Entrevista missionária Durvalina Bezerra: "Não se faz ministério sem doação de vida"

Entrevista missionária Durvalina Bezerra: "Não se faz ministério sem doação de vida"

Atualizado: Terça-feira, 16 Junho de 2009 as 12

Por Adriana Amorim

Teóloga pelo Seminário Betel. Missióloga pelo Centro de Treinamento da WEC-AMEM, na Austrália. Pedagoga formada pela Universidade Federal da Bahia. Mestre em Educação pela Universidade Mackenzie. Vice-presidente da AME - Associação Missão Esperança, integrante da diretoria da Missão Antioquia. Diretora do Seminário Betel Brasileiro em São Paulo e Coordenadora Geral do Ensino do Instituto Bíblico Betel Brasileiro. Professora nos Centros de Preparo Missionário da Missão Juvep - Juventude Evangélica Paraibana, Missão Priscila e Áquila e Jami - Junta Administrativa de Missões. Conferencista internacional. O currículo profissional e ministerial de Durvalina Bezerra evidencia experiência e erudição. Mas o conhecimento que a missionária busca ultrapassa o raciocínio humano e pode ser encontrado na passagem bíblica de Jó 28:28: "O temor do Senhor é a sabedoria e afastar-se do mal é o entendimento". O versículo finaliza o capítulo no qual Jó explana sobre o valor da sabedoria e a incapacidade do homem de encontrá-la sem Deus.

Em entrevista ao Guia-me, Durvalina Bezerra falou em tom manso, mas carregado de autoridade espiritual, sobre o papel do Brasil no cenário mundial de evangelhização, dificuldades para que exista uma consciência missionária no país, trabalho do Instituto Betel e as características de um missionário aprovado por Deus. A missionária revelou como foi sua chamada para a obra e sua vocação. Com os olhos cheios de água, Durvalina expressou: "Eu quero servir a Jesus para sempre".

Guia-me: A senhora concorda com a opinião de muitas nações que vêem o Brasil como um celeiro de missões? Há realmente um avivamento missionário?

Missionária Durvalina: Na verdade, o Brasil passa por um mover do Espírito Santo. Alguns chamam isso de avivamento, mas eu prefiro dizer que é um mover do Espírito Santo. Por quê? A gente percebe o crescimento da igreja evangélica brasileira. Mesmo que a gente saiba que dentro dos segmentos da igreja há muitos grupos que nos entristecem com algumas práticas que não são tão bíblicas. Mas, na verdade, Deus está agindo. Porque se nós formos olhar a história, há 30, 40 anos, a igreja brasileira não tinha presença na sociedade. Eu digo com muita certeza, porque quando meu pai se converteu, minha mãe foi contra. Naquela época ser crente era uma coisa deplorável. Então, houve um avanço! A igreja evangélica está em todos os segmentos da sociedade, são cantores, artistas, políticos. Não quero tratar a questão de igreja A, B ou C, o mau testemunho que existe. Eu estou trazendo a questão de que há um mover de Deus e que a igreja evangélica está crescendo no Brasil e disso não se pode duvidar. Agora, com esse crescimento, veio o movimento missionário brasileiro. Quando o Espírito Santo age há um despertamento missionário. Porque a ordem do Espírito Santo é expandir o Reino de Deus como igreja. É o Espírito quem convence o pecador do arrependimento, é quem convoca o crente para viver a vida cristã plena, é pelo Espírito Santo que os vocacionados são levantados para levar a Boa Nova. Então, esse mover do Espírito Santo produziu o movimento missionário brasileiro. E isso tem sido percebido principalmente pelos países do primeiro mundo, países desenvolvidos, ou como queiram chamar. Então, esses países estão olhando para o Brasil, principalmente os da Europa, os EUA, a Austrália. Eles olham para o Brasil e dizem: 'Algo novo está acontecendo'. Porque nunca na história do Brasil foram enviados tantos missionários para fora. De toda a América Latina, o Brasil é quem tem mais missionários no campo, mais agências enviadoras e mais centros de treinamento missionário. Então, eles olham isso com espanto. Eu sou prova disso. Eu, quando estive na Austrália, três vezes pessoas diferentes chegaram para mim e disseram: Eu gosto de lhe ver. E eu me surpreendi: Mas por quê? Sabe por quê? Porque você me lembra o que Deus está fazendo no Brasil".

Guia-me: Mas o Brasil sabe disso? As igrejas brasileiras têm conhecimento dessa responsabilidade diante do mundo?

Missionária Durvalina: Nem todos. Esse despertar missionário tem acontecido sim, muitas igrejas brasileiras estão despertadas, fazendo conferências missionárias, o que antes não existia. O dia de Missões, por exemplo, se a gente for lembrar anos atrás, os batistas tinham o mês de missões, setembro, eles sempre foram mais despertados para a questão de missões. Mas hoje você tem o programa de missões, o domingo de missões em várias igrejas. Então, há um despertar. Agora é uma coisa notável que ainda existe muitas igrejas que não têm essa visão missionária, ainda não absorveram essa visão missionária como uma missão sua. E isso é uma verdade. Mas o 5º Congresso Brasileiro de Missões, que aconteceu em outubro passado, demonstrou que está existindo um avanço, pessoas estão se interessando, às vezes nem parte do pastor, mas de um membro que está sendo despertado e por meio desse membro, com o apoio pastoral, a igreja começa a pensar o tema missionário.

Guia-me: Em sua opinião, a falta de conhecimento do papel missionário da Igreja é um grande empecilho para o "Ide" do Brasil?

Missionária Durvalina: Eu acho que isso traz um pouco de dificuldade para ser trabalhado, obstacula, pelo fato de que se não há o apoio da liderança fica mais difícil trabalhar. E alguns vocacionados , até pelo fato de não terem o apoio da liderança, buscam em outra igreja, em vez de trabalhar na sua igreja e orarem e buscarem esse despertar local. Então, alguns saem e não promovem isso. Então, há maior dificuldade enqüanto a liderança não tem ainda a visão. Mas eu creio que um ponto primordial, eu poderia chamar assim, o quê da questão, é que muitas lideranças não foram ensinadas. Na maioria dos seminários, Missões não é uma matéria enfática. Ela está às vezes em apenas um semestre letivo. E por isso os pastores e os líderes não se despertam. Eu não ponho culpa no líder pelo fato de que eles não receberam, na maioria, eu digo para você com convicção, orientação, informação. Não foram educados pela missiologia, só pela teologia. Forma-se só o teólogo, o que dificulta o trabalho da missão na Igreja.

Guia-me: E o seu despertar para missões? Como aconteceu?

Missionária Durvalina: Eu recebi o chamado de Deus em um retiro espiritual da minha igreja. Na época de carnaval nossa igreja fazia retiro, eu fui com a igreja e percebi Deus me chamando. Eu tinha convicção de que havia sido chamada. Tinha 15 anos de idade, eu lembro exatamente do lugar onde estava, e Deus falou. A chamada para a vocação a gente recebe, mas ela vai sendo confirmada. Então, minha vocação foi confirmada como? Com a minha disposição de servir na igreja. Eu era muito ativa, estudava na escola dominical, saía para visitar com a missionária da igreja, e essa missionária havia estudado no Betel Brasileiro. Então, eu entendi que havia um lugar que preparava as pessoas para a obra missionária. Então, desejei ir estudar para me preparar. E quando fui para o seminário, fiz meu curso e entendi perfeitamente a minha vocação. Agora eu não sou missionária de campo, mesmo que eu já tenha visitado vários países. Dei cursos no Peru, palestras em vários países: Portugal, Inglaterra, outros países, mas a curto prazo. O máximo que eu fiquei no exterior em missão transcultural foram 45 dias. Na Austrália eu estive por um ano, fui como estudante. Então, eu não sou missionária de campo, mas recebi o chamado para trabalhar no preparo de missionários. Atuo com o Betel Brasileito, mas sou vice-presidente da AME - Associação Missão Esperança, que é uma Missão que envia missionários para Timor Leste; Indonésia. Eu sou da diretoria da Antioquia, que tem mais de 90 missionários ao redor do mundo. Sou professora no centro de treinamento da Kairós. Também dou módulo na JAMI, que é a Junta de Missões da Convenção Batista Nacional. Ministro nos Centros de Preparo Missionário da JUVEP e da Missão Priscila e Áquila. Eu fui presidente da  Associação de Professores de Missão do Brasil e trabalhei com esse centro de treinamento. Então, Deus tem me dado a graça de servi-lo, dividindo a minha vida, minhas atenções, minha energia, o que Deus investiu em mim, podendo contribuir para outras instituições, não só Betel. Claro que Betel é meu tempo integral. Há 35 anos eu trabalho no Betel, mas também sirvo as igrejas. Nos finais de semana, estou pregando em Conferências Missionárias.

Meu trabalho de campo foi lá em João Pessoa. Fundei igreja, evangelizei por nove anos seguidos em uma área de João Pessoa, em um bairro, e a igreja foi fundada. Até hoje está ali uma igreja forte, dinâmica. Trabalhei com evangelização durante muitos anos. Só estou em São Paulo há 18, nesse período Deus mudou meu ministério, atuo como itinerante.

Guia-me: Como foi esse chamado? Como a senhora ouviu a voz de Deus?

Missionária Durvalina: Eu acredito que a gente ouve Deus no coração, evidentemente, então quando eu me converti eu já me senti muito entusiasmada por Jesus. Eu me converti com 11 anos, porque meu pai mostrou-me que a verdade estava na Bíblia, eu sou filha de ex-frade franciscano, mas meu pai saiu do convento.

Quando meu pai saiu do convento, ele continuou católico, casou, minha mãe muito católica, e eu fui criada no catolicismo. Eu era "mariólatra" até meus 11 anos. Quando meu pai mostrou-me a verdade do Evangelho eu entendi que não poderia seguir a Jesus, seguindo Maria. E eu, na minha ingenuidade, aos 10 anos, olhei para um quadro que tinha em casa, era Jesus no monte das Oliveiras. E eu disse: 'Jesus, eu quero te seguir. Mas permite que seja com Maria?'. Eu a tinha no coração de uma forma tão forte que a sentia traindo se a deixasse para seguir Jesus. Isso é uma questão da Igreja Católica, que infunde no coração a idolatria. A gente não raciocina, só sente. Quando me converti, quando meu pai me mostrou a verdade, eu quis começar a mostrar a verdade. Aí eu comecei a participar de evangelismo, de visita, de conferência missionária com o grupo da igreja, ensinava na escola dominical, era bem ativa. Estava desejosa de servir a Jesus e decidida a servi-lo. Então, nesse retiro eu atendi ao apelo que fizeram: 'Quem quer se consagrar para a obra do Senhor?'. Aí eu fui à frente. 'Eu quero'. Por quê? Porque já estava dentro do meu coração o desejo de servir a Jesus. E depois desse apelo eu fui, era uma fazenda, eu fiquei sozinha e disse: 'Deus, tu me queres mesmo na obra missionária? Me dedicar só a Ti? Então confirma isso'. Quando eu abri a Bíblia, foi Elias lançando a capa sobre Elizeu. Aí eu pensei: Deus está mesmo me vocacionando. E eu falei para os meus pais: 'Eu quero me preparar porque eu quero servir a Jesus integralmente'. Meu pai, que foi para um convento porque desejava muito pregar o Evangelho, que era muito escasso no interior da Paraíba, quando se converteu começou a ser um pregador. E quando eu recebi meu chamado e fui dizer a ele, ele ficou feliz, chegou a dizer que eu era a pedra preciosa na coroa dele. Só que minha mãe achou que não precisava, porque eu já era ativa na igreja, trabalhava, evangelizava todo domingo. Mas ela cedeu, levou-me para o Seminário, eu estudei interna e Deus foi confirmando no coração que de fato eu sou escolhida por Ele. E essa convicção eu carrego até hoje. Nunca duvidei.

Guia-me: Depois de tantos anos de ministério e lutas no caminho, o que a motiva?

Missionária Durvalina: O que me motiva é o amor a Jesus. Eu amo o Senhor, eu quero servi-lo para sempre. Eu gosto de lembrar daquele escravo que quando chegava na porta da cidade poderia ter a liberdade, porque chegou o ano da libertação. Está lá em Levítico, ele poderia ficar livre, porque chegou o sétimo ano, o sétimo ano era o ano da liberdade. Mas ele chegava na porta da cidade, furava a orelha e dizia: 'Eu não quero ser livre'. Então, é isso que eu quero, servir a Jesus para sempre (emocionada).

Guia-me: Como o Betel iniciou um trabalho missionário no sertão nordestino?

Missionária Durvalina: O Betel nasceu no sertão com duas missionárias canadenses que vieram para o Brasil evangelizar. Agora pensa, sair do Canadá, de Toronto, e vir evangelizar no sertão nordestino. Depois desse tempo de evangelismo, essas missionárias fundaram a escola. Depois de um tempo de evangelização no sertão. Só que era Instituto Bíblico Betel até 68. A partir daí, o Betel tornou-se Instituto Bíblico Betel Brasileiro. Porque a missão saiu e a liderança ficou com uma brasileira que foi aluna do Betel e era professora na época. Então Dna. Lídia Almeida de Menezes assumiu a liderança e o Betel tornou-se Betel Brasileiro há 40 anos.

Guia-me: E o trabalho de evangelização lá continuou?

Missionária Durvalina: Continuou. Hoje nós contamos com mais de 50 trabalhos no sertão. Igrejas e núcleos em cidades em que não havia um crente, não era uma igreja, não, não havia um crente. Como, por exemplo, Serrita, que é uma cidade do interior de Pernambuco. O Betel chegou ali, um senhor se converteu, ele foi depois de alguns anos estudar no Betel, hoje ele é pastor na cidade e dirige a igreja do Betel. Nós temos mais de 50 trabalhos no interior de Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte.

Guia-me: E como atua hoje o Instituto Betel brasileiro?

Missionária Durvalina: O Betel trabalha com quatro colunas. Porque Instituto Bíblico Betel Brasil, antes Instituto Bíblico Betel, já tem mais de 70 anos. Agora o Brasileiro tem 40. O Betel Brasileiro, por causa do crescimento, tornou-se uma agência enviadora. Nós temos missionários em várias partes do mundo, uma obra eclesial, não porque eu quis plantar igreja, mas porque quis evangelizar. Só que ao evangelizar, surgiram os núcleos querendo discipulado. E aí surgiram as igrejas. Hoje nós somos também uma obra social. Trabalhamos com 11 escolas de Ensino Infantil e Fundamental. Por que um trabalho social? Porque nós estamos em duas aldeias, somos a única escola das aldeias de Benfica (PB) e São Francisco (PB), evangelizadas pelo Betel. Então, o nosso trabalho de educação e ação social chama-se DASBB. Está associado ao evangelismo porque o nosso compromisso é levar Jesus às crianças e conseqüentemente aos pais, às famílias. Porque quando a escola é aberta, todos os professores são evangélicos, a direção é evangélica, educação cristã é matéria. Nós usamos os eventos, dia dos pais, dia das mães, a Páscoa, datas comemorativas, para evangelizar. São eventos onde a Bíblia tem a proeminência. Não confundindo a educação com uma catequese. De jeito nenhum. Não existe catequese. Existe a educação cristã, da Bíblia trazida como livro da sabedoria de Deus na educação. Então, a nossa escola tem tido essa graça de unir o conhecimento do Ensino Fundamental ao conhecimento bíblico.

São 11 escolas em várias cidades. Aqui em São Paulo nós temos o Colégio Betel Brasileito ali na Rua Manuel Gaya, na Vila Mazzei. Agora têm duas como eu te falei que ficam na Paraíba, na reserva da Funai. Tem uma que é em Junco do Seridó, bem no interior da Paraíba. Temos uma em João Pessoa, em um bairro bem pobre, chamado São José. É um trabalho muito bonito em cooperação com a Compation, que assiste as crianças com atividades de reforço escolar, artesanato, não apenas ensino.

Este é o trabalho social que nós fazemos por meio da escola. E tem um centro educacional em Suzuka (Japão), que é uma creche para crianças, filhos de imigrantes. Temos também igrejas e extensão do Seminário. O Seminário está em várias cidades do Brasil, são 17 extensões: João Pessoa (PB), Campina Grande (PB), Junco do Seridó (PB), Guarabira (PB), São Paulo (SP), Santo André (SP), Francisco Morato (SP), Salvador (BA), Louro de Freitas (BA), Cruz das Almas (BA), Exu (PE), bairro de Campo Grande (RJ, Niterói (RJ), Volta Redonda (RJ), Goiânia (GO), Brasília (DF), bairro Guará II (DF).

Guia-me: O que a senhora pode dizer para um missionário em campo ou para uma pessoa interessada pela obra missionária, que deseja saber quais são as características de um obreiro aprovado pelo Senhor?

Missionária Durvalina: Primeiro a convicção da chamada. Eu acho que sem a convicção da chamada, a pessoa está no lugar errado. A convicção da chamada é algo que o Espírito Santo dá no interior. É a primeira coisa, eu tenho que ter convicção: Foi Deus quem me chamou. Não é porque meu pastor achou que eu tenho dom para isso, estimulou, pode acontecer pelo estímulo do pastor, isso é bom, mas não pode ser isso o que defina. Não é porque a família orienta: 'Vai ser um pastor'. Eu quero muito, me consagrei para Deus. Isso é a convicção interior, que o Espírito Santo dá. Chamada é obra de Deus. É um ato da ação da vontade soberana de Deus. Ele é quem escolhe. A Bíblia diz isso: 'Não fostes vós que me escolhestes...'. A primeira coisa que eu digo é a chamada.

A segunda coisa que é imprescindível é compromisso. Se eu me dedico a essa obra, eu tenho que me comprometer. Então eu não posso fazer as coisas de qualquer jeito. Nesse compromisso com Deus, está a doação da vida integralmente, eu não posso me dedicar pela metade. Deus não aceita oferta partida. Dedicação absoluta para Deus. Isso significa abnegação e abnegação é você fazer por amor, voluntariamente, não é visar resultados, buscar retorno financeiro, não é galgar cargos e ofícios. Então, todo líder, eu digo isso para toda liderança, seja ela missionária, pastoral, qual for o ministério. Se você é chamado por Deus, deve ter compromisso de uma vida abnegada. E abnegar-se é o compromisso de dizer: 'Eu estou aqui para me doar para o que Deus quiser'. Porque não se faz ministério sem doação de vida.

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