivo

Atualizado: Quinta-feira, 27 Janeiro de 2011 as 10:23

A palavra doação tem diferentes significados para quem vive a tragédia que as chuvas provocaram na região serrana do Rio de Janeiro. Porém, desde os voluntários dos chamados órgãos oficiais, como Exército, Cruz Vermelha e Corpo de Bombeiros para quem os donativos são fundamentais, mas em excesso ou sem organização podem até atrapalhar até os desabrigados, todos concordam que a solidariedade do povo é a base que mantém, ainda vivas, comunidades inteiras. “Por favor, não esqueçam da gente aqui”, é o clamor de Alexandro Maxwel, de 38 anos, quando questionado se os donativos que chegam estão sendo úteis.

Alexandro vive há mais de uma semana, ao lado da esposa e mais 19 famílias, num abrigo improvisado na escola estadual Eduardo Breder, de Nova Friburgo. No dia da chuva forte, eles resolveram ir dormir na casa da sogra, “nem sabemos por que”. A decisão livrou o casal da morte, já que a casa que eles moravam foi levada pelas toneladas de lama e água que desceu do morro, e o colocou como uma peça importante para aquela comunidade. Hoje braço direito do Corpo de Bombeiros para a atuação no bairro Campo do Coelho, Alexandro salvou vidas, resgatou corpos e ainda tenta enxergar perspectivas de ter sua rotina de volta.

“Estou comendo e vestindo coisas que foram doadas. Me sinto até constrangido com isso”, confessa. O medo, que faz chorar, é de que a administração municipal de Nova Friburgo não consiga dar a assistência necessária às milhares de pessoas que precisam de ajuda neste momento. Isso porque, com o passar dos dias, as chamadas frentes oficiais de socorro tendem a deixar a cidade e a abrir espaço para ações locais, como programas de aluguel social e construção de casas populares.

“Infelizmente, tenho certeza que a Prefeitura não vai fazer nada pela gente, como não fez até agora. Já tivemos outras chuvas no passado e só promessas de que os atingidos ganhariam casas novas”, reclama. O futuro preocupa, pois o emprego como soldador já não é mais garantido porque, depois da tragédia, não foi trabalhar nenhum dia. “Aqui, quem tem que agir é o governo federal. Espero que a Dilma faça isso, porque votei nela. A única coisa que eu posso pedir é que as pessoas continuem doando”.

No mesmo abrigo está Sirléia do Nascimento Cabral, de 39 anos, e um dos seus oito filhos. Com desenvoltura e liderança na coordenação do apoio aos desabrigados naquela escola apesar da dor de ter sua casa condenada e ter trabalhado, inclusive, no resgate de corpos de amigos e vizinhos ela confirma que ninguém está passando necessidade por lá. “Pode falar que as doações estão chegando e sendo muito importantes para nós. Se não fossem elas, não sei como estaríamos vivendo”. Neste abrigo, as 20 famílias recebem, diariamente, café da manhã, almoço, lanche da tarde e jantar. Tudo é feito por grupos de mulheres, também vítimas das chuvas, que se revezam entre as refeições. “Todos os dias passam aqui para deixar alimentos”.

Os donativos também estão chegando às vítimas por meio dos centros de distribuição. Num deles, em Nova Friburgo, a cargo do Batalhão de Operações Especiais do Rio de Janeiro (Bope) com o apoio do Exército, as pessoas que necessitam podem retirar a ajuda. Marco Antônio de Almeida, de 37 anos, e o cunhado Celso Alves, de 46 anos, foram buscar alimentos para suprir a família que vive no distrito de Pilões. “A barreira passou a 30 metros da nossa casa e o caminho para chegar de lá até aqui só foi liberado ontem. Levaram alimentos para nós de helicóptero, mas agora fica mais fácil tirar aqui”, disse Marco.

Sem desperdício

O grande fantasma das equipes que trabalham na arrecadação de donativos e no recebimento das doações que chegam dos quatro cantos do País é o desperdício. Em cada uma das cidades da região serrana, não existe apenas um, mas vários galpões, ginásios, estacionamentos, enfim, áreas grandes lotadas de donativos. Os alimentos, apesar do grande volume, ainda precisam continuar chegando, já que a previsão das equipes de apoio aos desabrigados é de que os trabalhos prossigam por, pelo menos, mais oito meses. Por outro lado, itens como roupas e sapatos já não estão mais sendo aceitos. “Pelo amor de Deus, não temos condições de receber mais roupas” é o apelo dos organizadores da distribuição.

Segundo Daniel Coelho, presidente da Cruz Vermelha de Nova Iguaçu, já é possível vestir milhões de pessoas. “Estamos recebendo também muita doação de roupa de outros países. Somente num dos postos de Nova Friburgo, uma montanha de peças se acumulava na manhã de ontem. Sem condições de fazer a triagem deste material - não somente entre itens para adultos e crianças, homens e mulheres, mas também por tamanhos a organização deixou livre para que as pessoas, que chegam em busca de ajuda, escolham o que querem levar. A decisão também levou em conta o fato de que muitas peças não têm condições de uso.

“Vemos que 50% deste tipo de donativo são coisas que as pessoas não querem mais usar”, falou Daniel. Já os sapatos, aos milhares, não estão com os pés juntos - a falta do cuidado de amarrá-los, na doação, torna a missão de achar um par quase impossível. “Peguei algumas camisas para meu filho, que está muito machucado. A casa dele foi atingida e ele está abrigado comigo. Se salvou, foi um milagre”, contou José Francisco da Silva. “Doar não é fazer limpeza no guarda-roupas, trazer o que não serve mais”, repetem os voluntários. Neste ponto de distribuição, o restante dos donativos alimentos, material e higiene, limpeza e água tem sua distribuição controlada.

Um tesouro

Além dos alimentos, alguns outros tipos de donativos estão sendo tratados como verdadeiros tesouros pelas equipes de apoio aos desabrigados. De todos os itens vindos de Sorocaba que desembarcaram na sede da Cruz Vermelha, no sábado, alguns receberam cuidados especiais. As caixas de material de uso médico, como máscaras e soro, fazem os olhos dos voluntários brilharem.

Assim que o caminhão chegou em Nova Iguaçu, Daniel perguntou: “o que vocês trazem?”. Com a informação de que a carreta trazia os itens tão escassos, ele determinou: “Separe esse material já. O resto vai para o contêiner, que sobe a serra amanhã de manhã”.

Além das doações menores com destaque para alimentos, produtos de higiene e limpeza e água - a Cruz Vermelha também pede a ajuda de empresários que queiram ceder carros e ônibus para o transporte das equipes, material de identificação das mesmas (camisetas, adesivos, etc) e alimentação dos voluntários.

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