Entrevista: Timothée Paton - Coordenador do Projeto "Ponte da Esperança"

Entrevista: Timothée Paton - Coordenador do Projeto "Ponte da Esperança"

Atualizado: Terça-feira, 26 Agosto de 2008 as 12

Sal e luz para as crianças do Camboja

Por Myrian Rosário   Filho de pais ingleses que foram fazer missões na França, Timothée Paton tem uma vida marcada pelo serviço do Senhor. Antes mesmo de ser gerado foi consagrado a Deus pelos seus pais. Aos quatro anos fez sua decisão por Cristo e ainda durante a infância recebeu o chamado para trabalhar na obra. "Ninguém é tão jovem que não possa aceitar a Jesus e ninguém é tão jovem que não possa se engajar na obra do Senhor", diz ele.

Em 1998, aos 27 anos, Timothée pastoreava uma igreja na França quando o Senhor o chamou para fazer missões no Camboja. "Minha vida era muito fácil. As senhoras têm um carinho especial por pastores solteiros, por isso, elas cozinhavam todos os dias para mim e até me presentearam com um microondas", lembra ele. "Eu pensei que iria viver para sempre na França, mas Deus me chamou para o Camboja".

Embora não conhecesse muito sobre aquele país, Paton deu tudo o que tinha - "móveis, carro e até o microondas" - , comprou uma passagem só de ida e embarcou sozinho para o Camboja, em 1999. Em entrevista exclusiva para o Portal Guia-me o coordenador do projeto "Ponte da Esperança" fala sobre o seu trabalho com as crianças de rua no Camboja.

Guia-me: Por que você decidiu trabalhar com crianças carentes?

Timothée Paton: Eu sempre fui muito abençoado. Sou filho de missionários, quando eu e meu irmão éramos pequenos, meus pais oravam conosco todas as noites. Eu sempre fui à igreja todos os finais de semana. Eu queria dar um pouco do muito que eu tive para aqueles que não tiveram as mesmas chances que eu.

Guia-me: Você teve algum tipo de preparação específica antes de se mudar para o Camboja?

Timothée Paton: Não. Mas eu já havia feito um curso intensivo de Missões, de três meses, na Inglaterra, e também havia trabalhado com crianças de lares desfeitos, durante dois anos, no Exército da Salvação.

Guia-me: Quanto tempo se passou entre o seu chamado e o seu embarque?

Timothée Paton: Um ano inteiro, dedicado à oração.

Guia-me: Como foram os seus primeiros dias no Camboja?

Timothée Paton: Eu não conhecia ninguém além da equipe da WEC (agência missionária). Havia 20 missionários lá quando cheguei. Comecei do zero e levei um ano para aprender a língua khmer.

Guia-me: Que estratégias o Senhor te deu no início do trabalho?

Timothée Paton: Uma igreja da Coréia do Sul nos enviou um ônibus de presente e, a princípio, não sabíamos o que fazer com ele. A notícia chegou a um missionário americano que viajou para o Camboja para reformar o ônibus. Ele retirou as 47 poltronas, construiu um banheiro com chuveiros, uma cozinha e um posto médico dentro do ônibus, que se transformou numa escola. Todos os dias, saíamos de manhã e à tarde pelas ruas de Phnom Penh e ministrávamos às crianças de rua. Mas, um ano depois o ônibus quebrou.

Guia-me: E como vocês deram continuidade ao trabalho sem o ônibus?

Timothée Paton: O ônibus foi quebrando aos poucos e, quando parou de vez, foi uma bênção. Foi a partir dai que eu tive a idéia de montar uma casa onde as crianças poderiam passar mais tempo, um tempo de qualidade, conosco. Começamos trabalhando com 15 crianças que eram ministradas, ensinadas, aconselhadas e alimentadas todos os dias. Essa casa chama-se "Ponte da Esperança".

Guia-me: Como era a situação das crianças cambojanas quando você chegou lá?

Timothée Paton: Quando cheguei havia 20 mil crianças de rua, a maioria trabalhando em lixões, de onde tentavam obter seu sustento. A guerra civil encabeçada por Pol Pot, líder do Khemer Vermelho, entre 1975 e 1979, levou o país à desolação. Todos os professores foram mortos, as escolas e igrejas foram destruídas. No final da guerra, havia apenas dois pastores. Muitas crianças tiveram suas pernas mutiladas pelas bombas. Ainda hoje, quase 30 anos depois, ainda há cerca de seis milhões de minas no Camboja. A maioria das crianças vivem em favelas e trabalham nas ruas, inclusive à noite. Esse trabalho é muito perigoso porque não há policiamento. Muitas meninas vão para a Tailândia para trabalhar no turismo sexual. É uma situação muito difícil até hoje. Mas muitas crianças já atravessaram a ponte: têm um lar, vão à escola, têm o suficiente para comer todos os dias, não precisam trabalhar para se sustentar, têm as suas necessidades emocionais e físicas atendidas e estão ligadas a uma igreja local.

Guia-me: Qual é o objetivo da "Ponte da Esperança"?

Timothée Paton: Nós temos trabalhado, há nove anos, para tirar essas crianças das ruas. Nossa base é próxima das favelas. Além de fornecer alimentação e de apresentar Jesus a elas, desenvolvemos programas de formação profissional e temos até um time de futebol infantil. Também trabalhamso com as famílias.

Guia-me: As crianças alcançadas pelo projeto têm dificuldade para voltar para a escola?

Timothée Paton: Sim. Muitas deles se sentem discriminadas nas escolas públicas. Existe um preconceito contra as crianças que trabalham nos lixões. Por isso, temos contatos com escolas cristãs onde elas se sentem mais à vontade para estudar.

Guia-me: Você enfrentou algum tipo de resistência por parte dos pais por proclamar o cristianismo num país budista?

Timothée Paton: Nunca enfrentei nenhum tipo de resistência. Primeiro porque há muitos órfãos e depois porque a guerra mudou os conceitos dos cambojanos também em relação à religião. A guerra é uma coisa terrível, mas, nesse aspecto, foi positiva. As pessoas viveram muito tempo no budismo e concluíram que essa filosofia não satisfazia às suas necessidades. Os cambojanos estão muito abertos ao evangelho.

Guia-me: O que você sabe sobre a condição das crianças carentes brasileiras?

Timothée Paton: Ouvi dizer que crianças são vendidas no Brasil, que muitas vendem seus corpos e que também há tráfico de órgãos. A necessidade aqui também é muito grande. Mas, no Brasil há muitas igrejas e igrejas grandes, com mais de três mil membros. Na França, uma igreja grande tem 400 pessoas e na Bélgica 60. Quando vi a quantidade de igrejas existentes nesse país, percebi que vocês já têm a resposta para esse problema.

Guia-me: De que maneira a igreja poderia atuar para a solução dos problemas das crianças brasileiras?

Timothée Paton: Na maioria das igrejas, o propósito maior do povo é ser abençoado. Muitos vão aos cultos para ser prósperos, ter boa saúde, ter seus problemas resolvidos. Essa é uma visão muito egoísta, há uma valorização extrema do eu. Temos que orar para que a mentalidade dos cristãos mude e eles saiam para ser "luz" fora das igrejas. Eu não acredito que instituições ou orfanatos sejam boas idéias para as crianças carentes. Mas a igreja tem a solução. A igreja não deveria recorrer ao governo em busca de respostas, mas o governo deveria recorrer à igreja. Vejo que há muito "sal" preso num jarro e não espalhado entre as pessoas. Há "sal" suficiente para alcançar toda a população brasileira. E há muito "sal" no Brasil para alcançar o resto do mundo.

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