Fome, miséria e alcoolismo nas vilas de pescadores no Brasil são os alvos da MEAP

Fome, miséria e alcoolismo nas vilas de pescadores no Brasil são os alvos da MEAP

Atualizado: Domingo, 31 Maio de 2009 as 12

"- Eu conheço uns pescadores muito antigos, que viveram há mais de 2.000 anos e deixaram algumas coisas para dizer a vocês.

- É mesmo, pastor Márcio?

- É, são os pais de vocês. Eu conheço um pescador chamado João que deixou algumas coisas para vocês. Está neste livro. Olha, tá vendo como eles foram pescadores? Tá vendo eles pescando no barco? Tá vendo aqui, ó? O mar se levantou, mas Jesus estava no barco." Assim, Márcio Garcia, um dos fundadores da MEAP - Missão Evangélica de Assistência aos Pescadores, apresentava Jesus em algumas das 1.600 vilas alcançadas pela missão desde 1980. Distantes dos centros, às vezes, mais de 12 horas de barco, as vilas espalhadas pela costa brasileira são um retrato do esquecimento governamental e muitas vezes da Igreja.

A distância das cidades deu aos moradores hábitos e crenças próprios. Vivem como em uma tribo, seguem o exemplo dos mais antigos e as orientações de um líder. Sofrem com a fome, a miséria e o alcoolismo. Têm problemas de saúde e educação, pescam artesanalmente. O conhecimento bíblico que possuem é do período dos jesuítas. O pastor Antonio Tote, diretor de comunicação e desenvolvimento da MEAP, colaborador da missão desde 1992, e pastor de três famílias missionárias que estão em campo, conta que a cultura religiosa dos pescadores das vilas é o que aprenderam de outras gerações: "Por muitos anos, mais de 400 anos, dizem os estudiosos, ninguém conviveu com eles no sentido de cultura religiosa, os tatara deles que falavam: Olha aqui tem uma capelinha que a gente faz o Pai Nosso". Tote explica que mesmo conhecendo a oração que Jesus ensinou, não há quem ministre nas capelas das vilas.

Atualmente, todo o litoral brasileiro, com exceção do Amapá, que possui aproximadamente 400 vilas, foi mapeado. A missão conta com sete bases, em cinco estados: São Paulo, Paraná, Bahia, Maranhão e Amapá. Elas são pontos de comunicação para as igrejas parceiras e missionários.

Em entrevista ao Guia-me, o pastor falou sobre o trabalho missionário e as dificuldades de um povo que vive em um cenário muito menos romântico do que o retratado em documentários na TV sobre pescadores.

O Mensageiro

Quem identificou primeiramente a necessidade desses pescadores foi Jaime Orr, filho de missionários canadenses. Orr começou seu trabalho na região de Cananéia (SP), construindo um barco, o Mensageiro. Feito de madeira, mesmo antes de sair ao mar ou ter o motor quitado, a embarcação acabou tornando-se uma fogueira de pescadores locais. Tote frisa que a graça de Deus estava sobre o missionário, o Mensageiro não sobreviveria ao alto-mar. Ele construiu então o Mensageiro II, agora em fibra.

Com o Mensageiro II na água, Orr percebeu que necessitaria de ajuda para prestar assistência aos pescadores e levar a Palavra de Deus, só na região identificou mais de 20 vilas. Márcio Garcia chegou à missão em 1981. Tote revela que desde que Orr mostrou a necessidade das vilas, Garcia foi impactado: "Ele não sabe se ele pegou a visão ou se a visão o pegou". Em uma das viagens, os dois missionários salvaram-se de um acidente e sentiram-se imediatamente impulsionados a oficializar a missão. Se alguma coisa acontecesse a eles, o trabalho não acabaria. Em 1986, foi fundada a MEAP.

Parcerias

Tote explica que as parcerias acontecem hoje antes mesmo que uma igreja seja construída na vila. A MEAP traça o caminho de barco, entra em contato com os pescadores, prega o Evangelho e cria uma estrutura para receber missionários. Depois que um grupo pequeno se converte, uma igreja assume o trabalho. "É uma visão de todas as denominações [...] Agência missionária é a logística da igreja", explica o diretor.

Fome

Praias paradisíacas escondem o problema da fome. Nas vilas, a fonte básica de sustento é a pesca. Segundo Tote, apenas 2% delas possuem alguma atividade extrativista. Não há moeda para compra e venda ou mesmo estabelecimentos comerciais. Os moradores sobrevivem de trocas.

Por possuírem embarcações de pequeno porte, os pescadores das comunidades não podem alcançar o alto-mar. Muitos que se aventuram acabam deixando a família sem sustento por muitos dias ou morrem no percurso. Pescando nas regiões mais próximas por muitos anos, o alimento acaba ficando escasso. Para enganar o estômago, enquanto o pescador não retorna para casa, em alguns lares consome-se água e areia. "É uma das normalidades do campo", aponta.

O diretor conta um episódio da vila de Barcelos, na Bahia: "Três irmãs de cinco, seis e sete anos saíram da nossa creche na sexta-feira e não voltaram até a quarta-feira seguinte. Então, uma equipe foi atrás. A casa das meninas estava fechada, mas a portinha era de palha e a equipe empurrou. Encontraram a mãe e a três filhinhas, ainda com o uniforme da MEAP, desmaiadas no chão de inanição. O pai havia saído para pescar. Ficaram desde sexta-feira sem comer".

Habitação

"As vilas chiques têm casa de alvenaria", afirma Tote em tom de atenção. Noventa por cento das comunidades constroem suas moradias com materiais como o bambu. O diretor explica que devido à exposição ao sol, o vegetal enverga, permitindo a entrada de poeira, raios solares, chuva, insetos e animais peçonhentos. Algumas vilas, como a de Afuá, no Amapá, são construídas em palafitas.

Saúde

A má alimentação e as péssimas condições de moradia, aliadas ao fato de apenas 2% das 1.600 vilas possuírem água doce, estimulam a proliferação de doenças. É comum, nas comunidades onde há uma lagoa, que a mesma água seja usada para banho, limpeza de roupas, alimentação e ingestão. "Então, se eles pegarem um copo d’água, mas não tiver nada pulando, bebem, porque para os moradores a água está muito boa, pode estar até marrom", expõe Tote.

Para represar a água da chuva, 98% das vilas utilizam a cacimba. Construídas no local mais baixo da região, as cacimbas armanezam águas pluviais. O material sólido decanta e o restante da água é utilizado. "Ela vem lavando o chão. Só que a casa do pescador não tem hidráulica, não tem fossa, toda necessidade de homens e mulheres é feita em torno de quatro metros da casa. Isso vai para a cacimba. Todo o bicho que eles têm é criado solto e as fezes do animal também vão para a cacimba. A água lá tem cor, cheiro e gosto", explica o pastor.

Os postos de saúde ficam nos centros urbanos. Os mais próximos, em geral, estão a cinco horas de barco e exames laboratoriais chegam a demorar meses para gerarem resultado. Para amparar a saúde dos pescadores, a MEAP monta periodicamente equipes de médicos e dentistas que vão voluntariamente às vilas. Na Bahia, a missão estruturou um barco de análises clínicas que percorre a costa do estado. Em dois dias, os moradores das vilas passam por consultas, exames laboratoriais e recebem o remédio adeqüado.

Educação

Não há escolas nas vilas. Nas mais próximas dos centros urbanos, um barco da prefeitura leva e traz diariamente as crianças para as instituições de ensino. Tote conta que a missão também entra em contato com o governo da cidade onde a vila está localizada, que encaminha um professor para dar aulas aos filhos dos pescadores, mas, devido à distância e às condições dos locais, muitos vêem o trabalho nesses locais como um castigo.

Na grande maioria das vilas, os próprios missionários ensinam o conhecimento básico às crianças. Dentre as 1.600 vilas, três possuem creches, que contam com reforço escolar. O pastor fala que esse é um projeto da MEAP que permite que a criança que mora nas vilas, alimente-se e estude: "A criança só volta a ser criança quando está em uma creche. Elas nunca viram lápis, plástico. Lápis de cera se você der, eles comem". No Maranhão, o trabalho é conhecido como "Meu Peixinho". Os alunos das creches possuem padrinhos, mantenedores mensais. Com uma contribuição de R$50,00", uma criança pode ir à creche todos os dias.

Alcoolismo

"75% dos pescadores são alcoólatras". A afirmação é do diretor de comunicação da Missão. Ele O vício chega às praias de duas maneiras, uma delas é o turismo. Por serem locais preservados, as praias chamam a atenção de turistas que aportam barcos de passeio nas regiões. Sem perspectiva de vida, o pescador troca um peixe na brasa, que ele mesmo pescou, por copos de wisky, cerveja, e droga, oferecidos pelos turistas. As mulheres das vilas, sem esperança e habituadas com o abuso sexual, que sofreram em casa, prostituem-se e muitas engravidam.

O consumo de álcool também é estimulado pelas trocas comerciais com funcionários de barcos de companhias de pesca, que após terem trabalhado em alto-mar, passam pelas vilas para comprar os peixes dos pescadores artesanais a preços irrisórios para depois vendê-los pessoalmente na cidade. Sem sal, gelo ou eletricidade, eles não têm condições de manter o peixe armazenado. A tainha, por exemplo, que é vendida em um entreposto em média a R$ 7,00 o quilo, é adquirida por R$ 0,19 a unidade. O valor é somente mensurado para as trocas comerciais. O funcionário da companhia de pesca, que não deseja carregar alimentos como arroz e feijão em seu barco, oferece um saco a R$ 25,00. O pescador da vila, sem poder adquiri-lo, aceita um engradado de pinga como troca.

Hábitos

"Hoje eu matei muito peixe". Tradução: "Hoje eu pesquei pouco". Aparentemente incoerente, a frase é dita com freqüência nas vilas de toda a costa brasileira. Tote conta que a distância dos centros urbanos criou um linguajar próprio para os pescadores das vilas.

Vivendo em um sistema quase tribal, possuem um líder, que recebe o cargo por herança. Ao chegar em uma vila, a missão precisa entrar em contato primeiro com o líder e mostrar a ele qual a finalidade da visita: "Você tem que chegar primeiro no líder, pregar para ele, mostrar que você veio para ajudar, trazer alimentação, roupa e Jesus", afirma Tote.

Apenas os homens, e somente os que pescam, reúnem-se à noite para conversar. Por desconhecerem a instituição do casamento, são poucos casais que estabelecem laços afetivos duradouros. Os pescadores, em geral, têm muitos filhos com mais de uma mulher.

Como não estão sujeitos à vigilância da Lei, o que garante a ordem nas vilas é o fato de que, em geral, duas ou três famílias povoaram o local.

Desvalorização da mulher

O pastor conta que a ação de desvalorização da mulher inicia na infância. São comuns os casos de abuso sexual em crianças a partir dos seis anos. Ele relata que a naturalidade desses acontecimentos cria uma conivência de pais, tios e vizinhos, faz com que muitas mulheres vejam seu corpo como objeto: "A única saída para aquela criança é pregar o Evangelho de forma que aqueles homens se convertam".

A luz de Cristo e a mudança

"O missionário chega com a luz". É dessa forma que Antonio Tote tem visto as mudanças nas vilas. A conversão, o que ele traduz como metanóia, ou mudança interior, faz diferença nas atitudes. Ele conta que o pescador que conhece a Jesus, em uma troca comercial com um barco de uma companhia, por exemplo, passa a negociar. O consumo de álcool passa a ser visto como um malefício à saúde e às relações humanas.

O pescador convertido, que não casou e têm filhos, começa a perceber a necessidade de constituir uma família e ser o provedor do sustento da casa. As mulheres também passam a reconhecer-se feitas à imagem e semelhança de Deus. Vêem seu corpo como templo do Espírito e percebem que sua sexualidade precisa ser vivida em amor e em família.

Tote chama a atenção para o comprometimento da igreja em levar à Palavra de Deus: "Cristo resolve tudo. O problema é Cristo chegar lá. Ele não chega pela internet. Ele só chega lá se você for [...] E o termo igreja, eclésia, no grego, é saída, nós invertemos isso, hoje a igreja fica. Quando Antioquia teve que enviar, ela enviou o melhor que ela tinha: Paulo e Barnabé. Quando que nós vemos isso? Porque o principal é isso, Jesus Cristo foi missionário".

Para ele, somente assim, será possível ouvir um pescador narrar, em seu modo peculiar de contar os fatos, a passagem bíblica de Marcos 4:35-41: - Porque então, todos estavam no barco, e daí deu um vento sul lá, mas Jesus acalmou.   Para conhecer os projetos da MEAP, ser um mantenedor, um missionário ou uma igreja parceira, acesse: www.meap.com.br

Fotos: MEAP  

veja também