Epidemia dos maustratos e nossa luta contra ela

Epidemia dos maustratos e nossa luta contra ela

Atualizado: Quinta-feira, 6 Maio de 2010 as 5:26

Imagine se você pudesse entrevistar os adolescentes de todas as escolas da sua cidade para descobrir como e quais problemas enfrentam e de que forma imaginam o futuro. Foi exatamente isto que a pesquisadora Simone de Assis, doutora em saúde pública, fez. Ela conduziu em 2002 e 2003 uma pesquisa em São Gonçalo, RJ, que entrevistou estudantes de escolas públicas e particulares do 8º e 9º anos do ensino fundamental e da 1ª e 2ª séries do ensino médio. Veja o que ela descobriu:

Os resultados deixam clara a elevada frequência com que a violência ocorre no âmbito da família e das pessoas próximas aos adolescentes. Quase um quinto desses jovens sofre agressões severas, que envolvem chutes, mordidas, espancamento e até ameaças com arma de fogo ou faca.

Quanto à violência psicológica, cerca da metade dos adolescentes convive com ela direta ou indiretamente.

Os adultos os humilham, não os elogiam quando agem corretamente e não os estimulam para os desafios que precisam enfrentar. Também quase um quinto desses adolescentes já passou por experiências sexuais traumáticas ou perturbadoras; já testemunhou violência sexual sofrida por algum membro da família; já teve medo de sofrer violência sexual quando um dos pais estava sob efeito de álcool ou drogas; e já se envolveu em relação sexual com os pais.'

Os adolescentes de sua cidade vivem melhor do que os de São Gonçalo? Temos uma verdadeira epidemia de maus-tratos contra a criança e o adolescente no Brasil e no mundo. A violência é um problema geral, difícil de vencer e que conta com raízes profundas na cultura brasileira.

Erradicamos a poliomielite e o sarampo no Brasil. Como? Identificando os inimigos, criando vacinas e vacinando todo o Brasil. Ao declararmos guerra contra a violência é certo que, em vez de lutar contra vírus, teremos de enfrentar nossos próprios conceitos, desejos egoístas e maus hábitos. Esta é uma tarefa bem mais complexa, mas não há outro remédio!

Como será a vacina contra os maus-tratos? Derrotamos maus-tratos com bons tratos! Temos de encarar os bons tratos como meio de prevenção e proteção de nossas crianças. Para tanto, o primeiro passo é estudar a fundo o que são maus-tratos. Como acontecem? O que fazer para diminuir sua prática?

O que são maus-tratos

Maltratamos um objeto quando deixamos que ele estrague. Não tomamos o cuidado para que ele não quebre, não desbote, não enferruje. Maltratar uma pessoa é não perceber o seu valor, é desprezá-la, atitude muito pior que o desprezo por um objeto. Maltratar uma criança é tratá-la como se ela não existisse, falando por ela, olhando por cima dela, usando o toque para coagi-la, e não para expressar afeto. Maltratar uma criança é não perceber nela uma obra criada pelos dedos de Deus e a partir do seu coração. Muitas vezes agimos assim sem intenção de maltratar, mas a verdade é que isto abre as portas para os maus-tratos intencionais. Se ninguém dá valor, ninguém vai se incomodar ao ponto de agir em favor daquela criança. Estão criadas assim as condições para que o abuso e a violência se estabeleçam de forma perversa.

O que são bons tratos

Os bons tratos anulam os efeitos dos maus-tratos e minam a violência. Ao se tratar bem alguma coisa, cuidamos para que qualquer ameaça contra ela seja enfrentada. Fazemos isto porque reconhecemos o valor daquele objeto e desejamos preservá-lo. O bom trato é sempre intencional.

Quanto às pessoas, o bom trato é um reflexo da nossa atitude para com Deus, e para com a sua obraprima, o ser humano. Tratamos bem uma pessoa porque reconhecemos nela o toque de Deus e a valorizamos, queremos o seu bem-estar. O bom trato para com a criança é reconhecer em cada uma esta pessoa tocada de forma única pelo próprio Deus!

O bom trato implica na disposição em lutar pelos direitos de cada criança e adolescente como parte do compromisso que temos em garantir uma vida digna, uma vida plena para eles.

Como vacinar todo mundo?

Sendo os bons tratos a própria vacina contra os maustratos, a nossa tarefa consiste em impregnar todos os ambientes sociais com ela. Que fatores favorecem os bons tratos? Trabalharmos para transformar cada ambiente em um lugar acolhedor. Onde há luz, não há trevas; onde há limpeza, a sujeira desaparece; onde se praticam os bons tratos, os maus-tratos se tornam impraticáveis.

A casa, a escola, o projeto social e a igreja precisam da ação transformadora dos valores do reino de Deus. À medida que estes valores ganham espaço, os conceitos que sustentam o comportamento agressivo são confrontados e banidos. Um aviso: este trabalho é mais difícil do que parece. Valores e conceitos gostam de se esconder, intenções impuras preferem morar nas sombras. Assim como na luta contra o sarampo ou a pólio, é preciso insistir, repetir e persistir na ação de combate!

Podemos e devemos impregnar todos os espaços com os valores do reino de Deus. E nestes ambientes as crianças serão tratadas com amor, alegria, paz, paciência, amabilidade, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio.

Portanto, mãos à obra! As crianças e os adolescentes da sua cidade agradecem. (E. G.)

Nota

1. AZEVEDO, Maria Amélia, GUERRA, Viviane N. de Azevedo. Violência doméstica contra crianças e adolescentes: um cenário em desconstrução. In: UNICEF. Direitos negados: a violência contra a criança e o adolescente no Brasil. UNICEF: Brasília, 2006.

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